‘Eu nunca gostei muito de rastejar nem de baixar a cabeça’

Quem não se sentiu tocado ao escutar ‘valódia’, ‘Kifangondo’, ‘Marçal’ ou mesmo ‘angola não é herança de familiares’? a caminho dos seus 65 anos de idade, o autor destas músicas, antónio Sebastião vicente, o Santocas, continua a ser uma das principais referências da música popular urbana angolana, mormente nas músicas de intervenção que ajudaram a mobilizar muitos angolanos –e não só- para a independência e a defesa da causa angolana. Em conversa com o PaÍS, o músico relembra o seu passado e o desalento com algumas situações do presente. Mas o seu timbre de voz continua actual, esperando cantar até aos 100 anos de idade, altura em que, provavelmente, se vai reformar...

POR: Entrevista de Dani Costa
fotos de Jacinto Figueiredo

Santocas é hoje um músico já reformado ou fez apenas um repouso do guerreiro?

Acho que é um repouso. Dificilmente os músicos retiram-se, porque a diferença do músico e o desportista é que o primeiro mantém a voz sempre, o segundo tem um determinado período ou tempo. Quando chega o seu limite é de estacionar. O músico até aos 100 anos canta, desde que não abuse das cordas vocais, não faça uma viragem para a questão das bebidas alcoólicas, a perda de noites, manter sempre a voz afinada e exercitá-la. Isso mantém o músico sempre em forma: é o meu caso.

Vai cantar até aos 100 anos?

Desde que o Criador me dê a possibilidade de lá chegar, possivelmente vou cantar. Não com a mesma força, vitalidade, mas acho que terei sempre a possibilidade de dar o ar da minha graça. A minha falecida mãe cantou até aos 80 anos de idade. Embora não fosse artista de palco, mas ela é proveniente de uma família tradicionalmente de músicos.

Refere-se aos Assis?

Sim. Assis, que vai até ao Manuel Faria, vem para o Mamukueno, o El Belo. O Manuel Faria é meu primo, o El Belo meu irmão e o Mamukueno meu tio. Depois vem os outros tios que são provenientes das turmas, porque antes de chegarmos aos conjuntos, as bases fundamentais foram os grupos de turma. Foi começando a ser reduzido com os grupos folclóricos tipo Kituxi, que depois veio dar Ginga, Ngola Ritmos. Começou com uma viola e com o andar dos tempos assistimos a um melhoramento em tudo. Hoje, por mais triste que seja, o que tenho assistido é que os grupos que a juventude está a formar desprezam uma série de componentes. Por exemplo, os instrumentos tradicionais que deveriam ser defendidos, como são os casos do reco-reco, puita. Ainda se consegue manter a percurssão, que são os batuques, mas não é tudo. Outrora, utilizávamos os bongós, a puita, o reco-reco, porque são instrumentos que dão uma certa identidade à nossa música.

Passados vários anos, desde que começou a cantar, ainda se considera um músico de intervenção?

Considero-me.

Porquê?

Porque fiz músicas com cerca de 30 ou 35 anos, mas ainda continuam na actualidade. São músicas que se eu cantar hoje, dentro do contexto actual, ela se cruza.

Quais são estas músicas e a que contexto se refere?

Se eu cantar, por exemplo, ‘Kwanza Burro’, que foi cantada numa fase ainda sob batuta do partido único, ‘Angola não é herança de familiares’, ‘Marçal’ e outros temas nesta linha se enquadram. Isso quer dizer que os temas que fiz ainda na época do partido único, na qual avisava as situações que estavam a acontecer neste país, vamos ver que todas elas se prendem com o processo actual.

Quer com isso dizer que houve uma certa regressão em vários domínios no país?

