Rapper Bob da Rage Sense comemora 20 anos de carreira em solo pátrio com a “Carta” no repertório

A viver actualmente em Londres, depois de vários anos em Lisboa, o músico Bob da Rage Sense, está no país para Sábado apresentar no Cine Atlântico o concerto de celebração dos seus 20 anos de carreira artística. Em conversa com OPAÍS, o rapper revela que no alinhamento, o tema “Carta” não deverá faltar

A comemorar 20 de carreira no Hip Hop, o artista considera que o seu percurso tenha sido algo atribulado e estranho, no sentido de nunca ter tido a necessidade de se esforçar na sua carreira até chegar às duas décadas. Ele refere que tudo foi acontecendo natural e gradualmente. Entretanto, sofreu ataques e perseguições, faltas de respeito e hoje sente ser alvo de alguma inveja e ciúmes por parte de muitos que não conseguiram atingir os seus objectivos. “Quase que me culpam pelos seus fracassos, mas mais do que nunca estou em paz e tranquilo com tudo e todos”, apontou o artista expectante para mais um concerto, este com sabor especial por tratar-se dos 20 anos de carreira.

Questionado sobre a problemática da música “Carta”, terá motivado a sua migração para Lisboa (Portugal), Bob da Rage Sense foi peremptório em dizer que não, pois quando a compôs já estava em terra lusa onde fixara residência junto da mãe. “Não, eu escrevi a ‘Carta’ em Lisboa, já estava a viver em Lisboa na altura e estava a terminar de gravar o meu segundo trabalho que é o Bobinagem. Eu mudeime para Lisboa para ir viver com a minha mãe e não por questões políticas”, observou. Por outro lado, apontou que esta não faltará ao repertório previsto para Sábado.

No concerto realizado em 2011 houve más interpretações, pois havia planeado que fosse o seu público a cantar pelo sentimento e carinho que têm pela música. “Em 2011 estava eu a fazer uma crítica à censura e, como sei que muita gente gosta desta faixa, queria que fosse o meu público a cantar por mim, sei que alguns perceberam, mas outras simplesmente aproveitaram-se para dizer que tive medo de cantar a faixa em Luanda, mas pronto, desta vez será diferente, a música é minha, canto eu”, salientou.

Estado do Rap

Quanto ao Rap feito um pouco pela lusofonia, com particular realce ao produzido em Angola, Bob da Rage Sense afirma que tem estado a acompanhar, e pelo que ouve tem apreciado muito. Ainda assim, no quadro do contexto actual de intensa crise económica, nada tem ajudado à inserção de novos rappers no mercado. “O país está em crise outra vez e isso não ajuda a abertura e inserção no mercado para Rappers com talento à procura de uma oportunidade, a classe endinheirada dominante tomou conta das redes sociais, dos estúdios, das rádios, das labels e canta a sua realidade que não se adequa à realidade do povo em geral e isso não ouço”, fundamentou.

Rap em decadência

Embora em quase todos os seus álbuns trazem quase sempre um tema em que aborda o estado da cultura hip hop, com ênfase para o Rap feito em português, Bob da Rage Sense, considera que, quer o Rap da lusofonia quer o feito pelo resto do mundo estão em decadência. Para ele esta fase de declínio terá começado ainda na pretérita década de 90, quando a indústria começou a perceber o potencial da cultura para o lucro extraordinário, pois tudo o que acontece em Angola, ao nível comercial e mesmo Portugal, é um reflexo do mercado norte-americano. “É uma realidade adaptada criada pelos novos slave masters, os donos das instituições com capital e a maior parte deles está-se completamente a marimbar para a música”, justifica o artista.

Mudanças no país

Chamado a fazer um traçado sobre a actual realidade do país, no que concerne a algumas mudanças sobre os vários domínios da vida política e social, verificada nos últimos meses quanto ao rumo que o país supostamente esteja a ter, nesses termos o rapper aludiu: “Não vejo muitas mudanças, sinceramente, apesar de estar longe, sempre estive a par do que se passa em Angola e sinto mais uma vez que as prioridades estão completamente trocadas, muda o disco e toca o mesmo basicamente”.

Influências musicais

Com uma música manifestamente Rap, sem quaisquer dúvidas, a sua vivência musical bebe e vem bebendo de influências de outros ritmos para a sua criação, ele destaca inclinações a estilos que vão desde o Rock ao Jazz, Soul, Blue, Rock progressivo, o Reggae, o Semba feito por David Zé e Jovens do Prenda. A escrita de Mário Branco e Sérgio Godinho, Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano, todos eles inspiram-no a compor e produzir, embora ouça também músicas novas como James Blake, Rosalía, Kanye West e J.Cole, EarthGang e a lista prossegue. Ainda assim, nunca sentiu a necessidade de acrescentar traços característicos de angolanidade na sua música, sendo que já usou samples de músicas angolanas, mas não sentiu necessidade de a utilizar com maior frequência nos seus trabalhos.

Projecto

Ainda este ano, o artista deverá lançar o seu novo álbum que está pronto. Por ter-se mudado para Londres (Inglaterra), gravou o álbum todo nas terras de sua “majestade”. O mesmo contou com o apoio do seu ex label mate SP DEVILLE que fez a produção de todo o álbum. Conta com as participações do mesmo produtor, de Sir Scratch e de Laton. O álbum contará com apenas 10 faixas e espera lançá- lo no país, muito brevemente. Quanto ao título, este continua nos segredos dos “deuses” e oportunamente o seu exigente público conhecerá.

Convidados

O concerto de comemoração 20 dos anos de carreira de Bob da Rage Sense vai contar com as presenças de Sir Scratch, Kid Mc, Kool Klever, Mck, Phay Grand O Poeta, Og Vuino, Denéxl, Celder, Projecto ascensão e Sombra Raphick, em que se aguarda por uma noite memorável de puras “Rimas, Poesias e Melodias”, sincronizadas na arte do Hip-Hop, como bandeira.