Um Presidente, um vice-presidente, um governador e festa no Carnaval

Rostos felizes, corpos eufóricos e muita folia, esta foi a força da maior manifestação cultural de dança: o Carnaval. Este ano Luanda voltou a ter um Presidente da República na bancada, mas desta vez estrangeiro, Marcelo Rebelo de Sousa. Será sinal de que o Carnaval de Luanda passa a ter interesse internacional? É tarefa para Luther Rescova, o governador local

Tudo começou quando eram precisamente 17 horas. Lá vinha o primeiro grupo a desfilar pelo tapete asfáltico da Nova Marginal. Era o União Povo da Samba, ao som do apito do seu comandante, José Ngola, e com Semba nos pés. O Carnaval de Luanda contou com a presença do Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, do vice-presidente de Angola, Bornito de Sousa e da ministra da Cultura, Carolina Cerqueira e do governador de Luanda, Sérgio Luther Rescova. O grupo oriundo da Samba exibia, em cartaz, a beleza marítima angolana, em especial a Ilha do Mussulo. Com panos verdes e azuis, de falhas em forma de losângulo, expressava o tom das águas oceânicas, durante 25 minutos, numa pista com cerca de 400 metros.

O colectivo passava assim uma mensagem, fazendo menção à preservação do mar e ao respeito pelas espécies marinhas. A sua canção retratava ainda aspectos ligados à bessangana e aos pescadores. O grupo era composto pela corte, o comandante, dançarinos, que perfaziam um total de 700 pessoas, a contar com a falange de apoio. Interpelado pela reportagem de OPAÍS, o comandante José Ngola adiantou que o facto de o seu grupo a proceder à abertura do desfile era importante para o colectivo, uma vez que na edição passada foram o grande vencedor na classe B. “O que acabámos de apresentar é resultado de muitos meses de preparação. Fomos o primeiro grupo a desfilar, posição que muitos almejamos.

Espero que, conforme ao que se passou no ano passado, possamos também estar entre os vencedores”, observou. Não obstante tratar-se de uma competição, o comandante desejou aos demais grupos boa participação, tendo realçado que deve ser vencedor o grupo que melhor se apresentou em todos os aspectos. O grupo União Etu Mudieto foi o segundo a desfiar na pista da marginal da Praia do Bispo. Na sua canção, abordou a sua persistência em continuar a desfilar no Carnaval de Luanda, apesar das dificuldades no que diz respeito à falta de apoio. O referido grupo foi fundado em 2011. No desfile, estiveram mais de 500 pessoas, que com folia fizeram a festa no estilo de semba.

O guionista Sebastião de Carvalho avançou que pelo facto de serem um grupo novo e enfrentarem algumas dificuldades, tudo farão para continuar a participar no entrudo. “Depois de muito tempo de um árduo trabalho, apesar das vicissitudes que passamos, conseguimos apresentar aquilo que pretendíamos. Com preserverância estamos a dar continuidade ao Carnaval. Não há motivos de desistência”, avançou. O desfile prosseguiu com o grupo Juventude Unida do Kapalanga, composto por mais de mil pessoas. Com a dança Kazucuta, esta formação interpretou a canção “Ngolo Xalexa” (estou a me despedir). Com esta canção, o comandante do grupo, Eugénio Filipe, fez o seu último desfile na marginal. O grupo, de guarda-chuvas pretos na mão direita e bengalas na esquerda, assim exibiu o seu potencial.

Dando sequência, entrou em cena o grupo União Njinga Mbandi, com a canção “Corredor do Kwanza”, mostrando a relevância económica que este espaço, também considerado turístico, tem para o país, como, por exemplo, Massangano, a Igreja da Muxima e a Barra do Kwanza. Este grupo mostrou-se bastante singular nas vestes lilases e vermelhas para as mulheres e azuis e amarelas para os senhores. Nos pés, embora bastante incomum num desfile de carnaval, ostentavam calçados da marca Adidas. O grupo, igualmente, mostrou-se organizado ao perfilar-se em segmentos circulares e em linhas paralelas. com maior numero de foliões no desfile, 3 mil, (entre comerciantes do mercado do 30, da Regedoria, estudantes e funcionários públicos), teve como estilo dançante a Cabecinha. Pelo que se observou, esteve presente um número elevado de mulheres.