Estamos a viver as situações. Estão a ser vividas de tal forma que, independentemente de sermos os três do mesmo mês (Santocas completará 65 anos no dia 25 de Setembro, o mesmo mês do jornalista e do fotográfo), mas eu continuo a ser de ano diferente, que me dá então uma certa distância. Eu sou de 1954. Quando cantei ‘Valódia’, ‘Massacre de Kifangondo’, Heróis serão vingados’, ‘Deolinda’, ‘Oportunismo’ e outras canções que contribuíram para a derrocada, não só do colonialismo, fui prosseguindo, cantando outras canções que tinham a ver com a nossa gema política. Essas canções serviram de mola impulsionadora para a sensibilização do nosso povo. Foram canções que ajudaram a combater de certa forma a divisão que se pretendia fazer com relação ao racismo e tribalismo. Estas canções, de certa forma, travaram esta linha malvada que era proveniente dos actores que achavam que a forma mais correcta de não alcançarmos a nossa independência eram estas. Então, a canção como arma de combate que utilizei na altura serviu para, de certa forma, criar um melhor ambiente e uma união entre nós.

Numa conversa que teve no Jornal de Angola, há alguns anos, disse que ‘ se alguns felicitam por causa do trabalho que fiz, outros culpam- me pelo caminho que seguiram tendo em conta o rumo que o país trilhou’. Qual é a mensagem que quer passar?

Vamos ver: naquela fase estas canções eram de mobilização, muitos foram sensibilizados e recrutados mentalmente por estas canções. Da mesma forma que este país tem e teve gente à frente da Nação, dirigentes de vários estratos sociais, do camponês ao operário, até mesmo ao intelectual, uma boa parte destas pessoas foram mobilizadas por estas canções. Tanto é que foi mobilizada esta parte que esteve na governação como também os que pegaram em armas para combater nas guerras, para a defesa intransigente do país. Muitos destes, uns hoje diminuídos fisicamente, os que perderam vários membros e andam à sua sorte, outros que se beneficiaram e estão bem. Então, os que se encontram frustrados, porque a certeza, o ângulo de visão e a fortaleza que tinham mentalmente era o alcance da independência para uma vida melhor, sabendo que quem cantou e a pessoa que os influenciou está em vida – e que por ele e pelas canções é que estou praticamente assim – sentem-se frustrados.

Como é que se sente quando as pessoas lhe apontam o dedo?

Sinto-me triste, porque também os objectivos primários que tive em relação à luta que nós travamos era de facto termos uma Angola melhor e que servisse a todos. Uma Angola sem estas situações que estamos todos a viver. Mas há uns que estão a viver e sentem-se bem. Como dizia, posteriormente, apercebi-me da viragem que estávamos a ter: fui convidado a um festival em Cuba, que retratava a canção também como uma arma de combate, que decorreu no Varadeiro, onde estiveram vários nomes como os de Pablo Milanês, do Brasil estiveram o Djavan, Chico Buarque e a Clara Nunes. Os cantores mais prestigiados da música política cubana estiveram presentes. Lembro-me de um encontro que tivemos em que a canção política foi vista como uma canção que trazia benefícios à população, onde o cantor a determinada altura, compreendido pela gema política que estava a servir, mas também era uma faca de dois gumes. O cantor político chega a uma altura em que quando a situação que ele defende, que foi delineada para a defesa do povo e das mais legítimas aspirações da população começam a ser frustradas, ele começa a cantar isso. Começa a criar outra metodologia na sua forma de canto ou de letra, para alertar não só a população como o próprio Governo ou o partido. E eu parti para esta acção. Então diziam que, quando o cantor começa a se manifestar manifestar desta forma, vai ser visto como um contrário.

Chegou a ser incompreendido quando decidiu alertar quem governava ou o partido?

Fui incompreendido, sim senhor.

Em que circunstância?

Quando cantei ‘Marçal’, ‘Angola não é herança de familiares’ comecei a ser visto como um traidor. As minhas músicas a partir daquela altura deixaram de se fazer ouvir. Lembro-me que cantei ‘Angola não é herança de familiares’, na Quinta Rosa Linda, com os Jovens do Prenda, na altura estava quase todo o MPLA presente nesta actividade. Nunca passou pelas pessoas presente que eu ia cantar uma canção como aquela num sítio onde estava o Chefe de Estado e tudo. Lembro-me de que o falecido Paulo Teixeira Jorge, depois de todo o mundo se ter levantado, quando eu ia a sair, já na porta, questionou- me: ‘Oh Santocas, eu pensei que você fosse para o calabouço. Você teve coragem de cantar isso aqui’. Eu respondi: ‘tive’. Mas, a partir daquela data, as canções de Santocas deixaram de se fazer ouvir. Então, criaram-se formadores de opinião no sentido de desacreditar Santocas em tudo quanto era canto. O Santocas passou a ser conotado como um homem bufo. Todos diziam cuidado com o Santocas, dizendo que era isso ou aquilo.

