“O sector do petróleo e gás atravessa um momento decisivo”

Acontece hoje, aqui em Luanda, a conferência sobre petróleo e gás, uma organização da Ersnt Young ( EY), com larga experiência. Para Carlos Bastos, Manager da EY, em termos de apreciação global Angola vive um momento positivo

O que se pode esperar do Workshop sobre petróleo e gás que se realiza (hoje) em Luanda?

Logo no momento em que lançámos a ideia de realizar uma conferência sobre o futuro do sector petrolífero em Angola fomos surpreendidos pelo entusiasmo dos participantes. É notório, tanto por parte das entidades públicas como dos principais actores privados que actuam no sector, um forte dinamismo e uma vontade de relançar a actividade. Foi justamente o objectivo de promover uma discussão alargada sobre o tema que nos levou a promover a Conferência. Acreditamos que será um momento importante de partilha de boas práticas internacionais, de auscultação das expectativas do sector e de recolha de mensagens de orientação estratégica dos agentes públicos.

Quantas pessoas estão confirmadas para o evento?

Estamos já acima do nosso objectivo inicial, contando para já com mais de 200 inscrições e estando ainda a receber indicações de interesse em participar.

Que análise faz do sector dos petróleo & gás em Angola?

O sector de petróleo & gás atravessa um momento decisivo a nível global. Por um lado, assiste-se a uma aspiração global de alteração do mix energético no sentido de um maior peso das fontes renováveis. No entanto, o crescimento acelerado da procura por energia continua a assegurar que o petróleo e o gás se vão manter como parte essencial do mix energético das próximas décadas. Angola, tal como muitos outros países produtores, sofreu uma redução da sua capacidade produtiva associada à redução de preços provocada pela última crise económica global e pelo aumento da oferta de alternativas como o shale gás.

Face a um cenário global ainda marcado por fortes incertezas mas em que está a renascer a aptidão por novos projectos de produção, Angola atravessa um período de decisões críticas, em que a forma como conseguir dinamizar o investimento no sector petrolífero será importante para o crescimento da economia e mesmo para criar oportunidades no sentido da tão desejada diversificação económica. A nossa apreciação global é de um momento positivo para Angola, com uma nova linha de orientação da política pública para o sector a gerar optimismo e interesse renovados dos agentes privados. Com a manutenção do actual momento acreditamos que será possível uma retoma progressiva que permita recuperar os níveis de produção.

Qual é a sua expectativa em relação à criação da Agência Nacional de Petróleo e Gás?

Acreditamos que este será recordado como um marco histórico na política pública do sector petrolífero. A EY apoiou de perto a implementação de projectos semelhantes noutros países e sentiu directamente o efeito positivo induzido por uma clarificação dos papéis dos agentes públicos, que é normalmente acompanhado de uma preocupação acrescida com a transparência do processo de atribuição de licenças. Na Conferência teremos o testemunho directo de um colega da EY México que acompanhou muito de perto um processo semelhante e cujos efeitos positivos incluíram um aumento significativo dos fluxos de investimento e uma maior concorrência na atribuição de licenças, resultando em maiores encaixes financeiros para o Estado. A ANPG irá enfrentar os desafios normais de uma alteração do modelo existente e do arranque de uma entidade com este tipo de responsabilidade. No entanto, a vontade de mudança sinalizada pela sua criação está claramente a ser percebida no mercado como um excelente indicador de que Angola está de facto aberta a um novo ambiente de negócios no sector petrolífero.

Há uma forte tendência de se valorizar mais gás, sobretudo na industria automóvel. Pensa que haverá, no curto prazo, uma substituição à escala mundial dos tradicionais combustíveis pelo gás?

Há uma preocupação global, totalmente compreensível, com o fenómeno das alterações climáticas. Este enquadramento está a resultar em políticas públicas que valorizam as fontes energéticas mais eficientes e mais limpas. É um processo que vemos como inexorável e mesmo positivo mas que está limitado pela preocupação também premente da segurança de abastecimento energético. A conjugação destas duas tendências leva-nos a pensar que este será um processo gradual, de médio a longo prazo. O processo pode- se acelerar em caso de grandes inovações tecnológicas, mas o custo associado à substituição global de frotas logísticas e parques automóveis, dificilmente resultará numa alteração substancial no espaço de poucos anos.