Yuri Simão: “Queremos manter o nível e continuar a apostar na qualidade”

Em 2014 dava início a um novo projecto musical denominado “Show do Mês”, sob a chancela da produtora Nova Energia. Passados cinco anos, a produtora recomeça um novo ciclo tal como começou, tendo como cabeça de cartaz a cantora Selda, que hoje e amanhã regressa ao mesmo palco e local para mais um registo memorável da sua performance melódica e artística

Yuri Simão é o CEO da produtora que assinala neste percurso altos e baixos, como é o caso da falta de patrocínios bem como o diferendo com a produtora Arca Velha de Matias Damásio, um assunto que já está a cuidado dos advogados de ambas produtoras. Entretanto, ambiciona continuar a manter os mesmos níveis organizacionais e a apostar na qualidade. É com este senhor de cultura com quem OPAÍS conversa sobre as perspectivas no arranque da VI temporada

Hoje a Nova Energia começa um novo ciclo passados cincos anos interruptos. Que balanço faz das temporadas já realizadas?

Pois. É como se de um ciclo olímpico se tratasse. O Show do Mês começou em 2014 e fez cinco temporadas. Há aqui um aspecto: nenhum de nós fez qualquer tipo de futurologia, para aferir o que seria hoje o Show do Mês, atingindo uma cifra de 22 espectáculos por ano, em cinco anos interruptos. Nós quando atingimos a quinta temporada tivemos o primeiro “Choque”, que tem a ver com o assunto ligado à nossa produtora e a Arca Velha, do músico Matias Damásio, que ao mesmo tempo foi um grande ponto para nós. Em 2014 e 2015 podemos dizer que tínhamos uma experiência de produto. Em 2016 começamos a construir uma verdadeira marca, porque quando mudamos de banda em 2015 da Maravilha à Banda Show do Mês, sentimos que saímos da zona de conforto para o desconhecido. Mas conseguimos perceber que no desconhecido tínhamos vantagens enormes e tínhamos principalmente muitos lados positivos que era desconhecido por nós. Logo, de ano em ano, pensamos que passamos a ser grande produto construindo uma marca cultural em Angola.

Que desafios perspectivam para o novo ciclo que agora arranca?

Primeiro precisamos manter o nível que sempre o mais difícil, à medida que manter os mesmos níveis de qualidade reconhecido pelas pessoas e apresentado por nós. Tentar auto superarmo-nos. O ano passado começamos a criar novas linhas, associando à nossa marca a produtos artísticos, com enfoque para sacos, sacolas, T-shirts e tantos outros, agregando o nome de “Angolanos para Angolanos”, com outras artes. Então, manter a qualidade num ano difícil com cada vez menos patrocínio, a cultura cada vez menos valorizada e cada vez mais difícil de fazer com a qualidade que se faz.

Normalmente o Show do Mês arranca em Fevereiro e este ano apenas em Março vai começar. Fala em falta de patrocínios, terá sido essa a condicionante para o atraso?

Condicionantes financeiras sobretudo. Nós tivemos dificuldades esse ano para fechar o bloco de patrocinadores de que precisávamos, para fazer a temporada tal como ela é pensada. Não é a primeira vez que isso acontece, na segunda temporada também começamos em Março. Este ano fazer os shows até Dezembro ou seja vamos fazer os dez espectáculos conforme agendamos e a Nova Energia de uma forma geral vai fazer outros espectáculos extras.

Os patrocinadores continuam a ser condicionantes para o show. Até ao momento a Nova Energia ainda não caminha só?

Os patrocinadores continuam a ser um problema porque infelizmente, se reparar, em 2014 começamos com 6 mil Kwanzas, em 2015 8 mil e em 2016 a 2018, 13 mil e este ano aumentamos mais mil Kwanzas. Só para ver que o custo do espectáculo anda em torno de 18 milhões de Kwanzas. Temos transmissão online em HD, temos uma banda com mais de 15 músicos, não excluímos de pôr um naipe de cordas assim como de metais, duas percussões para dar a melhor qualidade e isso é um custo muito alto. Felizmente ainda temos parceiros que abraçam o Show do Mês e a Cultura, embora a economia não esteja boa à Nova Energia também se reflecte às empresas que ainda têm algum para apostar na Cultura.

