Bartolomeu Dias: “Há angolanos à espera da falência das empresas de outros angolanos”

Empresário de referência em Angola, com investimentos na região Austral do continente, com destaque para a Namíbia e a África do Sul, sem esquecer o Botswana, Bartolomeu Dias entende que “devemos criar também as nossas estrelas”. Para ele, há angolanos que estão expectantes na falência do negócio de outros angolanos, esquecendo-se das consequências, sobretudo o desemprego que isso causa e no aumento da pobreza das famílias. Assegura que o grupo que dirige está a fazer investimentos na ordem de USD 100 milhões

Que análise faz da relação entre os empresários nacionais?

Estou nesta vida há cerca de 30 anos. O que vejo é triste. Há gente que trabalha, dá o seu melhor, mas há outras pessoas que ficam felizes vendo os outros caírem. Tornou-se comum banalizar-se os outros. Por exemplo, agora dizem que recebi USD 219 milhões do BPC. Estamos numa sociedade onde as pessoas não são associadas por aquilo de positivo que já fizeram neste país. Penso que temos de salvaguardar o nome das pessoas que primam pela transparência, como é o nosso caso.

E a relação entre os empresário?

Repito, há pessoas à espera da falência das empresas dos outros. Querem saber quando é que o Grupo Bartolomeu Dias vai falir. Há muita inveja no país. Portanto, estes não têm noção que fechando uma das empresas do meu grupo vão centenas de pessoas na rua, e os dependentes destes ficam sem pão. Sinto no dia-a-dia que há conspiração para que o nosso Grupo caia. Quando estive no Egipto, por exemplo, ouvi falar muito do Gilberto e do Flávio. São essas nossas estrelas que devemos proteger. O Matias Damásio teve um problema e fomos todos por cima. Não é o caminho. Todos os países têm as suas referências em diversos sectores e devemos protegê-las. Nem todos aqui são gatunos.

Não deve a nenhum banco?

Neste momento não. Não quero com isso dizer que nunca contrai dívidas. Aliás, é normal que os empresários trabalhem com os bancos e que contraiam dívidas. Entretanto, o modo como algumas dívidas foram contraídas junto do BPC, por algumas entidades e empresários é que não é o mais correcto. É por isso que sou associado a esta instituição, pois as pessoas pensam que estou também na mesma condição. Não é verdade! Muita gente recebeu dinheiro sem garantias e contribuíram para que o banco estivesse na condição em que está hoje. O meu grupo sempre trabalhou com o BPC desde que foi criada a primeira empresa. Portanto, não tendo dívida neste momento, e pela relação que sempre tive com este banco, posso afirmar que sou um dos melhores clientes do BPC, onde nunca tive facilidade, e mantenho as minhas contas lá.

Em função do que diz acha que o BPC devia fazer um esclarecimento público?

Sim. O banco precisa fazer um esclarecimento público em defesa daqueles clientes que não lhe criaram prejuízos. É uma forma de devolver a honra de alguns clientes. O que se diz por aí afecta a minha credibilidade como chefe de família, como pai, e como empresário que inspira muitos jovens. Há muitos jovens que ligam para mim para conversar e saber da minha história de vida, desde a criação da primeira empresa até agora. Como é que estas pessoas vão olhar para mim depois de o meu nome estar associado a dívidas com o banco? Importante é dizer que somos o que somos porque trabalhamos com dignidade, honestidade, no sentido de honrarmos a família que representamos. Ganhamos o dinheiro de forma honesta, sem precisar de enganar nada a quem quer que seja.

E por que será que lhe associam a essas coisas?

Sou empreendedor nato, nascido de uma família humilde e ganhei espaço fruto do meu esforço, dedicação, e comprometimento com os meus objectivos. É isso que fez ascender na vida. E muitos gostariam ser como eu. Há riquezas que resultam do roubo. Este não é o nosso caso. Portanto, o meu entendimento é que, aqueles que trabalham de forma honrada devem ser protegidos. Ainda podemos e devemos ter reservas morais e que começaram a vida de baixo para cima.

Está com isso a reiterar que começou no empreendedorismo quando vendeu a pulseira de outro?

É exactamente isso. E tenho muitos amigos que ainda vivem e que podem testemunhar sobre a origem do património que construí ao longo do tempo. Logo no início do meu percurso empresarial, estive no Brasil e depois nas Lundas.

Novos investimentos na indústria

O Grupo Bartolomeu Dias possui uma fábrica de produção de sacos. Como está o funcionamento desta unidade industrial?

A unidade está a funcionar em pleno. Nesta altura temos uma capacidade instalada para produção de 2 milhões de sacos por mês. E a reação do mercado é boa por sermos, actualmente, a única fábrica de sacos plásticos no mercado. Importa referir que vamos inaugurar, em Abril próximo, uma fábrica de luvas, que será o segundo passo. Temos já assegurados 120 empregos directos na fábrica de sacos Sabemos que há investimento na indústria transformadora na Huíla, com a produção de sanitários… Sim. Estamos a montar uma fábrica na Huíla que terá a capacidade para 250 mil unidades por ano. A fábrica está a ser instalada num espaço de 13 mil metros quadros e vamos criar 300 postos de emprego. Quando terminarmos este projecto industrial vamos nos focar na produção de arroz, no município do Cuchi, província do Cuando-Cubango.

Qual é o volume de investimento para a unidade de produção da Huíla?

A fábrica da Huíla vai custar USD 22 milhões. E vamos continuar a investir. Por exemplo, estamos a erguer o Business Center (Centro de Negócios), onde estará igualmente a sede do Grupo. Serão três edifícios. De forma global, estes investimentos vão consumir USD 100 milhões. Importa realçar que estamos a utilizar dinheiro sem recurso a financiamento bancário. Fazemos parte da primeira geração de empresários, que começou a trabalhar depois de 1992. Queremos deixar este legado para os filhos e os netos.

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