Carmo Neto: “Já emprestei algumas vezes do meu dinheiro para pagamento de salários ao pessoal da UEA”

Carmo Neto é militar de carreira, advogado de profissão e escritor por paixão. É nessa condição que assume, até à presente data, o cargo de Secretário-Geral da União dos Escritores Angolanos (UEA). Entretanto, a sua gestão tem sido motivo de muitas controvérsias no seio da classe. Diante de uma fase difícil de recessão económica, o ainda secretário refuta todas as acusações de que tem sido alvo. Em fim de “missão”, conta a este jornal os meandros que nortearam a gestão do seu terceiro e último mandato

Está em fim de mandato, qual é o balanço que faz deste triénio?

Um triénio realmente difícil, um momento de turbulência económica e social do país, com reflexos directos e indirectos na literatura que é o nosso objecto, mas ainda assim participamos na edição de livros com destaque para uma antologia sobre literatura em língua portuguesa. Estou a falar de uma antologia com a presença de escritores dos países de língua portuguesa desde Camões à mais nova geração portuguesa, tal como em Angola com registo dos mais nobres como Agostinho Neto, Pepetela, etc., aos mais jovens, incluindo falantes em português tal como Goa e Damão. Todo este trabalho foi orientado pela professora catedrática Helena Buescu da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em parceria com a Inocência Mata. Vários doutores professores de literatura estiveram engajados no projecto. De Angola representaram o país os doutores Luís Kandjimbo e Manuel Muanza. Realizamos com o novo movimento literário Litterargris eventos diversos, dos quais se destacam o ensino do quimbundo que contou com discentes de nacionalidade portuguesa e brasileira.

E no domínio das nossas ‘Makas’ é inesquecível a realização de uma Maka à Quarta-feira, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde o debate incidiu sobre a promoção da literatura angolana em Portugal. E mesmo em crise partilhamos a nossa arte com renomados escritores africanos da Cote d’Ivoire, Congo-Kinshasa e Congo-Brazaville, sem esquecer o memorável debate que tivemos com o mítico cantor Barceló de Carvalho” Bonga”. Receberemos um outro, a breve prazo. Um cantor que virá do Ruanda, antes do fim do mandato. Consolidamos a presença do prémio literário ‘Quem Me Dera Ser Onda’ em todo o território nacional, enquanto aguardamos pela revitalização do prémio ‘Sonangol de Literatura’ suspenso.

Quais foram os maiores desafios face à crise económica que o país também atravessa no sector que ainda dirige? Como os conseguiu ultrapassar?

O problema é que tivemos que nos reinventar. “Criar com os olhos secos”. Claro que diante da falta de financiamento regular, isto é, mensal como era habitual por parte do Ministério da Cultura, agravada com redução substancial das rendas dos nossos inquilinos, no que diz respeito ao nosso Jango e ao espaço ocupado pela Somague e à livraria, ficamos diminuídos. Se não tivéssemos criado algumas alternativas teríamos as portas fechadas. Mesmo assim sobrevivemos. E os salários dos trabalhadores mesmo atrasados são pagos. E não pensemos que seja algo isolado que apenas mexe com a UEA. O Ministério da Ciência e Tecnologia ficou de cá vir revitalizar o nosso site mas não o fez. Não conseguiu honrar a palavra e o compromisso por falta de dinheiro para aquisição dos meios que necessitamos.

Como é que compara este mandato em relação aos dois anteriores?

Nada tem de comparável. É realmente uma lastimável situação, indescritível.

Teve nos últimos meses do ano passado algumas contestações de confrades da UEA, alguns dos quais chegaram mesmo a solicitar desvinculação enquanto membros da UEA. Até que ponto isso terá afectado a sua gestão?

Temos um estatuto que todos os seus membros devem obediência. O acto que motivou a auto-exclusão de dois dos seus membros não é da minha responsabilidade. Eles pediram voluntariamente a sua exclusão. Aconteceu o cometimento de um crime público e não privado, cuja responsabilidade de investigação compete às autoridades policiais e, por conseguinte, tribunais, resumindo poder judicial. Claro que mexeu com a nossa sensibilidade e efectuámos as deligências previstas por lei. Sou advogado de profissão com escritório há mais de 20 anos, inscrito na Ordem dos Advogados de Angola (OAA) com o número 199, mas impedido de exercer porque sou Comissário de Polícia com a função de Conselheiro do Comandante-Geral da Polícia Nacional. Claro que posso exercer a função de consultor jurídico. Portanto, domino a matéria. De facto não afectou a nossa gestão. Continuamos a editar livros, a realizar as nossas Makas à Quartafeira e efectuámos lançamentos de várias obras literárias. E temos registado memoráveis actos de natureza cultural.

