Essa contiguidade não só serviu para realçar os fortes laços que unem os dois povos, como também para evidenciar o que falta Angola fazer para tornar as parcerias empresariais mais sólidas, com um sector mais atractivo. Em Benguela residem mais de 5 mil portugueses, entre nativos e luso-angolanos, dado fornecido por fonte oficial. Sendo a província com a segunda maior comunidade portuguesa no país, foi com muita alegria que milhares de lusitanos acolheram o seu Presidente na cidade eleita como casa além-mares. E, Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa, de 70 anos, com energia, vigor social e político de um jovem nos seus 30, percorreu Benguela a pé como nenhum outro visitante o fez.
Esteve por cá de a 7 e 8 de Março de 2019, dias ímpares vividos nas cidades das Acácias Rubras, dos Flamingos e Catumbela, com agitação em demasia, contagiante simpatia, tudo fruto da sua inigualável companhia. Para quem, longe da Pátria, conheceu o seu líder político, a nível pessoal e profissional, ficou a esperança de que dias melhores virão. Porque, tal como disse o estadista, “há vontade política, há vontade empresarial”. É o caso de Delfim Miranda. Cidadão português, trabalha cá há 4 anos. Após a vinda do seu Presidente, tem “expectativas elevadas”, declarou. Pareceu-lhe “importante esta visita, para fortificar as relações. Estão no bom caminho”. Com ânimos renovados para o seu futuro em Angola, enunciou que “o discurso do Presidente foi muito forte, muito cativante”. Assim, sobre os negócios e parcerias vindouras, “espero que continuem nesta senda do êxito”, felicitou. A portuguesa Cristina Gonçalves, pertencente ao ramo industrial em Benguela, disse estar bastante optimista para o futuro, após à visita do seu Presidente. “Acredito que o estreitamento vai ser cada vez maior, quer nos aspectos sociais, como económicos e políticos”, refere.
Um incentivo emocional ao investimento português…
A natureza do discurso do Presidente Marcelo, no encerramento do Fórum Empresarial entre Angola e Portugal, foi profunda, unificadora, quase poética, colhendo efusivos aplausos dos presentes, deixando arrepios a quem absorveu. “Não sei se têm a noção, estão a viver um dia histórico, é bom que tenham noção disso”, disse, acrescentando que o momento histórico para angolanos e portugueses presentes deve-se a “Angola estar a viver um período muito importante, de afirmação a todos os níveis, no campo regional, continental e mundial”. Prosseguindo, afirmou: “a nossa amizade fraternal, entre Angola e Portugal, atingiu o plano de excelência e, está traduzida em mais de 3 dezenas de acordos que cobrem tudo que se possa conceber como fundamental”, enalteceu.
Para o Presidente da República Portuguesa, bem mais importante do que cooperações assinadas, é a certeza de que parte dos projectos celebrados já começaram, pois “todo o tempo é pouco”, afirmou, realçando ser imprescindível agir. Todavia, nem tudo está pronto para avançar, mais há que ser feito para “criação de um clima de confiança adicional, para que o investimento cresça, para que o emprego e a justiça social cresçam”, apelou. Marcelo reconheceu com emoção que “angolanos e portugueses estão com os pés assentes no terreno, gente que há décadas trabalha a favor do futuro, daquilo que é essencial na vida das pessoas, a sua felicidade”. A sua recomendação ao empresariado português é que “acelere o seu investimento, mas acelere por toda a Angola, em todas as províncias onde tiver oportunidade de o fazer”, porque “há vontade política, empresarial e popular”. Terminando com poesia, avultou: “ninguém se ama em teoria, só se ama no concreto”. Logo, convidou todos a vir conhecer e aprender a amar Angola, bem como a ir conhecer e aprender a amar Portugal.
Visão académica sobre “um discurso muito bom”
O economista e professor universitário Henrique Pascoal defende que, com esse “discurso de ocasião, muito bem preparado”, o Presidente português deixou evidentes os objectivos que “a comunidade portuguesa tem em Angola, em particular em Benguela”. Visando rentabilizar as parcerias assinadas, Angola tem de dedicar- se para “despertar interesse em outros sectores no nosso país. Nós precisamos de fazer muito trabalho ainda”, afirmou o economista, para quem o país deve produzir mais, para limitar as importações. Disse que será bom para ambos os países que os investidores estrangeiros criem indústrias em Angola, gerando-se empregos nacionais pois, um dos benefícios do investimento é a redução da pobreza.
“Portugal está a fazer a sua parte,” declarou, destacando como vantagem o facto de a banca lusa financiar os empresários. Já em Angola, “não temos uma banca capaz de financiar o empresariado local”, lamentou. Sustentou que a presença de Marcelo Rebelo de Sousa, aos Caminhos de Ferro de Benguela (CFB) e ao Porto do Lobito serviu para mostrar ao estadista luso o potencial destas duas importantes empresas. Além de mostrar o potencial, Henrique Pascoal, por outro lado, para “constatar a incapacidade de gerir esse grande potencial que pode gerar maiores rendimentos para a economia local e diminuir as assimetrias regionais”.
BE e PSD dizem que visita trouxe ganhos
A deputada Maria Manuel Rola, representante do Bloco de Esquerda, enquanto partido da Oposição, ouvida pela reportagem de O PAÍS, anunciou que com o reforço das ligações entre Portugal e Angola todos ganham. Satisfeita com o resultado da visita de Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou que “pareceu-nos correcto vir dar este sinal de esperança e confiança. A nosso ver, faz todo o sentido uma relação próxima entre Portugal e Angola”, que não havia no Executivo anterior. Por sua vez, Fernando Negrão, deputado do PSD, disse que Portugal, pela mão do PSD, teve sempre muito boas relações com Angola. “Passamos por uma altura em que houve alguns equívocos, mas isso está tudo ultrapassado de certeza”, garantiu, ou seja, o “irritante” ficou atrás.

