Tirem a Polícia disso

O pior que pode acontecer a um Estado é deixar passar a ideia de um confronto entre a Polícia e o povo, ou seja, entre o Governo e o seu povo. No nosso país pior ainda, já que a nossa Polícia é um órgão para-militar. Depois de há alguns dias uns fiscais terem entrado na Igreja de São Paulo, em Luanda, para retirar uma zungueira que aí se tinha refugiado em hora de orações, o que levantou a indignação de muita gente, ontem, uma outra zungueira foi mortalmente atingida por uma bala disparada por arma de fogo atribuída à Polícia. Não é a primeira morte por arma da Polícia Nacional de uma mulher que luta pelo sustento dos seus. E se a Polícia continuar envolvida na Operação Resgate da forma como está, também não será a última. A operação é necessária, os seus objectivos são bons, já o disse noutra ocasião, mas também repito que não é terreno para a Polícia, e nem para fiscais mal treinados e amorais. Os zungueiros são aos milhares, tirá- los à força das ruas, sem alternativas de emprego, é pôr fogo em capim seco. A solução para a venda ambulante desordenada tem de ser encontrada com os próprios zungueiros, envolvendo outras áreas, como o turismo, as empresas, as ONG, as administrações municipais e com um esforço bem guiado para desacelerar o êxodo rural, que passa pelo emprego no campo e nas comunas, por levar para lá serviços de Saúde e de Educação e pela criação da consciência de que o campo pode criar e receber riqueza. O problema deve ser tratado de oura forma, fiscais e polícias, mesmo com a nobre missão de manterem a ordem pública, não são solução para um problema que os ultrapassa.