Ganha com os espaços arrendados da UEA?

Via de regra o valor da renda do Jango, arrendamentos à Somague, armazém e livraria destinava-se a edição de obras e eventos, porque os valores que recebíamos do Ministério da Cultura eram relativamente suficientes para pagar salários. Na situação em que vivemos, há meses não pagos, outras vezes pagamentos residuais no valor de quinhentos mil Kwanzas. Enfim!…

Comenta-se em alguns círculos da classe dos escritores que a sua condição social terá mudado completamente depois de se tornar SG da UEA. O que tem a dizer a esse respeito?

Ainda criança aprendi o abecedário com a minha avó Maria. Estou a falar dos anos 60 do século passado. Depois tive explicadores e explicadora, agora funcionária reformada da Sonangol. Dos ex-explicadores um é empresário em Benguela e chegou a ser meu colega do mesmo instituto quando fomos abrir o Instituto Normal de Educação do Lobito. O outro falecido, o Vato era alto funcionário do Ministério da Cultura. Meu pai era o Chico Bonito para as garotas da sua geração e doutor Sarmento para os colegas do famoso Quéssua, muitos dos seus ex-colegas são generais e altos funcionários. Desapareceu em 1975, tal como o seu pai, soba soba Cunga do Lau, em Malanje, em 1961. Mesmo destino teve o seu irmão, ao lado do pai.

Ainda não respondeu a minha questão, senhor SG…

Estou-lhe a fazer o enquadramento para perceber melhor. Antes de cá estar na UEA, convidado por dois renomados escritores, exercia advocacia ao lado de ex-professores meus da Faculdade de Direito. Ganhei o suficiente para comprar casas, carros, terrenos e escritório próprio. Conheci a cidade mais cara do mundo, Monte Carlo, onde pela primeira vez assisti a corrida de fórmula 1. Pelo meu desempenho como advogado fui convidado a apadrinhar o casamento do filho do dono da empresa, um banqueiro bem-sucedido no mundo dos negócios. E note bem: a direcção do Comando- Geral não quis que exercesse o cargo de secretário-Geral, para melhor desempenho das minhas funções na Polícia. Daí a razão, porque sou Comissário-Conselheiro do Comandante-Geral da Polícia e secretário-Geral da União dos Escritores Angolanos. Tire as suas ilações… Está vivo um dos escritores que pessoalmente contactou- me para membro da UEA nos anos 80 do século passado e rejeitei. Só mais tarde aceitei a filiação. Portanto, saiba também que são várias as vezes que antigos clientes meus ajudam-me a solucionar os nossos problemas da UEA. Estamos entendidos?

Estou eu a fazer as perguntas e gostava que respondesse embora o tenha compreendido. Ainda assim, consta que o senhor vive dos rendimentos e dos bens da UEA…

Eu viver dos rendimentos da UEA? Nem como personagem fictícia gostaria de fazer este papel. Mas saiba telegraficamente o seguinte: Já algumas vezes emprestei do meu dinheiro para pagamento de salários ao pessoal da UEA.

Quer com isso dizer que não melhorou a sua condição social depois de ter assumido a direcção da UEA?

Meu caro, antes de chegar a secretário- Geral da UEA fazia e realizava outras acções. Era porta-voz da Polícia Nacional e advogado ao mesmo tempo, porque naquela altura a OAA ainda não me tinha proibido do exercício da advocacia. Aliás, exerci advocacia durante mais de 12 anos antes da minha nomeação ao cargo de porta-voz da Polícia Nacional. Depois da proibição por incompatibilidade passei a ser mero consultor das empresas em que antes advogava. Deixa-me sublinhar também que antes da advocacia fui director da revista militar do Estado Maior-General das FAA. Fui membro fundador do Jornal Desportivo Militar. Cheguei a exercer a docência por um ano por ter feito o Instituto Normal de Educação, no ensino médio.

Como é que entra para UEA?