Quais foram os sectores que alimentaram esta situação?

Eu não sei quais foram os sectores, mas sei que isso aconteceu. Lembro- me que dirigia um espectáculo, que era chamado Kutonokas, que fazíamos nos vários bairros da cidade de Luanda, e lembro-me de um jovem que conheço bem que estava próximo da entrada dos artistas com esta mensagem. Estou recordado do jovem.

Este jovem ainda vive?

Não sei, nunca mais o vi. Tanto é que, sem querer, ele abordou o meu irmão que estava com a minha cunhada. Estiveram a falar comigo, porque eu estava a fazer a direcção artística, o jovem pensou que também fosse uma pessoa que não era da minha família. Abordou- os e disse-lhes: ‘vocês estavam a falar com o Santocas, é melhor porem-se a pau porque ele é isso e aquilo, por isso têm que ter cuidado’. Quando terminou o espectáculo, o meu irmão veio ter comigo e disse-me: ‘tens que te pôr a pau, a situação contigo não está nada boa’.

Como é que foi possível fazer isso quando alguns diziam que Santocas tinha ‘costas largas’, a ponto de ter vivido na casa de um dos mais influentes dirigentes do MPLA, Manuel Pedro Pacavira?

Na altura, em 1974, quando apareci cantei o ‘Poder Popular’. O Rui de Carvalho era um dos responsáveis do Departamento de Informação e Propaganda (DIP) do MPLA. Eles funcionavam naquele prédio encostado ao Maxinde, mas que já está praticamente desfeito. Quando ele se apercebe da canção, que gravei com o falecido Jofre Neto nas instalações da Voz de Angola, começou a ser divulgada e há o interesse da parte do DIP, através da pessoa de Rui de Carvalho, de saberem de quem era a voz e a canção. Parece-me que o Jofre Neto é que dá as dicas sobre quem era Santocas. Então sou convidado a estar com o Rui de Carvalho, falamos e ele viu que eu, um jovem de 21 anos, era meramente esclarecido e já sabia o que era, de facto, política, porque venho de uma família com luzes sobre isso. Depois nascido num bairro onde morou parte da nata dos homens que estiveram no Governo.

Refere-se ao Bairro Indígena?

Sim, o Bairro Indígena. Foi ali onde amadureci cada vez mais as minhas ideias.

Como é que entra Manuel Pedro Pacavira na sua vida?

Depois de falarem comigo, a situação em Luanda piorou. Mas eu estou ainda a gravar. Gravei o ‘Valódia’, vou gravando outras, então havia necessidade de se saber quem era Santocas porque, naquela altura, fico com a cabeça a prémio em 25 mil escudos. Vivo ou morto tem que ser apanhado. O único refúgio que encontrei foi na casa dirigida pelo falecido camarada Manuel Pedro Pacavira, que tinha como adjunta a Zé Gama, irmã do Mário Gama. Os dois falecidos hoje. Era onde uma boa parte dos responsáveis dormiam. Eu preocupado com a minha situação, porque sabia que a qualquer altura morria, então parti para o contacto com a Zé Gama e expus-lhe a minha situação. A camarada Zé Gama expõe a situação ao camarada Pacavira e fico nesta casa sob orientação e olhos destes dois camaradas. Depois foi do conhecimento do partido que Santocas estava aí e passei a ser a voz corrente, em termos musicais, do Departamento de Informação e Propaganda do MPLA. Quero dizer que a partir daquela altura passei a produzir mais. Eu ia para a Rádio Nacional para gravar às sete horas e saímos às três ou quatro horas da manhã. É o processo que fazíamos. Portanto, não sei o que é costas largas nisso.

