“Os relacionamentos amorosos fazem reduzir o número de mulheres no teatro”

A actriz e radialista Solanje Feijó, em conversa com OPAÍS, aconselhou as actrizes a apostarem nos seus objectivos, isso, por ter notado que muitas delas, depois de contraírem o matrimónio, são sensibilizamdas pelos esposos a desistir deste ofício

A artista lamentou ainda o facto de as estações televisivas no país não apostarem na produção de novelas nacionais, de modo a proporcionar mais trabalhos aos actores e, consequentemente, mais audiência aos próprios canais

É actriz há 19 anos e locutora há 10. Como tem sido conciliar estas duas áreas de trabalho?

Não tem sido fácil. Na verdade, são quatro áreas. Na rádio, para além de ser locutora, onde passo todo o dia, edito também o noticiário. Estou ainda no Gabinete de Comunicação e Imagem da equipa desportiva do Petro de Luanda e sou encenadora da companhia infantil Arte Sol. Algumas vezes sou ainda convidada a participar em determinados programas televisivos. Conciliar esses trabalhos não tem sido uma tarefa fácil. Até mesmo aos Sábados e Domingos, algumas vezes tenho de trabalhar. Primeiro, agradeço a todos os que fazem tudo isso possível, mas temo que daqui a pouco não será possível esta conciliação.

Vai deixar de trabalhar numa destas áreas?

Temo que sim, porque está mesmo a ficar apertado. E ainda tem a questão da maternidade. A minha filha foi tão adiada por causa destes trabalhos, mas chegou uma altura em que notei que os trabalhos não iriam acabar. Foi então que no ano passado tive a minha primeira filha. Decide fazer mesmo assim, e tentar adaptá-la à minha rotina.

E se tivesse que escolher entre as artes cénicas e a rádio, qual escolheria?

Gosto muito das duas coisas, embora tenha começado no teatro. Não digo apenas o teatro, mas a arte em si é muito envolvente. Entre todos esses trabalhos é o que não consigo largar. Portanto, escolheria o teatro. Não tenho dúvidas disso. Estou numa fase em que gostava de ser compreendida. Gostaria de fazer apenas programas culturais, de carácter semanal, onde pudesse abordar assuntos culturais, de modo abrangente. Abordar sobre todos os aspectos culturais do país.

É um projecto que tem em carteira?

Sim. Gostaria muito de aplicar, e se fosse aqui na Rádio Escola seria muito proveitoso. Como também sou muito ligada ao desporto, se calhar, fazer apenas comentários, porque se continuar nessa dinâmica sinto que a rádio vai-me perder. Estou é adiando a minha saída da comunicação social, mas vai chegar uma altura em que não prosseguirei mais, devido ao factor tempo.

O que falta então para que o projecto seja implementado?

Já está arquictetado, estou a ver as pessoas que podem ajudar-me naquilo que é a produção do próprio programa. Apesar do facto, temo ainda que não seja aceite.

Disse que agora faz parte do Gabinete de Comunicação e Imagem do Petro de Luanda?

Sim. Estou há seis meses e considero esse acontecimento como o mais alto, a cereja no topo do bolo. É um trabalho que sempre almejei. Quem é meu amigo nas redes sociais sabe que faço actualização de jogos. Sou uma pessoa que trabalha muito pela minha satisfação, mesmo antes do dinheiro. Gosto das profissões dinâmicas, porque não consigo ficar muito tempo sentada numa sala. Estou sempre na correria. Nunca faço coisas de que não tenho domínio. O desportivo e a cultura são áreas a que sou mesmo votada. De realçar que fui jogadora de andebol durante sete anos na equipa do 1º de Agosto.

Qual foi o trabalho mais marcante que fez nas artes cénicas?

Entre 2005 e 2009 fiz parte do grupo Horizonte Njinga Mbandi e participei em várias peças. Mas “A Sogro” e “Sobreviver em Tarrafal” foram muito vistas. Nestas peças fiz a personagem de uma mãe. O meu biótipo é adequado para fazer essas personagens, como daquelas tias autoritárias, porque sou ‘avantajada’. Por esse motivo, fazia parte de todas peças do grupo. “Sobreviver em Tarrafal” foi adaptada do livro do escritor António Jacinto e venceu o Prémio de Cultura e Artes em 2007, depois da sua estreia. Isso sim foi um impute naquilo que é hoje a minha carreira no teatro. Mas ainda assim, naquilo que o teatro diz respeito, na reciprocidade com o público, senti que foi “A sogro” e era das peças mais solicitadas.

