Generais “tentam acantonar” Celeste de Brito no Tribunal

Os generais Geraldo Sachipengo Nunda (antigo Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas Angolanas), Altino Carlos José dos Santos (comandante da Força Aérea Nacional) e Afonso Lopes Teixeira Garcia “Led” (alto responsável da Casa de Segurança do Presidente da República) demarcaram-se ontem, em tribunal, das acusações de que terão afastado a empresária e pastora Celeste de Brito das negociações com o alegado bilionário tailandês Raveeroj Rithchoteanan

Os três compareceram na Câmara de Crimes Comuns do Tribunal Supremo para prestarem esclarecimentos, em separado, na condição de declarantes, no mediático Caso Burla à Tailandesa que tem entre os arguidos o brigadeiro José Arsénio Manuel, presidente do Conselho de Administração da Cooperativa Njango Yetu, afecta às FAA.

O primeiro a ser inquerido foi Geraldo Sachipengo Nunda, que saiu de arguido a declarante neste processo. Em declarações à instância de Domingos Mesquita, juiz-presidente da causa, o antigo Chefe do Estado-Maior General das FAA refutou a informação segundo a qual orientara ao general Altino Carlos José dos Santos, na data dos factos vice-presidente da cooperativa e chefe da Direcção Principal de Planeamento e Organização do Estado-Maior General, que obrigasse a co-arguida Celeste de Brito a afastar-se dos tailandeses.

“Nem sequer sabia que ela havia sido afastada. Eu tinha diariamente tanto trabalho que não me preocupava com a gestão da cooperativa”, disse. Já o general Altino Carlos José dos Santos, vice-presidente da cooperativa Njango Yetu, declarou que não chamou a empresária Celeste de Brito ao seu gabinete a mando do general Geraldo Sachipengo Nunda, numa altura em que este se encontrava no exterior do país, mas a pedido do brigadeiro José Arsénio.

Disse que o encontro não visou ordená-la a afastar-se dos putativos investidores tailandeses, mas sim da cooperativa, uma vez que não tinha competência para falar em nome dos cidadãos estrangeiros. Esclareceu ainda que julgara que a conversa ficaria apenas entre eles.

O seu pedido a Celeste de Brito devia-se ao facto de que ela estava a participar em algumas reuniões entre as duas partes, o que nada tinha a ver com os seus interesses.

O general Afonso Lopes Teixeira Garcia “Led”, por sua vez, esclareceu que não tinha projecto pessoal algum entre aqueles que estavam para ser hipoteticamente financiados pelos 50 mil milhões de dólares dos tailandeses.

Explicou que trabalha na Casa de Segurança do Presidente da República há 23 anos.

Tomou conhecimento da carta enviada pelo presidente do Conselho da Administração da Cooperativa das FAA ao Presidente da República e que a enviou, cumprindo com as regras de funcionamento da sua instituição, na qual mencionava vários projectos que beneficiariam desse investimento.

Entre os quais estavam alguns que não eram da esfera da cooperativa Njango Yetu. Como exemplo, citou o projecto de construção da ponte Soyo (Zaire)/Cabinda, projecto do Estado que se encontrava registado na extinta UTIP.

Os 50 mil milhões e 200 milhões de dólares

Geraldo Sachipengo Nunda declarou que não chegou a ver nem o cheque de 50 mil milhões de dólares, nem o de 50 mil milhões e 200 milhões de dólares, de que os autos fazem referência.

Por outro lado, o general disse que não viu a carta de chamada/convite (falsa) supostamente sobscrita pelo actual vice-presidente da República, Bornito de Sousa Baltazar Diogo, que teria permitido a vinda dos cidadãos tailandeses da Centennial ao país. Declarou que tomou conhecimento da existência da mesma pelas redes sociais.

Questionado pelo procurador Adão Pedro se do seu ponto de vista o fundo em causa tinha seriedade, esclareceu que tem a certeza de que o país de origem de Raveeroj Rithchoteanan pode informar sobre a sua idoneidade, cabendo apenas aos serviços de inteligência, às embaixadas, entre outros órgãos afins, solicitarem esclarecimentos.

Instado pelo advogado Sérgio Raimundo a esclarecer se, como Chefe do Estado-Maior General das FAA e presidente da Mesa da Assembleia Geral da Njango Yetu, ordenou que fosse cedida uma viatura militar para apoiar a cooperativa ou os tailandeses, respondeu que especificamente não.

Explicou que enquanto segundo responsável máximo das Forças Armadas Angolanas, a seguir ao Comandante-em-Chefe, João Lourenço, sempre que a cooperativa ou outros órgãos da corporação solicitassem tal apoio, atendia-os.

Certo dia recebeu tal pedido da cooperativa, já não se recordava se era antes ou depois da chegada dos tailandeses, tendo anuído e orientado ao director do seu gabinete que notificasse a Unidade de Apoio para o efeito. Os tailandeses circularam pela capital do país numa viatura militar conduzida por um efectivo das FAA, até à data em que foram detidos, a 21 de Fevereiro de 2018.

Nunda solicitado a resgatar cheque no BNI

Geraldo Sachipengo Nunda revelou que o alegado bilionário tailandês Raveeroj Rithchoteanan e o brigadeiro José Arsénio Manuel lhe haviam solicitado que intercedesse junto do Banco de Negócios Internacional (BNI) para que este devolvesse o cheque de 50 mil milhões de dólares que haviam depositado dias antes.

O general, que falava à instância do juiz da causa, Domingos Mesquita, esclareceu que, na ocasião, foi informado por ambos que o cheque havia sido entregue pessoalmente ao presidente do Conselho de Administração do BNI, Mário Abílio Palhares, e que a sociedade comercial que os tailandeses estavam a criar, em parceria com alguns cidadãos nacionais, não tinha ainda cunho jurídico.