Segundo o comandante, António Domingos (Tony Mulato), o facto serviu para mostrar que o grupo sempre valorizou o trabalho feito pelas mulheres. “Como estamos no mês da mulher, aproveitamos também para homenageá-la. Fiz o meu trabalho e vamos esperar pelo trabalho do corpo de jurados”, realçou. A União Recreativa do Kilamba, por sinal, o oitavo grupo a desfilar na pista da Marginal, foi o vencedor da edição passada, dominou o desfile com as suas vestes compostas por cores lilás, rosa, amarela, vermelha e azul. Sob o comando de Poly Rocha, ao som da canção e toques de dança Semba, apresentaram vários aspectos históricos e culturais do país, como a escravatura.

Já o União Mundo da Ilha, o 13º a pisar sob o tapete da Nova Marginal, e grupo com mais vitórias na história do Carnaval angolano, à luta pelo 14º título, foi muito peculiar ao apresentar várias espécies marinhas. Por conseguinte, num dos carros alegóricos grelhava peixe, sob o olhar atento do público.

Outros grupos Desfilaram ainda no entrudo o União 54, União Geração Sagrada, União Kiela, União Twabixila, União Sagrada Esperança, União Twafundumuka, União Jiza, União Operário Kabocomeu, União Nova Geração do Mar, União 10 de Dezembro, União Jovens da Cacimba, e União Jovens do Mukwaxi.

Perfil dos grupos União Recreativa Kilamba: fundado a 27 de Julho de 2015, o comandante é Poly Rocha, o rei Domingos Manuel, a rainha Lourdes António. Dança Semba. Título da canção: Muangola Mukulu (Angola Ancestral). Interpretada por D. Caetano/URK.

União Twabixila: fundado a 18 de Fevereiro de 2009, o comandante é Benedito Jacinto, o rei é Adão Joaquim, a rainha é Odeth Joaquim. Dança Dizanda. Título da canção: Massada perdida. Interpretada por “Folhas Caídas”.

União Sagrada Esperança: Fundado a 20 de Março de 2005, o comandante é José Carlos, o rei Mário Aguiar, a rainha Luísa Paulo. Dança Semba. Título da canção: Kudikola kwa Idimakaji (Grito do Camponês) (Não temos medo), interpretada por Manuela da Rocha.

União Twafundumuka: fundado a 18 de Novembro de 2011, o comandante é Francisco Joaquim, o rei Inocêncio José, a rainha é Maria Gregório.

União Jiza: fundado a 03 de Janeiro de 2003,o comandante é Luís Tomás, o rei é Manuel Cassule, a rainha Madalena Joaquim. Dança Semba. Título da canção: Maka mu Sanzala. Interpretada por Lutuima Sebastião.

União Mundo da Ilha: fundado a 08 de Novembro de 1968, o comandante é Salomão Manuel, o rei é Mário Carlos, a rainha Beatriz Almeida. Dança Semba. Título da canção: Jimbungo ja Lunga. Interpretada por Tonicha Miranda. Grupo com mais vitórias (13).

União Operário Kabocomeu: fundado a 20 de Janeiro de 1952, o comandante é Manuel Júnior, o rei António Manuel, a rainha é Samba Francisco. Dança kazukuta. Título da Canção: Sambizanga. Interpretada por Joaquim Júnior.

União Nova Geração do Mar: fundado a 8 de Janeiro de 2000, o comandante é Sando Van-Dúnem, o rei é Anderson Magalhães, a rainha é Ana Maria Francisco. Dança Semba. Título da canção: Ò Njila ya Kidi (O caminho da verdade). Interpretado por “Guilhermino”.

União 10 de Dezembro: fundado a 10 de Dezembro de 1978, o comandante é Pedro Vidal, o rei é Rosário Pascoal, a rainha é Eva Manuel do Fumo. Dança Semba. Título da Canção: Monami. Interpretado por Domingas de Andrade. Terceiro grupo mais vitorioso (4).

União Jovens da Cacimba: fundado a 02 de Fevereiro de 1985, o comandante é Carlos de Andrade, o rei é Flora de Andrade, a rainha é Flora de Andrade. Dança Semba. Título da canção: Angola Nova. Interpretada por Domingas de Andrade.

União Jovens do Mukwaxi: fundado a 02 de Fevereiro de 1978, o comandante é Mutumila Agostinho, o rei Yuri de Carvalho, a rainha é Joia. Dança Semba. Título da canção: Lumbi (inveja). Interpretada por José Machado.

 

error: Content is protected !!