Paulo de Carvalho: ““Há um combate cerrado a quem faz investigação científica”

Um dos mais renomados sociólogos angolanos, o professor catedrático Paulo de Carvalho, tem sido uma das vozes mais críticas em relação ao que se passa- aindano ensino superior em Angola. defende que os estudantes paguem alguma quantia para terem acesso ao ensino superior, mas é contrário a que se continue com a realização de novos exames para permitir que alguns entrem. Frontal, como sempre, garante que tem havido um combate cerrado aos professores que ainda fazem investigação científica. Mais pormenores na entrevista que se segue

Contrariamente aos anos anteriores, neste observamos uma série de reprovações nunca vistas dos candidatos que pretendiam ingressar nas instituições públicas de ensino superior. O que se passa na prática?

Este ano, começou finalmente a aplicar-se a regra segundo a qual deve ser admitido no ensino superior quem demonstra o mínimo de aptidão para isso. Deixou de bastar a apresentação de um certificado de conclusão do ensino médio, pois como se sabe um tal certificado não tem de implicar conhecimentos que possibilitem o ingresso no ensino superior. Além disso, o ensino superior é selectivo, de modo a que apenas devem ingressar nele apenas os mais qualificados.

Por que razão não houve as mesmas reprovações para ingresso no ensino superior nos outros anos?

O que antes acontecia era que os candidatos ingressavam segundo o número de vagas, sem importar haver ou não um conhecimento mínimo para ingresso. Houve uma luta de uns bons anos para acabar com isso e, finalmente, acho que venceu a sensatez. Que eu saiba, não há universidade alguma que admita estudantes com notas abaixo até dos 20%, com excepção das universidades angolanas. Olhe, na nossa faculdade até achamos que deveríamos exigir 14 valores (e não os 10 valores que hoje se exige). Eu, pessoalmente, sou por chegarmos a essa fasquia dos 14 valores no espaço de 2 ou 3 anos. É preferível termos turmas pequenas, com gente minimamente qualificada, do que turmas grandes, com estudantes barulhentos e que não percebem o que se lhes está a ensinar. Até porque a mediocridade se reproduzia para o mercado de trabalho, incluindo o sector da educação, com um ciclo vicioso de proporções cada vez mais alarmante.

E neste ano, até que ponto se deve recorrer ao segundo exame? É normal que os estudantes, independentemente das notas que tiveram no primeiro exame, tenham direito a uma outra oportunidade?

Penso que um segundo exame, este ano, não tem de constituir problema. Mas só este ano ou eventualmente mais uma vez. Que não se crie o hábito de haver dois exames de ingresso. Os estudantes têm de começar a habituar- se a ter de estudar para o exame de ingresso. E depois, parece-me estar errado assumir que serão os mesmos candidatos a fazer o segundo exame. Por exemplo, se alguém não se pôde inscrever da primeira vez, por alguma razão, por que motivo será também excluído do segundo exame? Que haja nova inscrição. Quem decide sobre estas matérias deve começar a ouvir outras opiniões, que podem muitas delas revelar-se válidas para melhoria da qualidade do sistema de educação.

O que pensa da introdução do ano zero em muitas universidades públicas?

Para ser franco, não sou a favor de qualquer ano zero. Para já, implicaria a mudança da lei de bases do sistema de educação. Para além disso, a dúvida é: se alguém não aprendeu o que devia no espaço de 11 anos, por que razão se pensará que vai aprender tudo isso depois, no espaço de apenas 1 ano? O problema não está no tempo de ensino (um ano a mais), mas na qualidade desse mesmo ensino. Quem nos garante que os docentes do ano zero terão mais capacidade e maior competência do que os seus colegas da primária ou da secundária? O nosso sistema tem sido construído baseado numa mentira, a julgar pelos últimos acontecimentos consubstanciados numa série de reprovações no ingresso em quase todos os cursos superiores? Pois claro que sim. Tem havido denúncias e, todos estes anos, quem denuncia o que está mal tem sido objecto de epítetos e de insultos, para além de ser combatido de forma directa e impiedosa. Os autores disso estão aí, circulam e continuam a mandar bocas sem que nada lhes aconteça. Acontece nas várias faculdades e nas várias universidades. Alguns deles vão até trabalhar no ministério, onde ficam ainda mais arrogantes. O caso mais evidente é o combate cerrado a quem faz investigação científica e vai publicando os resultados dessa investigação. Esses são uma minoria, que é combatida a ferro e fogo, com calúnias e intrigas. Foi nisto que se transformou o ensino superior. E é isso que muita gente pretende que se mantenha inalterado. Essas pessoas estão convenientemente identificadas e sabe- se bem quem os protege, são os mesmos de sempre.

Quais são as grandes debilidades dos estudantes no seu ponto de vista, depois de ter passado por universidades na cidade capital e ter ido dirigir uma outra em Benguela?

