Yuri Quixina: “O processo de captura de empresas pelo Estado vai afectar as famílias”

Na sua abordagem sobre a depreciação do Kwanza, Yuri Quixina afirma que nenhuma moeda é forte quando não existe produção nacional. O professor de macroeconomia afirma que o processo de captura de empresas privadas criadas com fundos públicos vai motivar a alteração das suas administrações, atrasar salário e afectar a vida das famílias que dependem das mesmas. Mas o processo deve continuar

Na última semana o Kwanza desvalorizou, tendo mesmo atingido mínimos históricos desde Novembro de 2018. Ainda teremos que percorrer muito caminha até estabilizar à moeda nacional?

Nenhum país tem moeda forte sem produtividade. A estabilidade da moeda não se consegue de forma administrativa como nós fizemos na década passada. Portanto, transformamos o Kwanza forte através de medidas administrativas para aculturar os empresários a importarem bens e serviços, para responder à procura de bens de consumo, uma vez que o país quase não produz nada. E isso num cenário em que estamos com as reservas internacionais líquidas em queda. Portanto, a desvalorização sempre vai acontecer, independentemente da estratégia do Banco Central – o BNA, que consiste em desvalorizar de forma paulatina. Na ausência de divisas o país tem necessariamente de desvalorizar a moeda para defender as Reservas Internacionais Líquidas para que a economia não entre bancarrota. Por exemplo, na Sexta- feira passada houve uma desvalorização, naturalmente orientada pelo Banco Nacional de Angola. Dão-lhe o nome depreciação, mas ainda existem mecanismos para que a moeda seja livre, como noutros países. É o banco central que controla as divisas.

No próximo mês de Abril serão avaliados 12 bancos que operam no sistema financeiro nacional. Qual é a sua análise sobre isso?

É uma espécie de teste, uma vez que esta medida enquadra-se no processo de estabilização do sistema financeiro nacional, isso no âmbito do acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). É nesta senda que o BNA vai procurar apurar a qualidade dos bancos que operam em Angola e perceber se eles estão em condições ou não de “sobreviver” do ponto de vista da liquidez que possuem. Todavia, esta análise não será para todos os bancos. Será para os 12 maiores bancos. Ficaram 14 de fora. Provavelmente o critério terá levado em conta o facto destes bancos eleitos estarem no circuito e na “veia” do sistema financeiro, onde circula o “sangue” da economia. Importa referir que os activos dos bancos são aplicações que fizeram na sociedade, o volume de empréstimos que fizeram, a probabilidade de eles não se tornarem em crédito malparado e se tornarem em problema.

Teme que venham a ser retiradas mais licenças aos bancos?

As informações apontam para isso. Espero que não haja já medida administrativa e que o mercado determine por si só quais os bancos poderão continuar.

A Seguradora Ensa pode estar em fase de privatização. É uma decisão já esperada, uma vez que está em curso o processo de alienação de algumas empresas do sector empresarial público…

Sempre defendi as privatizações e fico muito feliz por essa tomada de decisão. É que agora falar de privatizações em Angola deixou de ser problema. A privatização das empresas em Angola é o elemento principal da reforma estrutural e do Estado. No caso concreto da Ensa, trata-se de uma empresa muito interessante, tem valor de mercado. Uma vez que a Ensa tem acções em muitas empresas, a sua privatização pode render muito ao Estado, dinheiro que depois pode ser colocado em benefício dos sectores da Saúde e da Educação. Portanto, precisamos de ter um regulador mais forte, no sentido de trazer concorrência. Se estamos a fazer reformas, os reguladores devem adaptar-se para não serem capturados. Não pode haver amiguismo nem conflito de interesses onde o regulador tem acções em empresas.

O Estado angolano foi lesado em 4,7 mil milhões de dólares através da criação de empresas privadas com dinheiro público. No seu entender, que medidas devem ser tomadas para se reaver este dinheiro?

No âmbito do slogan do MPLA, “Melhorar o que está bem e corrigir o que está mal”, penso que o Presidente João Lourenço entendeu que uma das coisas que está mal é a acumulação primitiva de capital. E, no âmbito da Lei de Repatriamento de Capitais, criou então uma comissão para identificar empresas que foram criadas com fundos públicos. Este comportamento do Presidente significa que o processo de acumulação de capitais não foi aprovado por todos. Todavia, este montante avançado, 4,7 mil milhões de dólares, parece não ser muito realista.

Para si quanto seria?

Acho que foi muito mais. No entanto, não acredito no encerramento de empresas. Admito sim no atraso de salários, interregno na contratação, mau~-humor, enfim, uma série de coisas.

Vai afectar a vida das famílias?

Naturalmente. Quer queiramos quer não, os trabalhadores vão sentir. Pode acontecer, inclusive, a alteração da estrutura directiva das empresas.

Para a agência financeira Moddys o perfil de crédito em Angola reflecte uma baixa força económica com perspectivas económicas modestas. Os peritos lembram ainda que a solidez financeira é muito baixa. Faltam políticas económicas sólidas capazes de mudar o quadro?

Penso que os quadros da Moddys têm escutado o programa Economia Real ou lêem por via da internet, uma vez que publicámos extractos no Jornal OPAÍS. Sempre defendemos que ainda falta capacidade de implementação das reformas económicas. As medidas tomadas foram muito atabalhoadas, consistiam no aumento de salários e redução de despesas. Era muito confuso. Naturalmente, a Moddys vem aqui apresentar dados que acho interessantes: há risco, pois tecnicamente temos uma economia em depressão económica.

Nota:

Nesta edição, Yuri Quixina apresentou as suas condolências à família da vendedora ambulante que foi morta no Bairro Rocha Pinto por um agente da Polícia na semana passada.

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