Vendedores do Mutundo clamam por meios de transporte

Os vendedores do mercado paralelo do Mutundo, arredores da cidade do Lubango, o maior da província da Huíla, clamam pelos autocarros que foram entregues em 2017

POR: João Katombela, na Huíla

Este mercado, com mais de cinco mil bancadas, tem sido a fonte de sustento de milhares de famílias e de obtenção de bens alimentares para outros milhares. Por aqui cruzam-se pessoas de várias nacionalidades e estratos sociais, mensalmente, o que tem possibilitado a arrecadação de cerca de 5 milhões de Kwanzas para os cofres da Administração Municipal do Lubango. A maior parte dos vendedores são do sexo feminino, que se dedicam à comercialização de diversos produtos, com realce para as roupas, bens-alimentares e materiais de construção. Elas percorrem diariamente dezenas de quilómetros de casa ao mercado, em condições difíceis devido à escassez de meios de transporte público.

No entanto, fazem-no “alimentadas” pela esperança de conseguirem sustentar as suas famílias e proporcionar um futuro melhor aos seus filhos. A falta de transportes públicos no Lubango leva a que todos os dias os vendedores do Mutundo coloquem as suas vidas nas mãos de Deus, ao fazerem-se transportar em meios inapropriados para o transporte de passageiros, como motorizadas de três rodas (vulgo avô-veio ou kaleluia) e carrinhas. O uso destes meios, segundo os vendedores que falaram OPAÍS, é feito também por mulheres em estado de gestação e outras com crianças ao colo, ignorando o perigo. Gina, de 25 anos de idade, vive no Bairro da Mitcha, a sensivelmente 15 quilómetros do Mutundo, e, por falta de transporte, todos os dias chega à casa depois das 20 horas. “Vender aqui está tudo bem, o problema é a falta de táxi, não temos transportes públicos, por isso temos de andar mesmo nas Dyna (carrinha para transporte de mercadoria) ou nas Kaleluia, mesmo com os nossos bebés ao colo” disse.

Três acidente por semana

Em função da necessidade de se deslocar naquela zona, semanalmente são registados três acidentes de viação, envolvendo maioritariamente as motorizadas de três rodas. Dos acidentes registados, segundo conta Gina, ainda não se registaram vítimas mortais, apenas alguns feridos e danos materiais avultados. Uma das causas dos acidentes, acrescentou, é o mau estado da via que liga a Rotunda do João de Almeida ao Bairro da Mictha, que há muitos anos não beneficia de obras de reabilitação. A falta de autocarros para transportes públicos faz com que os taxistas alterem os preços no período das 17 horas às 21h, passando de 150 para 200 Kwanzas a corrida. Durante as eleições de 2017, a Direcção Provincial dos Transportes, recebeu 35 autocarros para reforçar a rede de transportes públicos, inexistente na época. No entanto, actualmente, apenas três dos autocarros fazem a rota Mutundo/Arco Iris e Tchioco/Mutundo. “Aqui estamos a sofrer, às tardes os taxistas sobem os preços porque não há transporte público, temos de andar na Kaleluia, afinal onde andam os autocarros que o Governo entregou no ano antepassado?” questiona, António Julho, de 30 anos de idade.

falta de iluminação pública aumenta insegurança

O outro problema apontado pelos vendedores do Mercado do Mutundo prende-se com a falta de iluminação pública no local onde se tem concentrado, por conta disso, os meliantes para praticar assaltos. Além da colocação de mais transportes, os vendedores defendem igualmente a instalação de postes de iluminação para ajudar na segurança pública. “Se pelo menos colocassem alguns postes de iluminação aqui no Mercado do Mutundo, teriam sido reduzidos os números de assaltos, porque tem muitos assaltantes aqui que se aproveitam mais das mulheres e dos deficientes” avançou.

Regresso tardio à casa gera violência doméstica

O Mercado informal do Mutundo, na cidade do Lubango, é um dos maiores da região Sul do país. As mulheres fazem a maior parte do total de vendedores do referido mercado. Entre os produtos vendidos por mulheres no Mercado do Mutundo destacam-se bens alimentares como frutas, legumes, carne e outros, adquiridos a partir de produtores locais. O dia-a-dia destas mulheres não tem sido fácil, pois, para além de passarem o dia fugindo dos fiscais, têm ainda de enfrentar empurrões para conseguir um táxi para o regresso à casa. A falta de transportes públicos, segundo algumas mulheres tem contribuído para a violência doméstica de vária natureza nos seus lares.

Joaquina Vissolela, de 25 anos de idade, vende farinha de milho e contou que está separada do marido há cinco meses, pelo facto de sempre chegar tarde à casa. “Eu chego à casa todos os dias às 21 horas, porque o meu negócio tem mais concorrência das 15h às 18 horas, mas, como não há táxi, chego tarde e, por isso, o meu marido decidiu separar-se de mim” disse. Já Antónia Chilombo, de 28 anos, vendedora de legumes no mercado do Mutundo, explicou que várias vezes foi agredida pelo esposo, também pelo facto de ter chegado tarde à casa. “Os homens pensam que quando saímos tarde daqui estamos a fazer coisas erradas. O meu marido já me bateu por isso, mas graças a Deus que um dia ele veio comigo e constatou a realidade. Só assim parou de bater”, revelou.

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