O melhor filme do ano fala do inferno do racismo

Book, originalmente um roteiro de hotéis e lugares autorizados a negros no Sul dos Estados unidos na década de 1960, deu o nome ao fi lme que arrebatou este ano o Óscar. um afro-americano e um latino-americano aventuram-se nesse inferno racial

As audiências de Green Book naturalmente aumentaram. A diferença entre um bom filme que até pode passar despercebido e um que acaba de ganhar um Óscar para o melhor filme do ano são enormes. Green Book é um bom filme. E não apenas por ser um retrato cru e muito bem fotografado do racismo sulista nos Estados Unidos, lembrando o “apartheid” efectivo que ainda se impunha mesmo nos tempos do liberalismo de Kennedy, mas, sobretudo, porque a relação entre os dois protagonistas, um afro-americano e um italo-americano, é desenvolvida com muita mestria, pegando numa situação improvável que, de facto, aconteceu, pois o filme é baseado numa história real.

O afro-americano, um pianista famoso, é culto, refinado, um talento que obteve uma educação excepcional. Também um solitário. O italo-americano vem do Bronx, um bairro pobre de Nova Iorque, ninho da colónia italiana, é pouco instruído, tem uma família tradicional que se multiplica em parentescos e distingue-se pelos hábitos rudes – é segurança em discotecas, evitando intimidades com a Mafia, que lhe é, naturalmente, quase ‘familiar’. Os dois homens estão divididos pela cor da pele e pelo estatuto social. É sobre a fronteira que aparentemente os separa que Peter Farrelly construiu um filme muito interessante, narrando a complexa relação entre o célebre pianista Don Shirley (o papel desempenhado por Mahershala Ali) e o personagem incarnado por Viggo Mortensen. Têm ambos interpretações de tirar o chapéu.

Estas personalidades opostas – Viggo Mortensen torna-se motorista improvisado de Mahershala Ali – acabam por encontrar-se, no meio da atmosfera de terror delirante sulista. O pianista afro-americano sente-se isolado, pois a sua própria raça desconfia dos privilégios que tem. Desconfi a de quem toca acompanhado de copos de whisky em cima do piano. Decide empreender uma corajosa digressão pelo Sul profundo dos Estados Unidos, onde não o deixam frequentar hotéis para brancos, utilizar as casas-de-banho dos brancos, ou mesmo circular na rua a partir de uma certa hora. Arris

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