José Luís Mendonça: “Um bom poeta deve ser um filósofo e conhecedor de outras matérias”

O escritor José Luís Mendonça defende que para ser um bom poeta é necessário ser também um fi lósofo e conhecedor de outras matérias da ciência universal

Contactado por este jornal, em prol do Dia Mundial da Poesia que se assinala hoje, o poeta, autor de vários livros de poesia como ‘Chuva Nobembrina’, ‘Gíria de Cacimbo’, ‘Respirar as Mãos na Pedra’, ‘Logaríntimos da Alma’ e ‘Poemas de Amar’ disse que o país tem bons poetas, isso, desde a geração do prelúdio, dos percursores, da Mensagem, até aos dias de hoje, mas considerou que sem rigor, não poderá haver boa poesia. “Em todas as gerações, sempre houve e haverá escrivães de versos que não são poesia. Sem rigor não pode haver boa poesia. Com rigor obstinado há sempre boa poesia”, observou.

Para o também jornalista, nos dias que correm, com o advento do `Spoken Word´, tem havido uma grande proliferação de artistas da palavra, assim como núcleo de jovens (aprendizes de feiticeiros da poesia), que hão-de projectar a poesia para altos patamares. Por essa razão, considerou que para os jovens serem bons poetas, têm de ter o `vício´ incontornável da leitura, isso por observar que ninguém pode ser escritor, sem antes ter sido um bom leitor (Luandino Vieira). “O número de poetas verdadeiros não pode nunca crescer de maneira significativa. É como o futebol. Quantos Ronaldos temos no Mundo? Quantos Messis? um de cada. Assim também é na poesia. Nem todo o mundo pode ser poeta. Só as pessoas de grande sensibilidade. Tem havido confusão entre o discurso comum e o que é poesia”, salientou.

Movimentos literários

Sobre os movimentos literários que existem no país, como o Lev’Arte e o Litteragris, disse que têm desenvolvido um grande trabalho, que supera o das escolas e do próprio Ministério da Educação (o Estado), no fomento do livro e da leitura. Por essa razão, apela ao Governo que repense a importação de livros, (de poesia ou outros), obras da literatura mundial e as disponibilize aos estudantes a preço baixo, nas bibliotecas e nos bairros periféricos. “Esses movimentos literários não têm nem um por cento dos livros que eu li quando era jovem e andava na escola. O país não tem livros, não tem livrarias. Como é que eles podem ajudar a dinamizar a poesia, sem essas obras fundamentais da poesia universal ao seu dispor?”, questionou.

Celebrar a data

Para o poeta, a poesia deve ser todos os dias nas escolas, com a leitura da boa poesia orientada pelos professores, que tenham conhecimento do bom poema. “As datas são como a água do rio que está sempre a correr. A poesia é perene e não precisaria de data específica, senão para efeitos académicos, políticos ou outros. O poeta é poeta a tempo inteiro, celebra a poesia da maneira que respira”, disse.

O poeta

Nascido no Gulungo Alto, a 24 de Novembro de 1955, José Luís Mendonça é licenciado em Direito pela universidade Católica de Angola. É escritor, poeta e jornalista de profissão, exercendo o cargo de director e editor-chefe do Jornal “Cultura”, quinzenário angolano de Artes & Letras, das Edições Novembro. É autor de vários livros de poesia e um de contos. Integra a denominada “novíssima geração”, expressão que designou o conjunto de jovens que começaram a despertar no início dos anos 1980 para a literatura. Da sua vasta obra destacam-se os livros ‘Chuva Novembrina’ ‘Gíria de Cacimbo’, ‘Respirar as Mãos na Pedra’, ‘Logaríntimos da Alma’, ‘Poemas de Amar’, ‘Ngoma do Negro Metal’ e outros que mereceram distintos prémios como Sagrada Esperança, Prémio Sonangol de Literatura e ainda o Prémio Nacional de Cultura e Artes.

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