Também fez parte do Mulemba wa Muenho. Que experiências teve neste grupo?

No Mulemba wa Muenho entrei no final de 2009. Era um grupo muito bom, com boas actrizes. É uma pena que a maior parte dos integrantes não estejam mais em palco. Se estivessem a trabalhar até agora, seria um grupo muito erudito. As suas peças serviam seriamente para reflexão. Gostei muito de fazer parte desse grupo, porque serviu de mola impulsionadora para os actores, motivando- os a pesquisarem mais. O grupo já não existe, mas os actores estão bem posicionados na sociedade.

Como avalia a representatividade feminina no teatro?

Agora temos muitas mulheres a fazer teatro. Outrora, segundo também declarações de mulheres que estão há mais tempo no teatro do que eu, era muito difícil ver senhoras a trabalhar nesta arte. Embora ainda haja mais rapazes, temos um número considerável de mulheres. Num grupo, por exemplo, podemos encontrar sete rapazes e apenas duas meninas. Antigamente havia grupos que nem mulheres tinham.

O quadro melhorou devido aos incentivos existentes ou a outras razões?

Agora as mulheres estão a participar mais nas tarefas sociais. Além disso, antigamente os pais viam esta arte como se fosse um acto promiscuo, e não aceitavam que as suas filhas fizessem, por saberem também que ficaria no meio de muitos homens. Agora, acho que estamos mais aculturados, estamos a ver outras coisas, e eles notam que através do teatro os filhos obtêm outros conhecimentos. Outro problema que temos em relação a mulher é a tenra idade, o lado afectivo, no caso, os relacionamentos amorosas fazem reduzir o número de mulheres no teatro. Muitos homens, depois do matrimónio não aceitam que as suas esposas continuem a fazer esse trabalho, e esquecem que as vezes, ela é o que é por causa dessa arte. Às vezes mesmo são também homens que fazem esse trabalho.

Nestes casos, que conselho dá a estas mulheres?

Elas se devem impor. Apostarem naquilo que são os seus objectivos enquanto artistas. Eu não tenho mais condições de um homem vir e dizer que não posso fazer teatro. Pode ser o Brad Pitt, o David Beckham, mas sem chances (risos)…

O assédio é algo notável nas artes cénicas no país?

Nada que eu tenha visto. Acredito ser mais por parte de algumas meninas, que pensam que para que um director renomado lhes possa pôr a trabalhar num determinado espectáculo… tentam assediá-lo. As vezes, pode-se dar o caso de ser uma boa actriz, mas como quer ganhar protagonismo comporta-se dessa maneira, que considero muito errada. Mas são casos ínfimos, não alarmantes.

Sente-se uma mulher realizada?

Para completar a minha alegria, gostaria de ter uma sala de teatro. Acho que todos os actores gostariam de ter, uma vez que no país existe um número muito reduzido de salas de teatro.

Como se define como mulher?

Sou aquela que muita gente diz ser e não abdico. Sou mesmo aquela batalhadora incansável. Uma mulher que dá tudo pelos projectos em que esteja envolvida. Sou uma mulher de garra.

É notório que um número considerável de actores trabalham também na comunicação social, Como são os casos da Vanda Pedro, Sofia Buco, Eduza Chindicasse entre outros. Acha que exista uma ligação entre essas áreas de trabalho?

Existe. Porque o jornalismo é comunicação e o teatro também. Sendo assim, não tem como estar desvinculado. Às vezes até mesmo quem faz jornalismo, durante um teste na rádio ou na televisão, pode encontrar várias dificuldades, que um actor não vai encontrar. Isso porque o nosso dia-a-dia é usar a fala, e o jornalista que está a estudar ainda não tem essa retórica. Por isso, nota-se esse dinamismo, de que o actor dá-se bem, quando desempenha o papel de apresentador. Esse tipo de trabalho dá dinamismo e agilidade nas pessoas. Dá a espontaneidade de que os jornalistas precisam. Na verdade, no teatro formamos o homem, porque para fazer uma peça, que aborda um determinado assunto, é preciso pesquisar, falar com especialistas, para que possa apresentar- se com propriedades. Por isso, o actor deve ser uma pessoa culta.

