Research Atlantico: As contas externas de Angola em 2018

O cenário económico em Angola mantevese desafiante em 2018. A introdução de mecanismos de correção e de estímulos não evitaram que a economia contraísse 1,7%, a terceira retracção em termos consecutivos.

Os efeitos foram sentidos na generalidade dos sectores de actividade económica e no bem-estar das famílias, através da redução do poder de compra e do aumento do nível de desemprego no país. O sector externo do país não se manteve imune a estes constrangimentos. Porém, a evolução dos principais indicadores das contas externas da balança de pagamentos apresentaram um desempenho animador, mas insuficiente para reduzir os desequilíbrios externos acumulados nos últimos quatros anos. Pois, não obstante a introdução do novo regime de taxas de câmbio em Janeiro de 2018, os níveis de importação fixaram-se em 16% do PIB (+4,1 p.p. face a 2017), reflexo de uma rigidez nas preferências dos consumidores e na reduzida oferta nacional, em termos de qualidade e quantidade de produtos e serviços, para substituir os produtos importados.

Paralelamente, as exportações aumentaram 13 p.p., ao se situarem em 41,2% do PIB. Por conseguinte, as Reservas Internacionais Líquidas (RIL’s) recuaram 21,6%, para 10,6 mil milhões USD, na comparação entre 2017 e 2018. A redução verificou-se não obstante a depreciação média da moeda, em 34,4%. De referir que neste nível, o país mantém uma cobertura de importações de 4,9 meses, o menor nível desde 2009. Assim, e em função das necessidades de financiamento da economia, o Governo recorreu ao financiamento externo, Bilateral e Multilateral, de modo a assegurar poupanças externas, liquidez e divisas para assegurar a solvabilidade das contas externas, alargar o prazo de maturidade da dívida pública e financiar o processo de desenvolvimento do país.

Com efeito, o stock de dívida pública externa atingiu 46,98 mil milhões USD, que representa 47,5% do PIB, e um crescimento de 12 p.p. face ao ano de 2017. Destaca- se que neste período o país voltou a emitir dívida em mercados externos – Eurobonds – nas maturidades de 10 e 30 anos, tendo obtido 3,5 mil milhões USD. Por outro lado, o país captou Investimento Directo Estrangeiro (IDE) na ordem de 7.650 milhões USD em 2018, um aumento de 23% face ao ano anterior. O destaque recai para o aumento de 169% do IDE alocado ao sector não petrolífero, que supera o incremento de 17% do sector petrolífero, facto que poderá sugerir a maior abertura dos outros sectores ao capital externo com efeito sobre o processo de diversificação. No entanto o IDE destinado ao sector petrolífero representou 92% do total em 2018, uma redução homóloga de 4 p.p. e para o sector não petrolífero aumentou 4 p.p. para 8%.

Simultaneamente, o superavit comercial registou incremento da percentagem em relação ao PIB, de 16,5% em 2017 para 25,3% em 2018. Por outro lado, a conta corrente melhorou 8 p.p., em relação ao PIB, tendo saído de -0,5% em 2017 para 7,6% em 2018. O registo das contas contribuiu para que a balança de pagamentos apurasse uma melhoria ao fixar-se em -0,5% do PIB em 2018, comparativamente à contribuição de -4% do PIB verificada no ano anterior. Porém, as contas externas ainda se mantêm a um nível desafiante para a estabilidade macroeconómica do país, em consequência de constrangimentos internos, que sustentam a introdução de medidas estruturais de correcção, que vão desde a mudança na preferência dos consumidores à alteração do modelo de distribuição de renda e riqueza no país, uma vez que os mesmos continuam a pressionar o espaço de actuação das políticas conjunturais em curso.