Fui durante os anos 80 do século passado contactado por dois membros da UEA, um deles já falecido, a filiar-me. Mas rejeitei. Achava prematuro, quando Luandino Vieira era SG. Mais tarde durante os anos 90 fizeram constar o meu nome numa lista para ingresso. Apareci no acto e recebi o meu cartão de membro.

Os eventos que acontecem na sede da UEA são pagos? Se sim, como são encaminhados esses valores?

Os eventos que se realizam na nossa instituição são gratuitos, mesmo quando realizamos no Jango, entretanto arrendado para eventos de carácter privado há um senhor gestor com experiência na matéria. Nestas circunstâncias o interessado trata da matéria com o nosso inquilino, que entretanto cede-nos o espaço quando dele necessitamos desde que avisemos com a devida antecedência. Belo contrato, não é? Pena é que nestes dias contam-se pelos dedos da mão os clientes que arrendam o espaço. O valor da renda serve para pagamento das nossas habituais despesas. Para uso privado da nossa sala, onde acontecem as habituais Makas-à- Quarta- feira cedemos a preço simbólico, prevenindo que não nos falte material de limpeza e manutenção.

Continua a haver pouca edição de livros por parte da UEA. Qual é a principal razão?

Para a edição de obras é necessário que tenhamos verba para o efeito. Tínhamos antes da crise o razoável. Mesmo assim editamos algumas obras. Devo fazer particular referência à antologia editada pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Livros da UEA editados em Portugal em parceria com a Leya. Livros e antologias em inglês, francês, espanhol, árabe, alemão e italiano etc… Mas há luz para solução definitiva. Basta para o efeito que a Lei sobre a Promoção do Livro e da Leitura seja regulamentada e entre imediatamente em vigor. Rica em pormenores, no que diz respeito aos autores, livros infantis, antologias, traduções, distribuição, bibliotecas e a questão financeira etc. A UEA já fez o que devia. Antes da aprovação do OGE fizemos chegar um memorando sobre a matéria aos deputados- escritores, para que acautelassem a regulamentação da referida Lei, mas parece que deveremos aguardar por mais tempo, porque a comissão que vai trabalhar sobre a exequibilidade da referida Lei já reuniu. Eu estive presente a representar a nossa UEA.

Sei que havia um projecto imobiliário na sede da UEA. Está em fim de mandato como é que está essa iniciativa?

O projecto imobiliário não está em execução porque gerou-se um clima de expectativa duvidosa. Preferi dar mais algum tempo, mesmo depois da apresentação do projecto, com a participação de alguns escritores. Havia muitas dúvidas. Dei tempo ao tempo e a crise agravou a inviabilidade financeira para a sua execução. Mas é um projecto semelhante ao que dá luz e vida às academias de Letras brasileira e francesa.

Como assim?

Quer dizer, o construtor ergueria o prédio urbano na vertical, integrando infra-estruturas familiares ao nosso objecto, designadamente salas multiusos, livraria, restaurante, escritório, biblioteca, parque de estacionamento etc, equivalente ao valor do preço do terreno, propriedade da UEA ou mais negociando, fazendo hipoteticamente que o construtor ficasse com cinco andares e a UEA com igual número de andares. E no cálculo de valor o custo do terreno fosse inferior a cinco andares negociava-se o pagamento a longo prazo. Claro, só teríamos ganho. Mas fez-se muito barulho. Perdemos tempo. A crise apareceu e engoliu o projecto! Provavelmente ressuscitará. Amém… Farei no meu terreno (risos)…

Que qualidades sugere ao próximo SG, que deverá ser conhecido em Abril desse ano depois de convocada às eleições pelo Presidente da Mesa da Assembleia Nacional?

As qualidades estão regulamentadas. O resto é publicamente indizível.

Quantos membros efectivos a UEA controla? As quotas têm sido pagas? E quem não o faz sofre alguma penalização?

Somos cerca de 128 membros vivos e 37 falecidos. A quota é de seis mil Kwanzas anuais. A maior parte cobre as lacunas dias antes das eleições que acontecem de três em três anos, porque perdem o direito de voto se não cumprirem. Essa é a penalização.

Para quando um novo livro da sua autoria?

Quando me livrar das “algemas” da União terei muito mais tempo para escrever. Aguarde pelas surpresas. Os livros surgirão.

O que fará depois da saída da UEA. Nos pode antecipar?

Sou funcionário público, nas vestes de Comissário-Conselheiro do comandante-geral, terei muito trabalho, depois de um breve repouso.