Idosa completa 100 anos de idade e diz: segredo é respeitar pai e mãe

O distrito urbano do Rangel, município de Luanda, conta agora com mais uma centenária. Trata-se de Dona Emília Francisco Miguel que completou 100 anos de idade na Quinta-feira e comemorou a data histórica ao lado de seus familiares, amigos e vizinhos

Ter um período de vida longo é, com certeza, o desejo de todos os seres humanos, no entanto, poucos são os que conseguem atingir a tão almejada cifra de 100 anos. Emília Francisco Miguel, nascida em Março de 1919, em Cassoneca, município do Icolo e Bengo, acaba de conseguir tal proeza, entrando para o pequeno grupo de cidadãos no mundo com tamanho privilégio, na Quinta-feira, dia 7. Mas nem tudo tem sido um “mar de rosas”, pois, como acontece com qualquer ser humano, a sua estória de vida está recheada de momentos altos e baixos.

Entre os momentos de maiores tristeza que viveu figuram os de ter de conviver com a dor da perda dos irmãos e de cinco dos seus 10 filhos, dos quais contavam-se sete rapazes e três meninas. O primogénito faleceu aos 78 anos de idade, em Janeiro do ano passado. Sentimento esse com os quais aprendeu viver e não ofusca o seu olhar tranquilo e o sorriso sereno que encantam todos aqueles que consigo privam. Na Quinta-feira, a residência da família, no Distrito Urbano do Rangel, foi o ponto de encontro dos cinco filhos, 35 netos, 82 bisnetos, 11 trisnetos e mais de uma centena parente, amigos e de vizinhos. Num ambiente festivo comemoraram essa inesquecível data para a família de Emília Miguel.

Radiante de alegria, a Avó Emília, como é carinhosamente tratada, declarou a OPAÍS que considera a sua longevidade como sendo uma dádiva divina. “Nós éramos 10 irmãos e só a única que fiquei. Estou viva. Agradeço a Deus por me amar e por me ter posto no mundo. Perdi o meu pai em 1961”, explicou. Por outro lado, em jeito de conselho, disse que um dos segredos para se chegar aos 100 anos “é saber andar”, não invejar os outros, muitos menos dos vizinhos e respeitar os pais. “Se o teu pai dizer faz isso, tu vais negar…? Isso não acontecia. Nunca tive inimigo e Deus conhece o meu coração. Quando a pessoa não faz essas coisas, não chega na minha idade”, afirmou. Por ela ser membro efectivo da igreja, as irmãs da sua classe também não deixaram o seu aniversário em branco, tendo realizado um culto em sua honra.

Infância encantada em Cassoneca

A anciã recorda com que viveu toda a sua infância e adolescência na aldeia em Cassoneca. Só com pouco menos de 30 anos de idade, já vivendo maritalmente, trocou o seu “paraíso” rural para enfrentar os desafios que as grandes cidades dominadas pelo sistema colonial português, como Luanda antiga, impunham, na época, aos seus habitantes de raça negra. O perfeito domínio das técnicas de lavrar o “chão” que, como diz Don Caetano numa das suas músicas, “dá tudo”, foi o meio que encontrara para, com o auxílio do seu marido, sustentar a família que estava a formar. Começou por cultivar em Viana, nos arredores do local onde se encontra actualmente a lagoa do Coelho. Depois se mudou para o município do Kilamba Kixi, tendo como campo agrícola o terreno onde veio a ser erguido o Hospital Geral de Luanda.

Na medida que a cidade foi sendo expandida, foi emigrando para outras localidades. Depois foi ao Bita Tanque, município de Belas, onde mas prosperou. “Tinha quatro quintas onde semeava diversos produtos. Já lá tinha casas grandes com tanques de água mas os bandidos invadiram tudo. Perdi os meus terrenos”, contou com semblante de tristeza. De acordo com os seus familiares, Avó Emília leva uma vida muito tranquila, caminha sozinha e não abre mão de realizar algumas tarefas de casa como lavar e engomar. Fez questão de sublinhar que da vida não reclama. Apesar de ter alguma dificuldade para enxergar, pois as vistas já não funcionam com a mesma precisão, diz sentir-se regozijada por ver os filhos, netos, bisnetos entre outros membros da família.

O segredo da longevidade

Se Avó Emília dá o segredo para alcançar uma vida centenária, os filhos dão a deixa e descrevem os hábitos que acreditam contribuir para a longevidade. Alguns apostam na fé e na religiosidade de Emília, outros garantem que é o bom humor e o optimismo. Há quem lembre da força dela como fruto do trabalho. Mas há outro factor que pode ser acrescido à lista: Emília vive “paparicada” pelos familiares mais próximos. O café da manhã é servido à mesa, onde assiste, pela televisão. Um dos programas que Avó Emília diz não perder por nada é o “Fala Angola”, emitido diariamente, das 18 às 19horas, pela TV Zimbo, um dos órgãos do Grupo Média Nova, do qual OPAÍS faz parte. Depois janta. A alimentação contém muitas frutas e verduras, poucos doces porque a idade também já não permite certas alimentações.

A centenária era uma mulher com um porte físico grande, mas o pensamento da perda dos seus filhos levou-a a emagrecer. Já lá vão muitos anos desde que perdeu o seu marido. Ela é a primeira da família a chegar aos 100 anos. Maria Manuela da Silva, de 60 anos, a oitava filha, disse que viver com sua mãe tem sido uma bênção. As vezes birra-se com a alimentação porque a médica que acompanha a sua mãe proibiu-a de comer carne vermelha, apenas brancas, mas ela não gosta de frango. “Ela é uma excelente avó e lida bem com os seus netos e bisnetos”, frisou. Acrescentou de seguida que “a minha mãe que sempre pede uma morte repentina como há dos seus familiares próximos”. De realçar que a esperança de vida em Angola aumentou para 61.8 anos, de acordo com um estudo apresentado o ano passado pela Organização das Nações Unidas e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) no país. Entre 1990 e 2017, a esperança de vida à nascença em Angola aumentou 20,1 anos.

Os “super-centenário”

Das 71 pessoas já ultrapassaram a marca “super-centenário”, forma como são chamadas as pessoas que ultrapassam os 110 anos de vida, apenas 5 são homens, e 66 mulheres, de acordo com dados divulgados pela revista brasileira Mundo Estranho, da editora Abril, Segundo o Guinness Book, das 71 pessoas, 24 são do Japão, 14 dos EUA, oito da Itália e França, dois do Reino Unido e Bélgica, e com um representante cada, estão o Canadá, Espanha, Austrália, Barbados, Alemanha, Porto Rico e México. Até ao dia 6 de Março de 2019, o grupo de 30 “supercentenário” vivos era liderado pela japonesa Kane Tanaka, de 116 anos. O segundo lugar era partilhado por Maria-Giuseppa Robucci (italiana), Shimoe Akiyama (japonesa) e Lucile Randon (francesa), todas com 115 anos. Em terceiro lugar estão Shin Matsushita, Shigeyo Nakachi (japonesas), Gabrielle des Robert e Jeanne Bot (francesas).