Os negros não beijam?

Comecemos antes pelas mãos. Andamos pelas ruas das nossas cidades e contam-se nos dedos das mãos os casais que vemos a andar de mãos dadas. Isto para não falar do abraço. Não os vemos nas ruas, nas praças, na praia. Beijo na rua, de pessoas que se amam, é outra “anormalidade” no nosso país, podendo até ser alvo de censura quem a tal se atreva. Aqui, entre nós, beijo não é afecto também, é intimidade. Portanto, um casal que se beije na boca em público está a lesar o decoro. Morreu no início da semana, no Domingo, aos noventa e cinco anos, George Mendonsa, o marinheiro que no dia do anúncio da rendição do Japão, marcando o fim da Segunda Guerra Mundial, beijou uma desconhecida no meio da euforia que se tinha mudado para a Time Square, em Nova Iorque. Ela era enfermeira. Estava no meio da festa quando o homem a agarrou (hoje as raparigas diriam que tinha boa pegada), a torceu para trás e lhe roubou um beijo de cinema. Ou melhor, o cinema passou depois a imitar-lhe o beijo. Estava lá um fotógrafo e o beijo foi parar à capa de uma revista, fi cou imortalizado e até ganhou uma estátua. Agora o movimento #MeToo vem condenar o ladrão do beijo, “é um abuso”, dizem. Querem arrancar a estátua. Aqui não temos nada disso, o negro (incluído o brando angolano) não beija em público. Nem para comemorar o fim da matança. Eu só não sabia que era por medo premonitório das feministas.