Quando o executivo deixa os governados sem nada

Mandados para a ilha dourada, a cerca de 75 km de Luanda, os antigos pescadores da chicala dizem que o executivo lhes prometeu que teriam casas de construção definitiva três meses depois, no Zango, “mas não passou de palavras, porque estamos abandonados e esquecidos estes anos todos”

POR: Milton Manaça
fotos de Pedro Nicodemos

Foram retirados das suas casas no centro da cidade em 2014, mas desde esse momento passaram a ter como vizinhos mais próximos matas e cobras. Não são poucos os relatos de pessoas mordidas por cobras, por isso, circular depois das 18 horas na Ilha Dourada representa entrar em confronto com esses répteis que muitas vezes chegam a entrar no interior das próprias cubatas. O terreno argiloso, em que as cabanas foram feitas, exige da população uma atenção redobrada na hora de se locomoverem, principalmente nesta época chuvosa. Na Chicala, a população tinha de quase tudo, desde o emprego, unidades de saúde, casas, locais para lazer e escola de diferentes níveis para os filhos. Uma realidade completamente diferente nas matas da Ilha Dourada.

“Este governo é insensível e não sente o sofrimento do povo. Este lugar não serve para as pessoas viverem. Onde estão as casas do Zango que nos prometeram”, questiona Maria Gabriel, mãe de três filhos, dois dos quais nascidos na Ilha Dourada. Nos cinco anos de calvário, os populares têm passado por várias vicissitudes, desde a falta de alimentação, luz eléctrica, cuidados de saúde e água potável, líquido que é retirado directamente do Rio Kuanza, o que está na base de muitas doenças, entre as quais schistossomiase entre as crianças, vulgarmente conhecida como “urina de sangue”. Habituada à venda de peixe na Chicala, onde cresceu, Maria teve de adaptar-se rapidamente à vida do campo para sustentar os filhos, pois o único biscate que encontrou foi tirar o capim das lavras. Recebe 4 mil kz por cada hectar limpo.

Nos cinco anos a contemplar o brilho das chapas de zinco, não foram apenas as promessas do Governo de Luanda que os desanima, pois por lá já passaram várias comissões parlamentares de diversos partidos, com destaque para o MPLA e a UNITA, particularmente no período eleitoral de 2017. As visitas acalentaram esperanças já que os representantes do povo terão alegado que o sofrimento deste povo estava no fim, como contou António Luís. O cidadão de 55 anos afirma que “fomos abandodos e esquecidos pelo governo, porque quando você promete e não cumpre esqueces- te do povo”. Para continuar a garantir o sustento da família, fica em Luanda de Segunda a Sexta e apenas vê os filhos e a sua amada nos finais de semana.

Regresso à procedência Os antigos moradores da Chicala dizem que, na altura, foram retirados para as matas da Quiçama mais de mil e 300 famílias, algumas das quais abandonaram as casas de chapa e voltaram a se refugiar nas margens do mar, no mesmo local onde se dedicavam a pesca. A fome e as condições desumanas a que estão submetidos na Ilha Dourada são apontadas como a principal causa e António Luís não descarta a possibilidade de outras famílias seguirem o mesmo rumo. “Aqui é mesmo sofrimento, meu irmão”, dizia Maria Gabriela, enquanto fazíamos a visita guiada pelas casotas abandonadas, tomadas pelo verde do capim e as serpentes.

20 partos arriscados, mas salvos pela experiência

Em 2014 o gPL pós à disposição dos moradores um gerador industrial que abastecia o posto de Saúde, a instalação policial e a televisão comunitária. Hoje, a televisão já não existe e algumas peças do gerador foram vandalizadas, apesar da existência do posto policial. o posto de Saúde não funciona às noites e a população queixa-se da falta de medicamentos e serviços essenciais, como, por exemplo, as consultas pré-natais e serviços de partos que desde o início são garantidos por parteiras tradicionais. A anciã fernanda julieta de 67 anos, é uma das três parteiras da localidade, tendo realizado já mais de 20 partos, número que aproximadamente as suas colegas também terão atingido, segundo relato dos próprios moradores.

os partos que fernanda julieta realizou foram feitos todos na cama da sua própria casa, a luz de velas, sem qualquer anestesiante e em condições que ela mesma diz que às vezes não acredita. É que em muitos casos, nem uma lâmina nova para cortar o cordão umbilical da criança há. ela e os familiares da paciente usam uma faca aquecida ao fogo para o efeito. A velha fernanda, que faz partos caseiros desde os 18 anos, tendo-se iniciado na província do Moxico, diz que por falta de uma unidade do estado capaz de realizar este trabalho, já solicitou em várias ocasiões as entidades que visitam a ilha dourada que lhe seja fornecido o mínimo para fazer o seu trabalho.

“As mulheres usam os meus panos porque aqui não temos camas para elas se deitarem, não temos luvas nem lâminas”, lamenta a avó julieta como é tratada localmente, a que, apesar da experiência que tem, prefere atribuir “o milagre da salvação das crianças à graça de deus”. não havendo condições para meter as famílias em casas condignas, fernanda entende que no que diz respeito à saúde deveria existir um pouco mais de sensibilidade. “nós, da ilha, na cidade, fomos deitados como lixo na mata, sem nada. isso não se faz com as pessoas”, lamentou a velha.

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