Qual é o sonho dos actores angolanos?

O nosso sonho de sempre é de ter trabalho. Na nossa situação, no nosso mercado, é que se invista mais na arte de representar. Digamos que a Televisão Pública de Angola deveria apresentar novelas nacionais, de modo contínuo, e não como temos visto, depois de vários anos. E as estações privadas deveriam ter duas ou três, porque elas procuram os seus patrocínios e conseguem. Deste modo, os actores teriam mais trabalhos. Só para ver, em Luanda existem mais de 400 grupos, e estão a trabalhar. É que não haverá luta se as cadeias televisivas decidirem, pelo menos, em cada ano, fazerem uma sequência de novelas como acontece na Rede Globo. Mas não precisam fazer taxativamente como na Globo, porque ali é um investimento sério. Sei que fazer uma novela implica dinheiro, mas também provoca audiência. Isso porque já foi constatado que os angolanos gostam de consumir o seu produto.

E as peças teatrais devem também ser apresentadas nas estações televisivas?

Sou de opinião que as peças teatrais devem ser apenas apresentadas no palco. Se as estações televisivas tivessem novelas angolanas, deviam tirar o teatro, e quem quisesse ver tinha mesmo de ir a uma sala. Desse modo, os actores lucrariam mais e poderiam somente dedicar-se a esta arte. Por norma, é preciso oito horas por dia para melhorar a performance. Mas muitas vezes isso não acontece, porque temos de fazer outros trabalhos para sobreviver. Com a realização de mais novelas, os telespectadores também se sentiriam mais motivados em ir ver teatro, para contemplarem ao vivo os seus actores preferidos.

Falando agora sobre o teatro comunitário, o grupo Julu é um dos que se destacam nessa prática. A companhia de que faz parte, Oásis, também tem realizado?

O Oásis é um dos que mais trabalha no teatro comunitário, embora não divulgado. Comecei a fazer parte desse grupo em 2009. Nós usamos também o teatro para sensibilização, mas fizemos no seio das tropas das Forças Armadas Angolanas, porque o grupo é afecto à Força Área Nacional. E é um trabalho constante. Só para ver, desde Janeiro até ao mês em curso foram muitas viagens. E ainda esta semana o grupo sai de novo, vai para o Lubango e ao Huambo. Até ao mês de Junho são muitas viagens aéreas nas 18 províncias. Eu não vou porque estou na condição de mãe e não posso deixar a minha filha. O grupo Julu teve um dos fundadores, o senhor Lourenço, que até já é falecido, foi o implementador do teatro comunitário no país. Por isso, esse grupo tem a base do teatro comunitário, fazem há muitos anos e trabalham com várias empresas no país.

Mas temos outros grupos que fazem esse trabalho?

Temos sim vários grupos comunitários no país, que têm poucas oportunidades para fazer trabalhos do género. O que acontece às vezes é aquela exigência, de solicitarem os rostos já conhecidos, como o Avó Ngola, personagem do actor Manuel Teixeira, do grupo Julu. Fiz parte da rádionovela Camatondo, que começou a ser emitida em 2004 e parou em 2018.

Como era a Rádionovela Camatondo?

É uma novela muito antiga e chegava a todos os cantos do país, através da Rádio Nacional de Angola. Era uma novela rural, que dava conselhos de como produzir, cultivar melhor a terra e combater vários males que afectavam o trabalho dos camponeses. Nas províncias ouviam a sério esta novela. Quando fosse para lá, e desse entrevistas nas rádios, a falar da personagem mana “Xica”, a portaria ficava cheia de fãs, que prendiam cumprimentar-me. Às vezes era mesmo necessário fazer escolta para poder sair. Nos hotéis, dificilmente pagava a hospedagem. Os sobas das aldeias cumprimentavam- me e enalteciam o meu trabalho na novela.

E deixou de ser emitida por que motivo?

Deixou de ser emitida em Agosto do ano passado, mas muito por causa da nova direcção da rádio. Não sabemos o que querem com o projecto, mas era uma coisa de se ver, porque era um dos programas que davam realmente audiência. E ninguém me pode dizer o contrário. Dentre os trabalhos que fiz até hoje, tanto publicitários como no teatro, o maior público com satisfação do meu trabalho é o do Camatondo.