Sente-se realizado, hoje, depois deste percurso e ter sido até a voz que passava as mensagens que o MPLA pretendia em determinado momento?

Acha que aqui onde estou a viver tem muito desta realização para esta figura que acaba de citar? Eu fui, de facto, uma pessoa que se habituou a trabalhar. Tenho sempre o princípio de alcançar objectivos. Nunca gostei muito de baixar a cabeça.

Houve momentos em que quiseram que baixasse a cabeça?

Pois… Eu nunca gostei muito de rastejar nem de estar a baixar a cabeça. Entrei para o Ministério da Informação, primeiro, fui trabalhar no laboratório fotográfico deste ministério e quando comecei a trabalhar fui ter com o camarada Luís de Almeida – na altura director – porque tinha necessidade de trabalhar. Aos 18 anos já comecei a sustentar a minha família, isto é, a minha mãe e os meus irmãos menores. Então, eu tinha que continuar, porque independentemente de tudo que estava a fazer em prol da revolução, não é que quando me meti na produção das canções que fui fazendo, não assinei nenhum contrato de que poderia ganhar pelo que estava a fazer. Eu lutei por uma causa, para a independência de Angola. Sinto-me confortado ao saber que faço parte, de facto, desta luta que consagrou os angolanos à independência.

Revê-se no partido no poder, o MPLA?

Eu sou amigo, simpatizante e um militante que não tenho exercido esta actividade como tal.

Durante algum tempo, o MPLA usou o sistema de quotas para os músicos chegarem ao Parlamento ou mesmo ao seu Comité Central. Nunca chegou a ser cooptado?

Como é que seria cooptado se estava a cantar a verdade que é uma palavra que toda a gente contesta? Como é que seria cooptado se estou a cantar que Angola não é herança de familiares? É difícil. A partir de uma determinada altura fui visto como um cantor que tinha virado as costas, está noutra maré.

‘Não acompanhar a política é o mesmo que voltar à alfabetização’

O que representou a passagem pelo agrupamento Aliança FAPLA Povo?

Representou muita coisa, embora tenha sido em pouco tempo. Só a questão daquela junção e daquelas vozes, Artur (Nunes), David (Zé) e Urbano (Castro), aquilo me deu um certo conforto por causa do intercâmbio que vivemos durante o período em que estive lá. Foi fantástico, porque naquela altura os objectivos eram os mesmos, que era ter as vozes unidas com a vontade e a certeza de podermos cumprir com o nosso papel, que era fazer com que esta população reconhecesse no MPLA o partido para a independência deste país.

Os acontecimentos de Maio de 1977 apanharam-no ainda no FAPLA Povo?

Não, já estava fora do FAPLA Povo.

Como foi perder companheiros como Artur Nunes, David Zé e Urbano de Castro?

Foi triste e lamentável. Era de chorar. Continuam aí as suas vozes, porque o artista morre mas as vozes ficam. O convívio salutar que pude ter com aqueles camaradas, depois dos acontecimentos de 1977, foi o entornar da água. Mas revolução é revolução. Devemos ter os sentimentos, chorar por aqueles que nos são queridos, mas a vida é esta.

Perdeu muitos companheiros?

Quem é que não perdeu um companheiro naquela fase do 27 de Maio? Muita gente morreu. Perdi familiares da mesma forma que outras famílias também perderam. Que Deus nos oiça para que nenhum 27 de Maio ou coisa parecida possamos viver novamente.

Hoje, continua a interessar-se pela política?

Faz parte de mim. Seria um erro virar as costas à política, porque é a política que me fez crescer e aprender o contrário e o certo. E é a política que tenho que seguir. Não estando, e não acompanhar a política, principalmente do nosso país, tinha que voltar à alfabetização.

Qual era a génese das músicas como Kifangondo e Valódia?

