Quando a sede obriga a contrair outras doenças

Foi essa a leitura a que chegou, rapidamente, Longissa Kalunga, um técnico de Saúde que, na semana passada, andou pelos charcos do NGuengue, o bairro da comuna de Calumbo, em Viana, localizado nas margens do rio Lwei, afluente do Kwanza, a colher água para testes laboratoriais, ao ver o líquido, ora esverdeado ora acastanhado, o mesmo de que se servem os moradores para beber, cozinhar, lavar e lavar-se, segundo apurou O PAÍS, dias antes da referida colheita de amostra

Segundo o técnico de Saúde Longuissa Kalunga, o consumo e uso directo da péssima qualidade da água desse reservatório natural provoca, imediatamente, diarreia aguda, infecção urinária e febre tifóide, três doenças que podem condicionar a esperança de vida de uma população que se apresenta activa.

“Outras patologias de índole digestiva não ficam fora das contas, porque tudo o que ingerimos tem impacto positivo ou negativo”, explicou o enfermeiro, tendo referido que, para o caso em questão, só há prejuízo da saúde humana.

Apegando-se na infecção urinária, patologia recorrente principalmente nas senhoras com capacidade reprodutiva, detalhou que pode alterar o ambiente ultra-uterino, porque o aparelho reprodutor, face à presença das bactérias, modifica o meio em função da fermentação.

“Quando a flora altera, o oxigênio é liberado e verifica-se a concentração de dióxido de carbono, que, para o caso, constitui um autêntico veneno, pois, favorece que as bactérias protectoras do aparelho se tornem inimigos do mesmo”, detalhou o pesquisador.

Por ser uma zona ribeirinha, além da aparente má qualidade da água, o académico levantou a possibilidade de haver contaminação das águas causadas pelas indústrias instaladas à beira do rio Kwanza, ao ponto de dizer que a poluição da corrente podia resultar na produção do ciameto, uma substância química que pode provocar alteração neurológicas.

“A água para o consumo normal só deve ter dois elementos, o hidrogénio e o oxigênio. Quando já vem com outras substâncias, então não é água, mas um líquido a ser usado para caso específico”, salientou Longissa Kalunga, ao ponto de tocar nos efeitos colaterais que a simples lixívia pode provocar na saúde humana, ao se tratar de água de má qualidade.

O técnico de Saúde disse não entender por que razão as zonas ribeirinhas são as que menos têm água canalizada e potável, sobretudo em Luanda, como fez questão de referenciar, apelou às autoridades competentes para se apressarem a desenvolver um projecto de captação e tratamento, de modo a evitar-se comprometer a vida de uma geração.

“Bebemos água misturada com plantas e animais” A olho nu, parece tratar-se de uma zona única e simplesmente vegetal, por estar quase totalmente coberta de plantas aquáticas, não fosse um espaço inicial de água escura, frequentado maioritariamente por crianças e senhoras do bairro, já que é aí onde acontecem os banhos e a lavagem da roupa e de outros utensílios domésticos, sobretudo os de cozinha.

Dona Maria, que acabara de dar banho ao pequeno Minguito e, no momento estava indecisa se submetia o seu bebé à mesma sorte, disse que a população do NGuengue não tinha alternativa.

“É mesmo aqui que tomamos banho e lavamos a nossa roupa, mais a louça e as mobílias de plástico. Bebemos mesmo água misturada com plantas e animais”, desabafou a Dona Maria, como é tratada entre os vizinhos.

A moradora tem consciência de que o líquido que utilizam para todos os fins pode causar doenças, mas ironizou dizendo que “se nós também não tomarmos banho, nem bebermos água, ou lavarmos a roupa e a louça onde comemos, vamos ficar doentes”.

Tão logo acabou de dizer isso, o jovem Edgar aproximou-se e entrou no charco, avançou mais alguns metros para se distanciar consideravelmente da área onde a Dona Maria e outras senhoras do bairro, normalmente, lavam a roupa e pôs-se a captar água, no meio de uma plantação aquática,
usando um bidão amarelo de 20 litros.

Abordado, em seguida, pela equipa de reportagem deste jornal, Edgar contou que o recurso à lagoa é a única solução que resta à população do NGuengue.

Antes disso, segundo relatou, havia um sistema de captação que tirava a água do charco e a colocava no bairro, nas imediações do único centro de Saúde, de modo a estar mais próximo dos habitantes. “Mas há cerca de dois anos que este sistema deixou de funcionar.

Os homens da administração comunal de Calumbo, disseram, na altura que no motor estragouse uma peça, vieram aqui, desmontaram e levaram-na, mas, até agora, estamos assim e nunca deram nenhuma satisfação”, revelou o residente.

O jovem relembrou que a água de que se serviam anteriormente, vinda do sistema de captação a que fez referência não era de toda potável, mas pelo menos canalizada, tendo asseverado que a diferença estava no facto de já a terem no meio do bairro, o que evitava descer a elevação para a ribeirinha, já que o NGuengue se encontra localizado no cimo de uma colina.

Edgar contou ainda que a captação de água numa lagoa que é, teoricamente, considerada perigosa, sobretudo em algumas estações do ano, está entregue aos rapazes, porque, às vezes, no local há répteis ferozes, cobra, tatu e jacaré, tal como fez questão de citar.

O tanque comunitário insuficiente Elementos da coordenação do bairro, que preferiram o anonimato, informaram que, desde que André Soma tomou o lugar de administrador municipal de Viana que tem prestado uma atenção redobrada ao NGuengue, ao ponto de ter recomendado à administração comunal de Calumbo disponibilizar um camião-cisterna, a fim de minimizar a situação dos moradores.

“É claro que o carro de água não aparece todos os dias para abastecer o tanque comunitário do bairro, até porque nem este reservatório tem capacidade para a demanda, mas já nos vale de muito saber que existe um camião-cisterna que está destinado a atender à nossa vila”, disseram os membros da coordenação, desabafando que, antes disso, não havia um esforço visível e pragmático.

Segundo contaram, quando a água é depositada no tanque, a coordenação do bairro em conjunto com alguns membros do sobado envidam esforço para distribuir o precioso líquido de forma justa, mesmo sabendo que a oferta não cobrirá a demanda.

“Ainda assim, não tem havido confusão, porque as famílias sabem que, no caso de não acarretarem água para a casa, no primeiro carregamento, vão beneficiar no segundo ou no terceiro”, declararam os interlocutores de O PAÍS, tendo esclarecido que, na maior parte das vezes, só se atribui uma bacia ou balde com a capacidade entre 20 e 30 litros, de modo a garantir água para beber durante um ou dois dias.

Água do hospital para alguns

Outro recurso encontrado pela população, mas de forma restrita, têm a ver com os favores que os poucos enfermeiros destacados no centro médico do NGuengue prestam de vez em quando a alguns moradores, principalmente quando se lhes pede.

De acordo com as informações colhidas dos residentes deste subúrbio ribeirinho, a água do tanque da unidade sanitária local costuma ser dada com alguma frequência aos membros do sobado, com maior destaque para a família do soba, algo que a própria autoridade tradicional confirmou, tendo adiantado que não existe nenhuma obrigação da parte dos enfermeiros.

“Mas a minha casa está aberta para qualquer um do bairro ou visitante vir beber água em condições”, desabafou o soba do NGuengue José Anselmo.

leave a reply