Marcelo Rebelo de Sousa “Estamos condenados a ser irmãos”

Gratidão, respeito e fraternidade foram as palavras de ordem que dominaram, ontem, o discurso do Presidente da República portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, na Assembleia Nacional

Na Sessão solene especial, o Presidente português agradeceu as honras que lhe foram oferecidas e a oportunidade de discursar no Parlamento angolano em nome do povo português, o que caracterizou como sinal de amizade que une os dois povos. Marcelo Rebelo de Sousa deixou um apelo para aquilo que deve ser sempre a Assembleia Nacional, vista como a casa da democracia, do Estado de Direito Democrático, dos direitos fundamentais, da liberdade, da separação de poderes, da afirmação do primado da Constituição e da lei, tanto na política, na economia, na sociedade, como na cultura, sobre o povo português e sobre os angolanos.

O estadista português, apelou, por outro lado, para a gratidão, o respeito e a fraternidade, as quais considerou serem mais do que uma amizade, uma “cumplicidade nas horas más e nas horas boas, mais do que a parceria e económica, financeira, social e política”. Sublinhou que a fraternidade que “une os dois povos é mais do a partilha linguística ou cultural”, realçando que é esta fraternidade que persiste para além de todos os agravos e as injustiças do passado. “Trata-se de uma fraternidade que sabe que ambos queremos um mundo mais justo, mais pacífico, mais dialogante, mais respeitador do direito internacional e dos direitos humanos”, afirmou.

Acrescentou que esta é, também, uma fraternidade mais multilateral, mais atenta às alterações climáticas e à justiça entre as gerações, disse Marcelo Rebelo de Sousa. Avançou que essa fraternidade se traduz também de Portugal em ver Angola como “um só povo e uma só nação”, e que se transforme numa potência a emergir num um caminho na vivência democrática e no combate pela justiça e transparência. Apontou que é esta justiça e transparência que faz Angola ver Portugal como uma plataforma entre culturas, civilizações, oceanos e continentes, nas Nações Unidas, na Organização Internacional para as Migrações (OIM), União Europeia (UE) na coesão social e na equidade migracional. “Nós estamos condenados a sermos irmãos, e mais vale assumirmos que o somos, e dessa inspiradora inevitabilidade retirarmos todos os proveitos para os nossos povos, do que teimarmos em negar uma realidade, porque essa fraternidade nunca desaparecerá”, concluiu.

Visita de particular importância

Por sua vez, o presidente da Assembleia Nacional, Fernando da Piedade Dias dos Santos, disse que a visita do Presidente de Portugal reveste-se de particular importância, na medida em que simboliza o aprofundamento das relações entre Angola e Portugal. Acrescentou que os dois países mantêm relações históricas e seculares marcadas por momentos “altos e baixos”, mas que agora resultaram numa relação franca de fraternidade, de amizade, de respeito e vantagens mútuas. Segundo ele, o destino dos dois países deixou marcas indeléveis de influência entre os dois povos, e que continuam patentes nas relações que os unem. Fernando da Piedade recordou que Portugal, embora vincado pela cultura ocidental, e Angola pela cultura africana, os dois países comungam a mesma língua, sendo o elemento fundamental congregador e depositário dos ditames que apelam à amizade e à cooperação entre ambos.

“É com este espírito, Sua Excelência, Presidente da República portuguesa, que esta Magna Casa, representativa dos cidadãos da República de Angola, vos recebe, na certeza de que, após a visita de vossa excelência, Angola e Portugal, separados por sete mil quilómetros de distância, estejam cada vez mais próximos, mais irmanados e mais cooperantes”, disse Considerou ainda o parlamento angolano como uma instituição dos tempos novos, de uma nova Angola ressurgida com a terceira República, através de um processo de reconciliação entre os irmãos irmãos desavindos, e que acreditaram que “o país só caminha se juntarmos sinergias para um mesmo objectivo”.

Deputados satisfeitos

O Presidente do Grupo Parlamentar do MPLA, Américo Cuononoca, manifestou que o discurso do Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, pretendia traduzir aos angolanos a necessidade de se recuperar e reactivar as relações que unem os dois povos do ponto de vista histórico, linguístico e cultural. Já o vice-presidente da UNITA, Raúl Danda, referiu que o discurso foi bom também para aprofundar as relações entre Angola e Portugal, não só no domínio económico, comercial, e cultural, mas em todas as vertentes onde a cooperação é possível.

O deputado da CASA-CE Manuel Fernandes referiu que foi um discurso encorajador, que trouxe “muita esperança, muita fé” e também passou alguns recados para aquilo que devem ser os caminhos a trilhar daqui para frente, no âmbito da consolidação da democracia angolana. Por seu turno, o presidente do PRS, Benedito Daniel, entende que o discurso foi proveitoso, muito confortável e deixou claro que o povo português e angolano são “indissociáveis” e irmanados por muitos séculos da sua convivência. O presidente da FNLA, Lucas Ngonda, defendeu que o Presidente de Portugal, desde a visita do Presidente angolano João Lourenço ao seu país, manteve sempre o mesmo discurso da necessidade de se criar uma relação de amizade com Angola, diferente daquela que teve no passado.

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