Quatro crianças sofrem perfurações nos olhos todas as semanas

Entre quatro a cinco crianças são operadas semanalmente com perfurações nos olhos devido a negligência dos pais, revelou ontem, em Luanda, Luísa Paiva, directora-geral do Instituto Oftalmológico Nacional

Os menores fazem parte do universo de cerca de quatro mil pacientes, de diferentes faixas etárias e regiões do país, que são atendidos mensalmente no Instituto. Alguns deles, de até um ano de idade, por descuido levam determinados objectos pontiagudos aos olhos, outros caíram do berço e há quem também tenha sido mordido ao brincar com o animal de estimação. “O embate do corpo do menor no chão, ao afectar a região dos olhos pode danificar a retina (parte do olho responsável pela formação de imagens), o que pode vir a comprometer a visão, esclareceu a directora- geral do Instituto Oftalmológico Nacional, Luísa Paiva.

Numa entrevista exclusiva a este jornal, a responsável salientou que acidentes do género, com menores, representa uma preocupação para a equipa médica, visto que as cirurgias oculares, por si só, já são delicadas, e tornam-se muito mais quando realizada em petizes. Por esta razão, apelou aos pais e encarregados de educação para prestarem maior atenção às crianças, porque ao deixá-las por um minuto sozinhas é o suficiente para que coloquem as suas vidas em risco. Em adultos, os traumatismos são derivados de acidente de viação ou por consequência de agressão. As vítimas, após ser feita uma avaliação clínica minuciosa, quando detectada necessidade também é operada. Luísa Paiva , que se encontra a trabalhar na instituição há 20 anos, disse que anualmente tem-se registado uma procura elevada pelos serviços oftalmológicos.

Dados estatísticos da instituição apontam que 40 a 50 pessoas são atendidas no banco de urgência, e que, anualmente, chegam a ser contabilizados 44 mil consultas, nas diversas áreas da especialidade. “Em 2014, os nossos registos apontam para 27 mil atendimentos anuais, mas este número tem vindo a multiplicar-se em consequência da dinâmica que actualemente vivenciamos”, disse. O instituto Oftalmológico, atende diversos subtítulos da especialidade, nomeadamente segmento anterior, onde são atendidas as cataratas, glaúcoma, retina, oftalmologia pediatrica e estrabismo, anexos (doenças da pálpebra), órbita e tumores oculares. Os “erros de refracção”, ou seja, defeitos que podem ser corrigidos com óculos, as anomalias do cristalino ( doenças que provocam carataratas ), doenças da superfície no interior do olho e o Glaúcoma são as principais patologias ali tratadas. De acordo com Luísa Paiva, esta última pode ser considerada como uma doença silenciosa, que não manifesta qualquer sintoma e quando um paciente é atingido por ela jamais consegue recuperar a sua visão, contrariamente à catarata.

Cirurgias de cataratas suspensas por falta de materiais consumíveis

De acordo com Luísa Paiva, mensalmente podem ser realizadas mais de 250 cirurgias dos diversos tipos de sub-especialidades. Entretanto, a responsável lamenta o facto de nas últimas duas semanas terem sido suspensas as cirurgias para a remoção de cataratas por falta de material consumível que se esgotou. “Para realizar uma cirurgia de catarata o hospital gasta entre 250 a 300 mil Kwanzas por paciente. Entretanto, é cobrada apenas uma comparticipação de 35 mil Kwanzas. Se for uma cirurgia à retina 50mil, detalhou. Luísa Paiva esclarece que por norma, os doentes a quem são removidas as cataratas depois da intervenção cirúrgica podem regressar para casa depois de algumas horas. Entretanto, as crianças que, contrariamente aos adultos, recebem a anestesia geral, e os pacientes que são operados à retina, dormem no hospital para acompanhamento médico por se tratar de casos mais complexos.

Tendo acrescentado que para estes já está inclusa a refeição servida pelo Instituto Oftalmológico Nacional e os colírios pós-operatórios. A médica reconhece que o valor da confirmação pode ser elavado para alguns pacientes mas é a única alternativa para que se continue a prestar serviços de qualidade. Apontando que os mesmos procedimentos em algumas clínicas é avaliada em 800 mil Kwanzas por olho, devido ao preço dos materiais utilizados no processo cirúrgico. Entretanto, realçou que nenhum paciente fica sem ser atendido por falta de condição financeira. Geralmente, nos casos em que são confirmadas a sua vulnerabilidade, a comparticipação é isentada, tal como prevê a lei.

Precisamos de uma infra-estrutura maior

A directora geral da Instituição, Luísa Paiva, considera que a infraestrutura onde está albergada o instituto oftalmoógico, com o passar dos anos desde a sua abertura isto é em 1990, tornou-se pequena para albergar o volume de pacientes que ali recorrem. Muitos deles, de outras províncias como Malanje, Cuanza-Sul e Benguela. A título de exemplo, esclareceu que existem três consultórios médicos, e dois para os técnicos, que foram adaptados, ou seja, colocados duas secretárias em cada um para se garantir um número maior de pacientes atendidos. Tal arranjo, também foi dado a umas das salas cirúrgicas que, por ser mais ampla, ganhou zona de cuidados especiais onde são preparados os materiais usados na cirurgia de catarata. Os doentes advindos às consultas de urgência são atendidos em dois contentores devidamente adaptados. A par destas, a instituição conta ainda com ala administrativa, a farmácia, duas enfermarias, a lavandária, cozinha, sala de aulas, sala de médicos e sala de espera junto à recepção. Apesar das dificuldades e limitações a que os profissionais estão expostos no momento, como por exemplo, a ausência de alguns aparelhos de crucial importância para a realização de cirurgias, que foram enviados à África do Sul para reparação, Luísa Paiva disse haver motivação entre os profissionais que estão engajados em proporcionar serviço de Saúde ocular de qualidade a todos os pacientes.

A escassez de profissionais é gritante

Para tender os pacientes, a instituição dispões de 13 dentre os quais 9 médicos nacionais, e 4 expatriados que além de atenderem os pacientes, instruem 25 médicos em formação. Os mesmos,o trabalham na instituição ao abrigo de um contrato do Ministério da Saúde e a cooperação espanhola. Tal número é insuficiente para a demanda dos pacientes que ali recorrem diariamente. De realçar que todos são encaminhados de outras unidades hospitalares e centros médicos. Luísa Paiva considera “gritante” a insuficiência de oftalmologistas no país. Por essa razão, defende haver necessidade de se formarem enfermeiros que a nível dos seus postos de trabalho estejam capacitados a tratarem de conjuntivites e casos mais pontuais, deixando para os especialistas os mais complexos.

A título de exemplo esclareceu que os erros de refração deveriam ser vistos a nível por técnicos optometriscas, disponíveis nas ópticas. Por se tratar de uma intervenção primária, na qual o paciente consegue obter melhorias com o uso de óculos. “ Neste casos, após ser administrada a graduação só nos casos de não existirem melhorias o paciênte deve ser encaminhado ao especilaista.Mas o facto de existirem poucos profissionais, nomeadamente técnicos e médicos faz com que a população ocorra toda ao hospital”, lamentou. Disse que por esta razão, muitos dos pacientes reclamam a sobrecarga do Instituto e quando não são atendidos na data marcada adoptam actos de vandalismo ao ponto de arremessarem com objectos à porta.

 

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