Jovem baleado pela Polícia no tumulto do Rocha continua em estado grave

Jovem baleado pela Polícia no tumulto do Rocha continua em estado grave

O jovem Domingos Kiala, de 19 anos, que ficou ferido com um tiro na barriga alegadamente disferido por um agente da Polícia Nacional (PN) no tumulto de 12 de Março em consequência da morte da zungueira Juliana Cafrique, na Praça da Padaria do bairro Rocha Pinto, em Luanda, continua em estado grave. Domingos Kiala é uma das cinco pessoas que saíram feridas dos disparos feitos pela Polícia Nacional e encontra-se na Unidade de Tratamento Intensivos (UTI) do Hospital do Prenda, tal como noticiou OPAÍS na edição de Sexta-feira, 15.

Ontem, em entrevista a este jornal, Elíades Yavanua, pai da vítima, disse que a bala lhe perfurou os dois pulmões, uma veia do pâncreas e o fígado, tendo sido submetido a três intervenções cirúrgicas. A bala ainda continua encravada no corpo de Domingos e Elíades Yavanua disse que as informações que tem recebido do corpo médico indicam que mais uma operação pode acontecer a qualquer momento. “Ele continua nos cuidados intensivos e em estado de alerta. Consegue falar algumas coisas, mas muito baixo, porque está a respirar com ajuda dos aparelhos a que está ligado”, referiu.

‘Abandonado’ pela Polícia

Elíades Yavanua diz, por outro lado, estar revoltado com o comportamento da PN por, alegadamente, não mostrar interesse no que toca ao estado do jovem, nem prestar nenhum tipo de assistência. “Depois do tiro, foram eles próprios que o trouxeram ao hospital, mas, desde aquele dia, tanto a Polícia como o Ministério do Interior estão a fazer vista grossa, como se nada tivesse acontecido”, lamentou o pai da vítima. Acrescentou que com esse comportamento a PN demostra que não se quer responsabilizar, pois até ao momento ainda não entrou em contacto com a família, tão pouco visitaram Domingos no hospital para se informarem sobre o seu estado.

Em conferência de imprensa realizada na Quarta-feira, 13 Março, o director do Gabinete de Comunicação Institucional e Imprensa do Ministério do Interior em Luanda, Mateus Rodrigues, admitiu a existência de outros cinco cidadãos que foram atingidos com disparos de armas de fogo na sequência do tumulto. Entretanto, o intendente Mateus, que é também o porta-voz da PN na capital, não referiu se estas vítimas também vão beneficiar do apoio que a corporação se prontificou a dar para família da malograda Juliana Cafrique.

Sobre o caso zungueira do Rocha

Os tumultos do Rocha Pinto deram-se minutos depois das 17 horas da passada Terça-feira, na Praça da Padaria, no bairro Huambo, Rocha Pinto, depois de um agente da PN ter atingido com um tiro mortal a cabeça da jovem de 29 anos Juliana Cafrique, vendedora no local há oito anos. Revoltados com a situação, agravando o caso, o facto de os agentes que faziam o patrulhamento não terem prestado auxílio à vítima levando-a para uma unidade sanitária próxima, a fim de beneficiar dos primeiros socorros, os vendedores insurgiram-se contra as autoridades. Juntaram-se outros moradores da área, criando barricadas na estrada e atearam o fogo à Administração local em sinal de protesto, tendo originado confrontos com agentes da ordem. Tendo em conta a forma bárbara como Juliana Cafrique foi assassinada, algumas associações da sociedade civil defendem que o 12 de Março seja proclamado como o Dia Nacional da Zungueira e da Mulher Angolana.