Benguela perde estações arqueológicas por falta de política de protecção

Não obstante o desaparecimento dessas estações, o museu nacional de Arqueologia, em Benguela, conseguiu preservar mais de 500 peças paleolíticas extraídas daquele local, datadas do período da pré-história em diante

A província de Benguela conta com 46 sítios e estações arqueológicas classificadas em 1996, algumas das quais desapareceram devido à ocupação desenfreada de terrenos e à construção de habitações por alguns cidadãos, revelou Maria Benjamim, directora do Museu Nacional de Arqueologia. A responsável realçou que a partir da rotunda do Camioneiro até à entrada da Praia de Santo António, arredores da cidade das Acácias Rubras, uma zona de aproximadamente 1 quilómetro e meio, constitui área de estações arqueológicas já classificadas, mas, devido à ausência de medidas de protecção institucional, foi usurpada. Maria Benjamim, referiu que, apesar do desaparecimento dessas estações, o museu conseguiu preservar mais de 500 peças paleolíticas extraídas daquele local, datadas do período da pré-história em diante.

A directora adiantou que, além das seis estações então classificadas na zona da Baía Azul (também desaparecidas por falta de uma política de protecção), o país, conta com 16 estações arqueológicas identificadas em diversas províncias. Por seu turno, o arqueólogo francês Manuel Gutirre, que se encontra em Benguela a convite das autoridades académicas locais, para um seminário no Curso de História do Instituto Superior das Ciências de Educação (ISCED) da Universidade Katyavala Bwila (UKB), admitiu haver mudanças positivas nos métodos de pesquisa e escavações agora usados. O especialista deu a conhecer que antes era usado um método de escavação em que se retirava o material, era classificado e ficava exposto no museu, sem se saber qual era o contexto em que foi utilizado, mas agora já se integra, uma perspectiva técnica e arqueológica.

“Isto é, procura-se saber quais foram os povos que fabricaram o material lítico cerâmico, qual foi o contexto social e o emprego feito aos objectos pelas sociedades antigas”, disse. Para si, há uma mudança na maneira de se escavar e o facto de se ter feito uma equipa ango-francesa deve ser ressaltado, visto que alguns arqueólogos europeus, antes trabalhavam com pesquisadores africanos, mas no final estes eram pagos e os europeus levavam os resultados, publicavam em seu nome, esquecendo-se dos nacionais. O também especialista europeu ressaltou que essa prática não se verifica no seu grupo de trabalho, onde quadros africanos passaram a subscrever as investigações mesmo antes de terem partido para bolsas de doutoramento em França.

No caso específico das pesquisas e escavações a favor do Museu Nacional de Arqueologia de Benguela, afirmou que o grupo de trabalho está a viver algumas dificuldades, já que nem sequer possuem uma viatura para o trabalho de campo, orçamento para as escavações e muito menos equipas de trabalho previamente definidas. Enquanto isso, o governo de Benguela aprovou, recentemente, um orçamento de 207 milhões e 54 mil e 250 kwanzas que está ser aplicado, desde Fevereiro passado, na reabilitação do Museu Nacional de Arqueologia, cujas obras deverão durar 12 meses.

A instituição

O Museu Nacional de Arqueologia, localizado junto à praia Morena, na cidade de Benguela, chegou a ter um acervo, num passado recente, de nove mil e 150 peças, muitas das quais foram roubadas nos vários assaltos que sofreu ao longo dos anos. O edifício onde funciona é uma obra dos séculos XVII/XVIII, onde os escravos eram depositados temporariamente antes de serem levados para a América. Ocupa um perímetro de oito mil metros quadrados e foi construído de blocos de pedra calcária, possuindo portões e gradeamentos de ferro maciço. Depois do fim do tráfico de escravos, o edifício passou a pertencer à Alfândega de Angola, sendo posteriormente transformado Museu Nacional de Arqueologia, em 1976.

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