Vasco Luís Curado foi à procura da Guerra Colonial como experiência interior

”Declarações de Guerra”, o novo livro do psicólogo e romancista Vasco Luís Curado, dá voz aos homens que voltaram do Ultramar e cuja experiência mostra a profunda violência da nossa história colectiva

Um soldado atirador conta que foi ferido três vezes num só combate. A terceira foi pior porque levou com estilhaços de uma granada, ficou muito ferido e chegou a ser dado como morto. Mas não morreu e a pólvora que tinha entrado no seu corpo demorou vinte e sete anos a sair. Durante quase trinta anos, este homem literalmente exsudava pólvora, tal como exsudava ideias de assassínio e suicídio numa girândola louca entre euforia e depressão. No fim pergunta-se, pergunta- nos, num misto de desespero e resignação:

“Eu quero levar a vida para a frente, mas como é que eu chego lá?”. Este soldado é um dos muitos que o escritor e psicólogo Vasco Luís Curado ouve há 10 anos, cujas “experiências interiores”, usando a expressão de Ernst Jünger, ele coligiu no livro Declarações de Guerra – histórias em carne viva da Guerra Colonial, que acaba de sair na editora Guerra&Paz. São 48 monólogos de ex-combatentes das várias frentes da Guerra Colonial, 48 feridas reabertas pela via da palavra, que saltaram do contexto clínico para um livro que se recusa a ser encerrado num género; não é certamente um manual de psicologia e não há um só momento em que a experiência destes homens seja “psicologizada”, isto é, interpretada pelos muitos lugares comuns e perversões que a entrada do discurso da psicologia no quotidiano tem promovido.

Também não é uma reportagem, apesar de lidar com factos reais. A forma deste livro é, se quisermos, o estilhaçamento. Cada uma destas histórias é um fragmento de pólvora projectado sobre nós, sobre a nossa História. Este é um livro composto de estilhaços de homens que foram mandados para a guerra quando eram pouco mais do que adolescentes, na sua maioria camponeses, quase analfabetos, pobres. Aqueles que não puderam fugir para um exílio em Paris ou na Argélia, aqueles que foram cantados por Fernando Assis Pacheco e pouco mais.

error: Content is protected !!