Podemos dizer que os preços foram aumentados ou ajustados face ao que se referiu?

Os preços sofreram uma actualização fora ainda do contexto do custo real que é o espectáculo. E esse custo que se poderia pagar para que pudéssemos ter lucros com a bilheteira teria de ser em volta de 20 mil Kwanzas. Esse podia ser o custo real, mas não o fazemos porque graças a Deus temos patrocinadores que nos conseguem dar uma balança a fi m de termos algum equilíbrio, porque nós defendemos e dizemos, que o Show do Mês não tem só produtos comerciais. Pelo contrário não tem produtos comerciais. É na sua maioria produtos comerciais porque conseguimos fazer por exemplo um Paulo Flores e um Mito Gaspar, assim como, com toda sua obra e sua história, Sam Mangwana e depois Waldemar Bastos. São produtos um pouco diferentes.Poucas pessoas teriam a disponibilidade em pagar A e concentrarem- se todos para ver C.

Como é que o BAI Arte entra nesse projecto?

O BAI é nosso parceiro desde 2015, mas em 2016 que o também banco Keve, olharam para o Show do Mês, além de um local para activação dos seus clientes, tem também um local em que se promove e se fomenta cultura, congregando pessoas, imbuídos em valores que eles também defendem, acabamos por poder juntar esses parceiros na sua visão cultural ao projecto Show do Mês.

Tal como em tudo, esses cinco primeiros anos não foram só “rosas” e constrangimentos, além de patrocínios ocorreu o ano passado a “maka” com a Arca Velha, que representa o músico Matias Damásio. Em que pé ficou esse processo?

É um processo que está a decorrer desde o ano passado, já tivemos conversações, mas agora é um processo que está entregue aos nossos advogados, que juntamente com os advogados da Arca Velha vão encontrar o melhor caminho de resolução, ou nos tribunais ou por outra via. Foi uma lição muito grande que a gente obteve e acho que o resultado desse processo vai dar uma lição ao próprio showbiz e a própria estrutura. Nós mantivemos tudo aquilo que foram as nossas decisões tomadas e hoje temos a plena certeza que a decisão foi correcta. Claro que mudou muita coisa entre nós, mas é showbiz, são coisas que para nós passaram com o incidente que aconteceu, mas que felizmente após ter terminado a temporada com Waldemar Bastos voltou a colocar o Show do Mês naquilo que ele é.

Não foi possível chegar-se a consenso depois das conversações iniciais?

Não foi possível, porque infelizmente não podemos mudar as regras de jogo quando o jogo já está a decorrer e as exigências, e um pouco de chantagem que o músico tentou fazer…

Foi o que sentiram?

Não foi o que sentimos, mas sim o que aconteceu. A chantagem pessoal que ele detém com o apresentador do espectáculo, que tem contrato para o fazer, e já o faz há cinco temporadas e quis resolver o seu problema no Show do Mês. Entretanto, o acto foi perpetrado pelo músico que deverá arcar com as consequências do mesmo.

A Nova Energia sente-se “culpada culpada” por ter aceitado que o músico fizesse parte do cartaz uma vez que foi a pedido do mesmo?

Sentimo-nos enganados. Acho ser a palavra mais adequada. Penso que ele sabia o que estava a fazer e não o fez por acaso, pois meses antes pediu para estar no Show do Mês, e isso é público, ele mesmo disse em palco. Hoje percebo que tinha o seu plano. Infelizmente por aquilo que são os valores que cada empresa, que cada pessoa em si carrega, como educação e princípios das marcas, não conseguiu fazer aquilo que pretendia como seu principal desígnio.

Está a falar em entrelinhas e gostava que ficasse esclarecido. Percebe sobre activação e marcas sentiu pelo que diz que houve intenção em “beliscar” a marca Show do Mês?

Penso que a marca conseguiu construir um escudo em torno de si fruto do trabalho, do reconhecimento, da seriedade e do compromisso. Isso acho que foram os valores importantes que fizeram com que a marca não ficasse beliscada nisso. Conseguiu ela auto proteger-se e quem conhece o nosso trabalho sabe da seriedade e aquilo que somos capazes de fazer para que um espectáculo aconteça. Dando mostras daquilo que é o Show do Mês e da regularidade com que se manteve até hoje. Então, não sentimo-nos de certa forma beliscados. Hoje estamos num mundo extremamente globalizado, agressivo na reacção das pessoas. A sociedade ficou completamente dividida, o que suscitou num debate público sobre as posições. O que acho é que o cantor teve uma falta de comparência no seu local de trabalho, pelo qual estava contratado e pago para o fazer.

