Manuel da cruz Neto: “Mentalidade de Escravo” a primeira viagem de Kiluanji ao mundo da literatura

Manuel da cruz Neto ou simplesmente “Dr. Kiluanji” é conhecido nas várias lides como político, tendo na legislatura cessante assumido o cargo de Ministro de Estado e Chefe da Casa Civil do presidente da República. Entretanto, apesar de o homem ser um animal político com referência ao filósofo Aristóteles na sua obra “política”, o nosso interlocutor emergiu também no mundo literário onde estreiou-se com o livro de auto-ajuda e motivacional “Mentalidade Escravo”. É com o autor destes escritos postos à disposição dos leitores, em Setembro de 2018, que Opaís conversou, sobre assuntos transversais, que acompanham a vida do hoje Deputado à Assembleia Nacional pelo partido que sustenta o Executivo, Mpla

É na “vida real” economista de formação, com forte paixão e inclinação à literatura onde apresentou a primeira de muitas viagens no panorama livreiro no quadro do fomento e promoção da literatura. O também professor Manuel da Cruz Neto segredou a este jornal, que volta a estar predisposto a partilhar o seu “backgound”, por via de palestras para jovens, na lógica da transferência de conhecimentos de mais velhos para mais jovens, uma prática bastante comum na cultura africana. Daí ter já agendada uma palestra sobre o conteúdo contido no livro, para Segunda- feira, 25 de Março, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Relações Internacionais (CIS), em Luanda. A seguir saiba um pouco do seu percurso pessoal e profissional.

Como surge a ideia do livro “Mentalidade de Escravo”?

(Risos)…. Este livro foi mais como uma obrigação! Meus familiares e amigos impulsionaram-me a fazer uma incursão pelo universo da literatura, porque acreditavam ser um desperdício alguém com o conhecimento e experiência que tenho não estar a escrever ou partilhar, sobretudo com os mais jovens. Por isso, senti-me mais ou menos, como se fosse obrigação moral aceitar o desafio e trazer à luz este livro que espero agregue algum valor aos leitores.

E por que motivo o título “Mentalidade de Escravo”?

Este tema ou, se preferir, título resulta de uma análise feita ao nosso comportamento, enquanto africanos; desde os mais simples cidadãos aos presidentes. Neste longo percurso nas várias estruturas do governo e até mesmo como cidadão, analisando o quotidiano pude notar que alguns comportamentos são consequência do longo período de escravatura a que foi sujeitado o nosso continente. Daí a escolha do título, um questionamento aos leitores sobre temas relacionados com a necessidade de mudança de mentalidades, partindo do pressuposto de que apenas conseguiremos resultados diferentes se mudarmos a forma como fazemos as coisas. Em suma, pretendo, com este livro, passar aos leitores que a mensagem de que os nossos sucessos ou insucessos na vida dependem da nossa forma de pensar, da forma como vemos o mundo e de como nos vemos dentro dele, e não de meros acasos, destino ou azares.

Como descreve a sua infância passada e vivida no período colonial?

Tive uma infância calma, nasci numa família humilde e feliz, na província de Malanje, estava rodeado de todo conforto e carinho. O meu pai trabalhava na Companhia Manganês de Angola. Comecei os meus estudos aos seis anos de idade num ambiente em que, numa turma de 40 alunos, haviam apenas dois negros. Isso ainda no tempo colonial. Depois fui para o Seminário, Colégio São José, isso em 1968. Fiquei por lá até 1973, isso eu com 15 anos de idade, numa altura em que ocorria a transição entre a era colonial e a independência. Após a minha passagem pelo Colégio São José fui parar ao Liceu Adriano Moreira, onde fiquei por lá ano e meio. Em 1974, com o início do processo de independência, fui forçado a suspender os estudos para vir a Luanda, onde, pouco tempo depois, isso em 1976, comecei a frequentar o Liceu Salvador Correia, propriamente no curso de Recuperação. Mas, feliz ou infelizmente, por condições materiais e de alojamento, fui novamente forçado a suspender os estudos e voltar à minha terra-natal, Malanje, onde no município de Cacuso, na qualidade de professor, comecei a leccionar as disciplinas de Língua Portuguesa e Língua Francesa, aos alunos da 6ª classe. Mas em 1977 surgiu a oportunidade de ir a Cuba, onde durante um ano frequentei um curso intensivo de Zootecnia Aviária e Nutrição Animal.

Malanje, Luanda e segue logo para Cuba um país distante e com outro idioma. Como é que foi a adaptação?

No princípio foi difícil, mas tornamos fácil porque éramos um grupo bastante grande e nós nos relacionávamos mais entre nós, angolanos. O espanhol não nos pareceu tão difícil, tanto é que começamos as aulas sem termos que frequentar um curso de refrescamento da língua. O que realmente foi difícil foi a mudança na alimentação, comíamos quase sempre arroz com feijão… era o nosso prato tradicional.

Momentos vividos que os guarda em memória com alguma nostalgia?

Pois. Fomos muito bem recebidos, sobretudo porque era o momento do internacionalismo, em que muitos cubanos estavam a vir a Angola. Era um relacionamento de irmandade, pese embora os cubanos, na altura, não tivessem muito conhecimento sobre o nosso país. Era engraçado porque muitos cubanos tinham a falsa ideia de que os africanos viviam efectivamente nas árvores, como primatas.

Entretanto, antes de partir para Cuba pelo que disse antes foi professor na sua terra natal, propriamente em Cacuso?