O principal problema dos estudantes é considerarem que são o máximo, quando (regra geral) deveriam retornar para 2 a 4 anos antes daquele em que estão). O sistema de ensino angolano transmite aos alunos uma série de defeitos, com destaque para a arrogância, a falta de humildade e o individualismo exacerbado. Há já alguns anos temos chamado à atenção para isso, mas ninguém faz nada para alterar esse estado de coisas. É preciso que se diga que isso não depende dos próprios alunos, é um problema do sistema e é responsabilidade dos docentes e da máquina arrogante que dirige o sistema de educação. A maioria dos docentes não são disciplinadores, nem estão preocupados com a educação das crianças e jovens que estão a seu cargo. O resultado disso é desastroso. Temos, hoje, no ensino superior, estudantes que maldizem e combatem professores apenas porque lhes chamam à atenção para os erros que cometem. E temos estudantes (e até docentes) que não admitem que lhes corrijam os erros. Ai daquele pro- O sistema de ensino angolano passa aos alunos uma série de defeitos, com destaque para a arrogância, a falta de humildade e o individualismo exacerbado fessor que for intelectualmente correcto e que for disciplinador; vai ver o nome manchado pelos corredores da faculdade, com cartas a maldizerem o seu nome e com calúnias nas redes sociais.

Foram razões políticas que estiveram na base do que observávamos anteriormente, tendo em conta o que se passou consigo na Universidade Katyavala Bwila?

Não, não foram razões políticas. Foram opções por parte de quem na altura dirigia o sistema. Eu estava (e estou até hoje) a favor de reformas no ensino superior, a bem do sistema e a bem do país. E assumia isso publicamente. Pois quem pretendia o regresso ao anterior status quo, de completa desordem, uniu forças num amplo complot contra a minha pessoa. Foi tal esse amplo complot, que logo após a minha saída foram promovidas as pessoas que antes tinham demonstrado incapacidade e ânsia desmedida pela falta de rigor (já se sabe com que objectivo). A verdade é que, quem promoveu novamente essas pessoas hoje continua no governo e quem apoiou esse esquema monstruoso continua em funções (seja no Estado, seja no aparelho partidário). É estranho, mas essa é a realidade. E começaram a espalhar que eu não deixava roubar, apenas para ficar eu com tudo para mim. Pois alguns dos intriguistas receberam novos cargos e voltaram aos mesmos esquemas de sempre, sem que nada lhes tivesse acontecido. Estão aí, impunes. Estão impunes até aqueles que difundiam calúnias e ameaças de morte, imagine.

Depois dos resultados que foram sendo apresentados pelas várias universidades no país, entre públicas e privadas, não acredita que algumas faculdades deveriam repensar a forma como lidam com os professores, a julgar com o que aconteceu com a antiga responsável do curso de Matemática da Faculdade de Ciências, Maria de Natividade?

Pois claro que sim. Não é possível os estudantes não quererem um professor e ele ser afastado. A não ser que demonstrem incapacidade e incompetência por parte desse professor. O problema é que os incapazes e incompetentes se mantêm e até ascendem a cargos administrativos, fazendo reproduzir a incapacidade e a incompetência. No caso da Dra. Maria de Natividade, fala-se em arrogância e maustratos a estudantes. Okay. Então, que não se juntem as coisas. Chame-se à atenção, para a docente corrigir os seus erros, pois maus-tratos a estudantes não podem ser admitidos. Mas não se misture isso com o facto de haver muita cor vermelha nas suas pautas. São duas coisas distintas. Se eu amanhã (por exemplo) insultar os meus estudantes com nomes feios, devo ser admoestado por isso; e não porque na minha disciplina, Y, só aprovaram 40% dos estudantes. Já notou que em alguns casos a vontade dos estudantes chegou a falar mais alto do que o rigor de muitos professores? Afinal, quem decide ou decidia por eles? Realmente, isso acontece. Mas não pode ser. Não podem ser os estudantes a determinar os critérios de avaliação. Olhe, eu tive ainda há dias um estudante do Mestrado que reclamou, porque a sua dissertação obteve nota negativa. Pois para além de ter demonstrado saber pouco da matéria, tal estudante demonstrou ainda que não quer aprender. E é docente no ensino superior, imagine. O que ensina um indivíduo destes, que nem sequer é minimamente modesto, quando a modéstia é uma das primeiras qualidades do docente? Acha que sabe mais do que os seus professores, apesar de normalmente só dizer baboseiras quando abre a boca…

“vamos ter professores catedráticos a concorrer a postos subalternos em serviços públicos”