Kifangondo tem a ver porque – eu vivendo na Vila Alice, porque a minha casa depois ficou na Pompílio Pompeu de Castro, mas antes vivia  mesmo na rua da Liberdade. Porque estava ligado ao DIP, acompanhava toda a movimentação que se processava naquela rua, tendo em conta que o Estado-Maior das FAPLA encontrava-se também aí naquela rua. Então, com relação a Valódia, na altura em que saem para ir ao ataque à Facção Chipenda, eu acompanhei. Vimos a movimentação. Então, depois acompanhei a notícia do regresso e que Valódia tinha tombado. Em função deste acompanhamento, o Valódia apareceu. Depois, o Massacre de Kifangondo sou informado pelo Rui de Carvalho. Diz-me: “foram mortos muitos camaradas nossos em Kifangondo.

Santocas, vê se te inspiras’. Começamos a receber as informações das pessoas provenientes de Kifangondo. Em função de tudo isso, tendo em conta o dia, a inspiração deu o Kifangondo. É uma vivência que tive. Mas também para dizer que quando nós recebemos aqui o Movimento Popular de Libertação de Angola, todas estas canções o DIP produziu em disco. Naquela altura, o movimento tinha problemas fi nanceiros gritantes. As nossas canções, independentemente do sacrifício da composição que a gente tinha que fazer – o que não é nada fácil – o DIP pegava na produção e era feito o disco. Depois a venda dos discos, o movimento tinha o retorno fi – nanceiro. Esse retorno não era para o cantor nem para o Santocas, era para o cofre do movimento, porque precisa. Quer dizer, nós não só estivemos na base do canto, como estivemos também na origem da ajuda financeira.

Não sei se foi muita ou pouca, mas foi ajuda. Nós também estivemos na mata. Eu ainda uma boa parte de Angola. Não perdi nenhum membro, estou inteiro graças a Deus, independentemente de ter a cabeça a prémio. Com muitos dos meus camaradas, cantores, instrumentistas e outros, rodamos Angola. Saímos uma vez do Lobito para o interior de um dos municípios, saíamos de Luanda para ir a Benguela e nós dizíamos que não iríamos regressar, porque vamos fazer uma digressão pelo interior desta província. Tínhamos naquela fase a UNITA a atacar seriamente. Uma vez fomos em direcção ao Bocoio, como não tínhamos uma fotografia do que era este município, ao falares isso a alguém nos diziam que ‘não voltam mais nem vos passa pela cabeça o que é o Bocoio’. Depois é que se começa a viver a situação. Quando estávamos a sair do Lobito para o Bocoio, num autocarro, com os guerrilheiros lá em cima, encontramos carros que tinham sido queimados e pessoas mortas no momento. E você está a passar por eles porque tem que ir não sei aonde! Vê que trabalho é que a gente fez. Hoje, feliz ou infelizmente, sou considerado como um antigo combatente com 21 mil Kwanzas de pensão mensal.

Há inspiração para músicas revolucionárias tendo em conta o actual quadro sócio-político ?

Há.

O que lhe apeteceria cantar nesta fase?

Já cantei. Se eu pegar na canção em que estou a dizer a ‘verdade’ é actual. Se pegarmos agora o ‘oportunismo é uma táctica/ para atingir fins políticos/quem tiver dúvidas, está a cometer um suicídio político/ isto é claro, camarada, como a água”, é actual. É só pegar as canções do Santocas que cortou aquela linha umbilical com ‘Massacre”, “Valódia”, vais ver que estão actualizadas e dentro do contexto.

Qual é o país que temos hoje?

Deveria ser melhor. O pensamento foi sempre o de termos um país em que não haveria mais o que tenho assistido a partir da minha varanda: pessoas a comerem no contentor de lixo às 4 horas da manhã. Não dei o meu melhor para ver isso, mas sim para termos condições para o nosso povo. Foi a luta que eu fiz, a luta em que sempre pensei que estivéssemos a pautar por princípios nobres, que 40 anos depois, estaríamos sem os problemas que estamos a viver. Quando vou para o hospital, porque também tenho estado doente, sou ser humano, no Josina Machel ou Américo Boavida, temos que estar atirados à espera da tua hora. Muitas vezes entras às 18 horas e sais às 2 ou 3 da manhã. Eu já era o Santocas e acabei por perder um filho no Américo Boavida por falta de assistência. O meu filho morreu nas minhas mãos. Não foi por esta Angola que eu lutei.