Comecei a trabalhar muito cedo, tinha apenas 18 anos de idade. Em 1978 fui à tropa, cumpri dois anos o serviço militar na província de Benguela, propriamente no município do Lobito, na Escola de Sargentos. Fui professor. Depois de ter regressado desempenhei funções em vários departamentos, com passagem marcante pela Presidência da República e hoje Deputado à Assembleia Nacional.

Que lembranças guarda em ter trabalhado com o antigo Presidente da República. Como era a relação laboral?

Era uma relação interessante e pacífica, o presidente gostava de ideias novas e eu fui para ajudar a secretaria, porque era uma das suas preocupações. O trabalho não era difícil do ponto de vista técnico, o grande problema são sempre as pessoas.

Como assim?

É que as mudanças geram sempre alguma resistência, precisei de muita paciência e muito diálogo com os quadros, para fazê-los entender que se tivermos controlo das coisas podemos ganhar muito mais, porque as pessoas têm aversão ao controlo. Introduzi novos sistemas de gestão laboral que permitiu fazer com que a tramitação dos processos administrativos fosse mais célere. O mais importante é não desistir do trabalho e das pessoas. E neste caso, importa destacar que o Ex-Presidente José Eduardo dos Santos, sempre que as coisas não corressem bem, ele aguardava sempre uma explicação e dava outra oportunidade.

Foi um trabalho acima de tudo desafiante?

O meu papel servia de interligação entre o presidente e as demais instituições do Estado. E aqui, importa igualmente destacar que sempre adoptei a postura de líder e não de chefe. O que fazia não era dar ordens mas sim buscar consensos sobre as acções que precisaríamos desenvolver. Portanto, o trabalho era muito intenso, havia vezes que tínhamos hora de entrada mas não tínhamos de saída, porque haviam muitas solicitações, como projectos, ofícios, solicitações de orientações, etc.

Hoje o país vive um novo paradigma como se costuma a dizer, qual é a avaliação que faz do actual Executivo comparado ao cessante?

Honestamente é preciso distinguir várias coisas… Em relação à política, há uma continuidade, isso porque as últimas eleições mudaram os actores políticos e não o partido. Na minha análise, as lideranças sempre acabam mudando as instituições e, no nosso caso, saímos de um modelo de liderança para outro, e os dois presidentes são diferentes nas formas de pensar e agir. Aparentemente há mudanças estruturais, mas, na minha visão, o que houve de facto é uma mudança na forma de actuação do Presidente João Lourenço em relação ao Ex-Presidente, José Eduardo dos Santos. Sou de opinião que o Presidente João Lourenço é mais pragmático, enquanto o Ex-Presidente José Eduardo era mais visionário.

Acha que esse pragmatismo está reflectido na vida das pessoas, sobretudo do ponto de vista sócio-económico?

Antes de qualquer função do homem na sociedade, ele é essencialmente um consumidor. Partindo deste raciocínio, pode-se concluir que, se com a mesma quantidade de recursos financeiros adquirir menos produtos em relação ao período homólogo no ano passado, então a situação económica e social piorou e esta é a realidade. Contudo, as causas não são o mais importante neste momento, mas sim o que teremos que fazer para resolvermos este problema e sairmos desta situação, sobretudo porque o importante é olharmos para frente de modo a construirmos o futuro.

Vai falar para estudantes na sua maioria jovens muitos deles desempregados. Que mensagem há de passar uma vez que os índices de desemprego vão-se acentuando cada vez mais?

Temos muitos desafios. Vivemos muito tempo dependentes do sector petrolífero e, de facto, vivemos de renda porque quem explora não são os angolanos, são empresas estrangeiras e os rendimentos que arrecadamos são essencialmente provenientes de impostos. E quando se vive de renda não se consegue ter uma cadeia produtiva. E como nós importamos basicamente tudo, temos uma logística de importação. O país está preparado apenas para recepcionar o que vem de fora, não conseguiu criar ainda uma logística de produção, por isso é que vemos os produtos a estragarem nas zonas de produção, mesmo sabendo que há mercados nos grandes centros urbanos.

O que quer com isso dizer?

Isso, em parte, resulta da falta de infra-estruturas de comunicação, estradas e sistemas de transporte que facilitem a logística destes bens das zonas de produção para os grandes centros de consumo, um processo que terá impacto directo sobre a redução da importação de alimentos e, mais do que isso, fomentará a produção nacional e irá gerar riqueza para as famílias. É preciso capacitar as pessoas para que deixem de depender do Estado e, neste caso, a livre-iniciativa é o principal caminho. Há um slogan no meu partido que diz que “o mais importante é resolver os problemas do povo”, mas isso agora precisa de ser revisto, porque “o mais importante é capacitar o povo para que ele resolva os seus próprios problemas”.

É uma mensagem de incentivo ao empreendedorismo? O Estado tem feito o suficiente para que haja esse impulso?

O Estado tem feito o que pode. Mas podia fazer mais para que os resultados surjam, porque nós podemos fazer muitas coisas, mas se não apresentarem resultados nada feito. Portanto, o Estado tem feito pouco, porque os resultados não são satisfatórios.

Que conselhos deixa para a juventude?

Primeiro: Cada um de nós, na sociedade, é um micro responsável por si. Ou seja, ninguém lhe vai ajudar se você não fizer nada. Segundo: Se você continuar a pensar e agir como tem feito até hoje os resultados serão os mesmos. Ou seja, se aquilo que fez não deu certo procure experimentar de outras formas. Vá atrás daquilo que sente que deve fazer. Portanto, todos nós temos um propósito de vida, é preciso ir atrás deste propósito porque as coisas só darão certo se estiver a seguir um determinado propósito.

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