História de irmãos nascidos em continentes diferentes volta a ser contada

Depois de ter sido apresentada ao público em duas sessões a semana passada, a peça “Ele ainda está aqui”, uma comédia que reúne três países lusófonos (Angola, Brasil e Portugal), volta a estar em cena na Casa das Artes, em Talatona, a Sul de Luanda

POR: Adjelson Coimbra

Com enredo idealizado pelo actor Omar Menezes, a peça teatral “Ele ainda está aqui”, tem como objectivo mostrar o intercâmbio linguístico entre os três países e deverá ser apresentada nos dias 22 e 23, com duas sessões no segundo dia, a partir das 20 horas. A história envolve três irmãos que falam o mesmo idioma, mas com sotaques diferentes. No palco, os três encontram-se pela primeira vez numa ocasião de infelicidade: no velório do pai, um empresário endinheirado que deixa uma herança a ser dividida entre os filhos. Mesmo que, à primeira vista, o dinheiro aparente ter grande importância no contexto, aos poucos a trama revela que a ausência do pai é o ponto crítico que une os três personagens marcados por afectos não vividos.

Os filhos de Almeno Albuquerque da Silva, um bom viajante e poderoso, foram criados pelas suas mães e, do pai guardam apenas vagas lembranças através de fotos de família e poucos relatos. José, interpretado pelo actor Emílio Dantas (Beto Falcão da novela Segundo Sol, da Rede Globo) é brasileiro e vive no Rio de Janeiro; Telmo Fernandes (também actor de novela da Globo) é o português de nome Miguel; e o actor angolano Omar Menezes interpreta Francisco, o irmão autista nascido em Angola. O personagem autista, interpretado pelo actor Omar Menezes, que é o idealizador da peça, tem talento para o desenho e, por isso, expressa o que sente, muito além das palavras, com o seu traço artístico, enquanto os outros dois irmãos descarregam as suas emoções em falas agravadas. Interessante é que, ao fim de cada cena, o personagem pendura um desenho recém-criado. Entretanto, a criação é de facto do cartunista brasileiro Paulo Caruso, conhecido e respeitado no cenário das artes gráficas brasileiras.

O desafio

A montagem e o texto são de Sílvio Guindane, que teve como desafio contar uma história que unisse três falantes de um mesmo idioma, explorando as riquezas e diferenças da língua com uma forte marca de humor, apesar da cena dramática estar sempre presente. A ideia para fazer a peça, segundo disse durante uma conferência realizada em Luanda o seu mentor, Omar Menezes, prendeu- se também com o intercâmbio cultural, uma vez que são três personagens que falam a mesma língua, mas com sotaques diferentes. Falando sobre como foi transportado o enredo para Angola, contou que foi muito difícil. “Nós estamos a fazer essa peça, mas não foi por lucro. A equipa provavelmente não terá lucro.

E para a nossa estadia aqui em Angola precisa-se de muita coisa”, complementou. Importa frisar que a história de “Ele ainda está aqui” quase obriga a produção a caminhar por países que falam o português, cada um ao seu jeito. Por isso, revelaram os actores, está nos seus planos levar o espectáculo a Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Portugal, todos falantes do mesmo idioma. Assim, Emílio Dantas, que também tem bastante experiência em artes cénicas, aponta a alegria e o sorriso como um grande trunfo na relação existente entre a África e o Brasil. “Essa nossa alegria vem do facto de a gente ter-se acostumado e sobrevivido à falta de afecto. E essa comédia vai fazer rir, pese embora o facto de nós estarmos a falar da presença dos pais, dos valores que se carrega na vida, vistos nas ópticas angolana, brasileira e portuguesa, e que, no fim das contas, são semelhantes”, frisou.

Actor defende maior apoio ao Teatro

Para Omar, um país não se desenvolve sem educação e a Cultura faz parte da educação, desta forma, caso não se apoie a Cultura, nunca haverá evolução. Para essa tarefa, conforme defende o actor, não só o estado estaria incumbido, mas também algumas empresas privadas. “Os bancos podem ajudar. Se for para comprar um quadro a 200 mil USD compram, mas se pedirmos 5 mil USD para uma peça não dão. Dizem que é muito dinheiro. Tem de haver algum equilíbrio. Eu comecei a idealizar a peça em 2015, mas só consegui realizá-la em 2018, graças ao empresário angolano, Mário Horta”, contou. “Eu costumo comparar o teatro ao futebol. Os italianos e os espanhóis, quando quiseram evoluir no futebol juntaram-se aos melhores e começaram a evoluir. Então é isso que devemos fazer no teatro, se nos juntarmos aos brasileiros, que são bons no teatro, poderemos absorver conhecimentos e evoluiremos”, exemplificou. Pelas constantes dificuldades que estão a encontrar para exibir a peça na capital, diz não ser possível a concretização do seu desejo de levar a peça também para Benguela.

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