‘O passado colonial uniu-nos mais que o presente’ O que acha da música feita, sobretudo, pelos jovens?

Os jovens hoje estão mais interessados em fazer música romântica, ir para o comercial. Às vezes, vemos despontar uma ou outra voz, principalmente os rappers, como o Afroman, o MCK. Nós sentimos que eles trazem alguma coisa. Estamos a sentir que até começamos a perder a identidade cultural. Hoje, olhamos para a televisão, vemos os nossos jovens -não tenho nada contra eles, porque devem cantar aquilo em que se sentem melhor-, mas se podemos chamar a atenção, então porquê não o fazemos? O mosaico cultural angolano é tão rico.

Qual tem sido o papel da União Nacional dos Artistas e Compositores (UNAC)?

A UNAC vive uma situação muito difícil. Mas é compreensível, porque onde há homem há sempre desavenças. E acho que a situação que se vive na UNAC é para aprendermos mais um bocadinho. Devemos ter uma união que dá liberdade à juventude e encaminhá-los para lá. Os mais velhos devem estar atrás e criar um núcleo de conselheiros para apoiar a juventude. Com o nosso beneplácito, acho que podemos encontrar um denominador comum para darmos outra viragem à UNAC.

Tem sido convidado para espectáculos?

Tenho sido convidado algumas vezes. Há dias fui convidado para ir actuar numa actividade realizada pelo MPLA, no Mausoléu. Cantei aquilo que interessou e fez reviver os presentes. Recebo alguns convites, algumas vezes até rejeito. Para atingir o estatuto que tenho não foi muito fácil, mas também é muito fácil perder quando nós não sabemos nos conduzir. Há actividades que temos de ter o cuidado de saber se vamos ou não. Depois também está o cachet: se não me satisfizer, retiro-me desta actividade.

Face ao percurso que reviveu, alguma vez pensou desistir porque a luta não valeu a pena?

Não é possível sentir que não valeu a pena. A independência mereceu o contributo de todos nós. A independência é a nossa identidade de angolanos. Digo a muita gente: em nenhuma parte do mundo vais encontrar o rio Cuanza, porque ele só está aqui em Angola. Fomos libertos daquela província ultramarina e somos donos do nosso destino. Valeu a pena. Agora, existem as situações que deveriam ser olhadas com a devida atenção. Há gente que lutou pela independência deste país e que andam pelas ruas com as mãos estendidas. Pessoas que perderam os membros estão atirados. Há necessidade de se olhar para este pessoal. A independência valeu a pena. Agora, estamos no princípio de melhorar o que está bem e corrigir o que está mal.

Tem sentido que se está a melhorar o que está bem e corrigir o que está mal?

No acompanhamento que faço, alguma coisa está a mudar.

Quais são as coisas que estão a mudar?

Estamos a ver o processo das burlas e do gamanço. Desde quando é que passaria pela minha cabeça que dirigentes deste país seriam chamados num tribunal? Não quero dizer serem presos, mas só mesmo o facto de serem chamados! Alguma vez lhe passou isso pela cabeça? Eu acho que não.

Sente saudades dos tempos em que as bandas ou conjuntos acompanhavam o Presidente da República nas suas digressões?

Quem fez este percurso foi o Kissanguela. Eu não estava enquadrado no Kissanguela. Eu era a voz do DIP. O Kissanguela era a voz da JMPLA. Embora os objectivos fossem comuns, os enquadramentos eram diferenciados. Mas sinto algumas saudades da fogueira do guerrilheiro. Sinto saudades do momento em que sentíamos, um pelo outro, uma atenção, sobretudo quando o slogan era o ‘mukuaxi’ para identifi car o angolano. Sinto saudades dos momentos em que quando alguém era atropelado e a pessoa parava para levar o semelhante. Hoje fugimos o nosso semelhante. O passado colonial uniu-nos mais que o presente. O sofrimento que tivemos no passado nos deu uma solidez e hoje que estamos na independência é cada um por si, Deus para todos. Então, que país é que a gente tem?

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