Enquanto sociólogo, como viu o que se passou com o concurso da Saúde, em que muitos médicos reprovaram nos testes para admissão ao funcionalismo público? Contrariamente ao que algumas pessoas dizem, considero útil o facto de o empregador (neste caso, o Estado) pretender optar pela admissão dos melhores, dos mais qualificados – sejam médicos, sejam detentores de outras profissões. Se noutros casos ninguém reclama contra o concurso, por que razão reclamarão no caso dos médicos? Para médicos e engenheiros civis, mais razão ainda há para haver rigor na admissão. E não serão os candidatos a definir as regras de admissão, tal como no ensino superior há estudantes que querem definir as regras de avaliação. O ensino da medicina baixou tanto de nível, que se justificam medidas de prudência. Aliás, sabemos que um dos grandes problemas do nosso sistema de Saúde consiste no diagnóstico. Quantos diagnósticos errados se proferem, sendo muitos deles verdadeiros atestados de óbito? É preciso aprovar rapidamente legislação que preveja a perda da carteira profissional por incompetência médica. É assim em todo o mundo, que devemos agir da mesma forma.

Quais foram as vantagens trazidas pelas regiões académicas criadas em todo o país? Deve-se manter o mesmo modelo ou urge alguma alteração pontual?

Ouvi dizer que vão alterar o actual modelo. E, como sempre, pretenderam fazê-lo sem ouvir ninguém. Eu acho que o modelo das regiões académicas terá sido um modelo de transição. Um modelo que, a meu ver, pecou pelo facto de ter sido traçado com régua e esquadro, sem atender a questões de natureza antropológica, sociológica e, até, política. Mas a alteração é matéria que deve ser amplamente discutida. Falamos em democracia no ensino superior e quer-se confundir democracia com eleições. Pois pode haver eleições e não haver democracia, não haver participação na tomada de decisões (que é, esta sim, a essência da democracia).

Foi anunciado que os estudantes das universidades públicas terão de pagar propinas nos próximos tempos. É a favor desta medida?

Eu sempre fui a favor do pagamento de alguma coisa, mas nunca o valor astronómico (ou quase pornográfico) que a comunicação social já adiantou publicamente. Quando dizemos que o ensino superior é gratuito, arriscamo-nos a que as direcções das faculdades não tenham sequer dinheiro para ter as casas de banho limpas. Portanto, acho que se deve pagar alguma coisa. Mas isso é assunto que precisa de ser estudado, não se pode determinar o pagamento de um valor astronómico e ponto final. Por um lado, dizemos que queremos rigor no ensino superior. Mas, por outro, quem dirige o subsistema não pode fixar valores como este sem o mínimo de rigor. E sem ouvir. O segredo de quem dirige qualquer sector do Estado deve ser saber ouvir. E no ensino superior estivemos e continuamos muito mal a este respeito.

O país vai enviar 300 estudantes às melhores universidades do mundo. É uma medida acertada? Quais devem ser as nossas prioridades?

Não tenho nada contra isso, muito pelo contrário. Acho que devemos enviar estudantes para fora do país. Agora, quais são os critérios de admissão? Não foram discutidos ao nível do ensino superior. Pois é preciso que haja critérios para atribuição de bolsas de estudo e não, como até aqui, que haja angolanos a ser “tratados como filhos” e outros angolanos a ser “tratados como enteados”. Ainda temos casos destes, com bolsas atribuídas na gestão anterior, mas que agora a coisa mudou de figura, porque o jovem é filho ou é sobrinho de quem interessa combater. São atitudes absurdas como estas que não deviam ocorrer. É lamentável, mas conheço casos destes.

A Sonangol, por seu lado, vai atribuir 500 bolsas de estudo, quase todas na sua instituição, o ISPTEC. Sendo esta a maior empresa do país, não fazia sentido, por exemplo, que se pensasse também noutras instituições de ensino, já que esta pelo menos só se encontra em Luanda?

Absolutamente. Então amanhã a TAAG passa finalmente a ser rentável e decide atribuir bolsas de estudo apenas para o Instituto Superior de Transportes (por exemplo)? Não me parece correcto. Se a Sonangol pode atribuir 500 bolsas de estudo, deve encaminhar esses recursos para a entidade encarregue pela gestão das bolsas de estudo. Pode recomendar que uma parte (nunca mais de metade do total) seja para as áreas que lhe interessam. Mas não está certo encaminhá- las para o ISPTEC. Da mesma forma como não é correcto que um colega meu do ISPTEC, com menor qualificação e menor graduação, tenha um salário 5 vezes superior ao meu, que trabalho na UAN. Penso que há muita coisa a mudar no país, para encaminhar os recursos disponíveis para os locais para onde devem ser encaminhados. De outro modo, vamos ter professores catedráticos a concorrer a postos subalternos (de agente administrativo, porteiro ou empregado de limpeza) em serviços públicos, tais como o ISPTEC, o Ministério das Finanças ou o BNA. Aí, então, será o descalabro total.