“Anonimato da mulher na luta deve ser substituído por rostos”

A afirmação é da ministra Cultura, Carolina Cerqueira, quando discursava na abertura do colóquio sobre “As Mulheres na Clandestinidade e na Guerrilha” que decorre desde ontem no Memorial Dr. António Agostinho Neto

Quatro emocionantes depoimentos contados na primeira pessoa, por partícipes directos e protagonista no feminino da dura luta pela liberdade nacional e contra a opressão colonial, abriram ontem o colóquio sob o tema “O Papel das Mulheres na Luta de Libertação Nacional: 1950-1975”. Marilina Figueiredo de Carvalho (MPLA), Cipriana Miguel Kawawa (FNLA), Teresa Mamanawa Kakunda (UNITA) e Catarina Ululi (UNITA) deram testemunho oral da sua participação nas operações clandestinas e depois na guerra de libertação nacional e contaram na primeira pessoa “o amargo de vida” que foram a sua juventude passada numa feroz e permanente luta pela liberdade.

Romances amorosos abruptamente interrompidos, obstrução nos estudos, separação de famílias e desterro, são em resumo os pontos comuns de diferentes histórias de mulheres que em uníssono reclamam contra a “falta de reconhecimento da Nação aos seus feitos colectivos e quiçá recompensa por tamanho sacrifício”. Para não variar, é mais uma vez em Março, aquelas mulheres que começaram nos primórdios sem cores partidárias, contaram que não aderiram à luta por “arrasto” dos homens, mas por convicção própria e por necessidade de se verem livres do jugo colonial. Mas, por ironia ou injustiça, hoje poucas são as “tidas e achadas”, e os méritos da heroicidade dos filhos desta Angola tem rosto e nomes masculinos.

“É hora de mudamos isso. Eu, por exemplo, perdi cedo o meu marido e como consequência tenho hoje um filho único porque não quis arranjar outro parceiro”, contou Cipriana Miguel Kawawa, natural de Nambuangongo. Oradores e moderadores reconheceram o engajamento das mulheres filiadas nas três organizações femininas dos então movimentos de libertação nacional, hoje transformados em partidos políticos. A LIMA, a AMA e OMA foram as três organizações dos partidos históricos angolanos colocados no mesmo patamar e “reconhecidos” como verdadeiras protagonistas de um amplo movimento de emancipação da mulher angolana.

Papel da Mulher foi crucial

A ministra da Acção Social, Família e Promoção da Mulher, Faustina Inglês de Almeida Alves, uma das oradoras, referiu que “o papel da mulher angolana foi crucial e determinante durante a luta armada de libertação nacional, sempre corajosa e manteve durante a guerrilha o espírito patriótico e empenhou-se sem receio e medo”. A governante referiu ainda que a mulher angolana deu o seu melhor “na clandestinidade em cidades e matas, abandonando as suas famílias para se juntar aos combatentes/ guerrilheiros”. O ministro dos Antigos Combatentes e Veteranos de Guerra, João Ernesto dos Santos, outro orador na cerimónia de abertura, enalteceu o “voluntarismo” da mulher angolana que logo começou o movimento de resistência ao colonialismo responderam e aderiram em massa a causa.

A ministra da Cultura, Carolina Cerqueira, a quem coube a honra de declarar aberto o evento, referiu que a participação na luta significou também “um passo firme para a emancipação da mulher angolana que ao fazer parte das acções clandestinas, da assistência social e sanitária, da educação, de diplomacia e de combate, reafirmou o seu papel de pilar da sociedade e mostrou que a visão redutora, então existente, sobre a sua capacidade de contribuir para a liberdade do povo e para o seu progresso social não tinha razão de ser” e devem ser ultrapassados. Por isso mesmo, a governante sugere que “é hora” de mostrar o rosto das mulheres que, em detrimento dos homens guerrilheiros, são referidas na nossa historiografia simplesmente como mulheres. Através da toponímia e da atribuição de seus nomes às nossas instituições, edifícios, largos e outras formas de património é possível homenagear cada uma daquelas bravas mulheres que deram o seu suor e prol da liberdade de Angola, mas que apenas são “heroínas invisíveis”. O coloquio, organizado em painéis temáticos.

Homenagem aos 50 anos da Biblioteca Nacional

O colóquio é igualmente uma forma de assinalar os 50 anos da Biblioteca Nacional de Angola (1969- 2019), sob o tema “Biblioteca Nacional de Angola- 50 anos de história, leitura conhecimento” é uma forma de promover e salvaguarda do património bibliográfico nacional, promover a leitura e o conhecimento, enquanto atribuições da instituição. O evento, que encerra hoje, segue como metodologia a apresentação de painéis temáticos para a apresentação de comunicações, intercalado cm sessões de depoimentos de mulheres que participaram na luta de libertação nacional em representação da FNLA, MPLA e da UNITA e outras organizações ou de forma individual.

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