Yuri Quixina: “Se os políticos ouvissem os técnicos, o país não estaria como está”

O professor de Macroeconomia, Yuri Quixina, alerta aos políticos a ouvirem mais os técnicos, para que o país tome outro rumo. Nesta edição, o Economia Real analisou, entre vários temas, os riscos da dívida pública e a revisão orçamental

POR: Mariano Quissola / Rádio Mais

O OGE/2019 será revisto e o preço médio do barril do petróleo será fixado em 55 dólares. Era a consequência esperada, como havias perspectivado depois da aprovação?

Acho que o programa Economia Real tem acertado. Defendemos, na altura, que o orçamento morreu ao nascer, porque o preço já não era interessante. A estratégia devia passar pela poupança para que permitisse o relançamento da economia. Já tínhamos dados que apontavam para a revisão.

Quais são as consequências da revisão orçamental?

A revisão orçamental altera tudo. O défice, o crescimento. Aliás, o crescimento foi revisto de 2,8% para 0,4%. Tudo isso altera os dados das contas públicas, porque este elemento só funciona quando a economia real funciona. Afecta a vida das pessoas. Haverá cortes nas despesas de capital e correntes, o que pressupõe, essencialmente, o adiamento das despesas de capital, que são as de longo prazo, com destaque para infraestruturas produtivas, a favor das despesas correntes (salários, subsídios…). E mais: o serviço da dívida será o grande desafio, na medida em que poderá superar os 42%.

E a Academia BAI juntou executivos para reflectir o OGE/2019, com ausência notável dos detentores de cargos públicos, relegando o debate aos técnicos. Para si é preocupante a ausência dos ministros nos debates?

Não é novidade, porque é cultura na política angolana. A cultura participativa não é de partilha nem de diálogo com o mercado. Quando os titulares de cargos públicos não falam com o mercado, a expectativa dos investidores é débil.

Os políticos dão ouvidos aos técnicos?

Se os políticos ouvissem os técnicos, o país não estaria como está. A decisão tomada pelos políticos é que vigora, talvez tenhamos de esperar até um técnico ter poder político.

Um aviso do BNA impõe aos bancos comerciais regras de concessão de créditos à produção interna, no âmbito dos USD348 milhões. Com que sensação ficou quando ouviu essa medida?

São as mesmas que nos levaram à crise, porque esse crédito não é dos bancos, é do Estado, para desenvolver o PRODESI. O dinheiro é do Estado, saiu do bolso do cidadão angolano através do imposto. E o BNA entende que para atingir os objectivos da produção interna, os bancos devem conceder créditos a uma taxa inferior à do mercado, na ordem de 7,5%. A diferença será suportada pelos impostos. No sistema financeiro a taxa de juro é cobrada em função do mercado. Esse não é o caminho. Foi o crédito fácil e barato que nos levou à crise.

Qual é o caminho?

O Estado está a levar todo o dinheiro dos bancos, que seriam para a economia (famílias e empresas). Esse dinheiro devia ser investido nas estradas que ligam os sectores produtivos, com um impacto estrondoso.

O resultado esperado desse financiamento à economia é a auto-suficiência alimentar em 5 anos, segundo o ministro da Agricultura e Florestas. Acredita?

A profundidade da falta de técnica, tecnologia, associado ao elevado custo de produção, em cinco anos é pouco tempo. Segundo o termo auto-suficiência é político e não técnico. Em 2004 já havia esse discurso da auto-suficiência de um ministro da Agricultura.

E o governo diz estar ‘seriamente’ preocupado em recuperar a confiança dos investidores do sector financeiro, segundo Manuel Nunes Júnior, cujas medidas de recuperação estão em curso. Quer comentar?

É um discurso político, porque as medidas que estamos a tomar no sector financeiro são uma agressão. Depois da crise, os banqueiros vão passar mal. Há a ideia de que os banqueiros estão a fazer muito lucro.

Não estão?

Por via da transferência dos impostos pelo Estado!

Continua por se saber o resultado da avaliação do primeiro trimestre do Acordo com FMI, embora a delegação angolana em Washington se tenha desdobrado em vários encontros. Que avaliação faz?

Fizeram-se muitos encontros, mas a minha preocupação consiste no facto de o acordo voltar revisto e não avaliado. O FMI quer revisar porque Angola está a endividar-se muito. Quando um país se endivida significa que está a viver acima das suas posses.

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