Por outro lado, a Selda reabre o projecto tal como ela mesmo iniciou enquanto cabeça de cartaz, qual foi a intenção ao tê-la de volta?

A Selda, costumo dizer, é aquele “amorzinho que se faz às escadas”. Vou desmistificar: É aquela aposta que vem a dar certo mesmo que arriscado. E a Selda é um produto além da qualidade que tem como cantora, serve-nos como gratidão. Porque ela deu-nos a hipótese em começar. Hoje volvidos cinco anos temos também a hipótese em retribuir aquilo que ela deu-nos. Então é um dos valores que o Show do Mês e a Nova Energia têm que é: Gratidão. A estrutura que temos hoje é complemente diferente dos cinco anos passados. O concerto dela nem sequer está no Youtube. Vamos dar essa possibilidade com uma banda completamente diferente para a qualidade de música que ela tem. Hoje temos o maior espólio de música angolana ao vivo na Internet.

Podemos considerar que a Nova Energia foi ousada em “arriscar” em Selda à época quase desconhecida, quando precisavam firmar um produto que resultou no que é hoje o Show do Mês?

A gente olhou para o mercado no que concerne à filosofia do espectáculo. E nisso sentimos que era necessário que se rompesse uma barreira, apresentando algo completamente diferente. A Selda foi a primeira, a seguir tivemos Filipe Mukenga e lembro que naquela altura disse-me que não fazia concertos havia dois anos enquanto cabeça de cartaz. Neste mesmo ano fizemos Robertinho que nunca tinha feito um show com os anos de carreira que levava como protagonista. Fomos construindo isso no sentido de fazer algo diferente daquilo que o marcado já tinha como base.

Paralelamente ao Show do Mês a Nova Energia trouxe o “Show Piô” e o “Funge” são apostas que deverão continuar?

Esses são sub produtos do Show do Mês. O “Funge” saiu da cozinha da minha casa para um evento aberto, já estamos no segundo e vamos fazer mais um. O “Show Piô” saiu do Royal Plaza para um espaço maior. O ano passado anunciamos que faríamos uma pausa no Show Piô. Em princípio não teremos Show Piô este ano. Vamos dar uma pausa. Já fizemos seis shows. Não estamos a dizer que vamos parar. Mas que em princípio não haverá, pode não haver.

Relativamente ao “Funge” surgiram alguns comentários não tanto abonatórios sobre pessoas “social e politicamente expostas”, cujos rostos foram divulgados a confraternizar quando são cidadãos que têm o direito de se divertir. Como é que a Nova Energia reagiu a esses comentários?

Vamos primeiro para aquilo que é o conceito do “Funge”. O “Funge” não é um conceito comercial tanto é que vocês imprensa não têm acesso para cobertura. É um evento fechado, de família, em que vais às 14 horas comer o tradicional Funge e às 22 horas termina. Claro que há fotografias, sai uma passada daqui e acolá, que é bastante normal. As pessoas algumas politicamente e socialmente expostas divertem-se de forma normal. Acho que há um recalcamento ou má intenção das pessoas em querer classificar As pessoas num momento de festa, de roda, onde a Massemba é mote como parte da nossa cultura. Para dizer que as pessoas que vão ao Funge, ao Show, têm conhecimento de que serão fotografadas e isso está rotulado no convite.

Quais são os concertos extras agendados para este ano?

Vamos fazer os 30 anos de carreira de Paulo Flores. Um show da Kizomba, bem como Angola 70. Depois a temporada inteira que tem cartazes aliciantes. Vamos repetir alguns concertos como também traremos novos. Vamos trazer um concerto novo como “As vozes do Planalto”, que vai juntar várias vozes de músicos da região cento e sul de Angola e fazer o show da Sungura e outros estilos. Pretendemos homenagear Beto de Almeida. Vamos voltar a fazer o “Bar”, entre outros.

error: Content is protected !!