António Ole: “O artista tem de ter alguma coisa para dizer, se não, que procure uma outra profissão”

Quem o diz é António Ole um dos mais cotados artistas da arena nacional. A celebrar as “bodas de ouro”, mostra na Galeria do Banco Económico, em Luanda, “50 Anos – Passado, Presente e Futuro”, que espelha os meandros do seu percurso. Em entrevista a OPAÍS, aborda a sua trajectória e como consegue manter-se criar

“50 Anos- Passado, Presente e Futuro” é o tema da exposição que assinala as bodas de ouro do artista António Ole, que balanço faz deste percurso?

É como em tudo. É um percurso em que assinalo altos e baixos, mas, realmente, fica o registo de uma etapa temporal tão elevada, com tantas experiências ao mesmo tempo. E essa exposição é resultado deste trabalho árduo, que trago para partilhar com as pessoas que me acompanharam ao longo destes anos e, no fundo, aqui estou, para essa comemoração. Além disto, no fim desta mesma exposição será lançado um livro justamente que aborda os 50 anos do meu trabalho.

Pode dar-nos mais detalhes sobre o livro?

Bem, o livro vai espelhar a minha obra desde o início da carreira. Trará o historial das várias etapas deste percurso. Como sabe, a minha actividade, além da pintura, também passa pela fotografia e o cinema, em que fiz cerca de 12 filmes. E o livro dá uma perspectiva daquilo que foi realizado e isso agrada-me, na medida em que estou em permanente mudança e pesquisa do meu trabalho.

Traz para essa comemoração um título em que apresenta o “Passado, Presente e o Futuro”. Como resumiria esse trajecto?

Sem dúvidas são etapas que os artistas vivem, as pessoas de um modo geral. No fundo, acaba por ser fundamental mostrar todo esse espólio, com toda essa diversidade de trabalhos, numa grande exposição. Essa ainda não é a grande exposição, mas julgo que foi a exposição possível, pois muitas das minhas obras já estão em colecções internacionais e fica difícil manda-las vir para fazer uma retrospectiva. De qualquer forma, tenho dividido esse trabalho nessas etapas em vários pontos do mundo. Desde exposições antológicas, que vão marcando todo esse trabalho.

só e ainda assim manteve-se, prova disso é estar a assinalar 50 anos de carreira. Como conseguiu esse feito e como foi possível ultrapassar as barreiras?

Olha, essencialmente, os artistas têm de ter coisas para dizer e para se expressar. Se não tem, pode tentar outra profissão, jornalista, escritor ou médico, entre outras. Eu, por acaso, desde pequeno que tenho a linha traçada de que queria ser artista. Em certa altura a arquitectura ainda interessou-me, mas isso ainda naquele período antes do 25 de Abril e da Independência de Angola. E em certa altura acabei por me desviar um pouco por um trabalho na televisão, depois no laboratório de Cinema e no Instituto Angolano de Cinema e Audiovisual. Quando achava que seria necessário ter um conhecimento mais profundo fui estudar nos Estados Unidos da América (EUA), cinema. Quando regressei já o nosso cinema estava em declínio. Então, por essa altura, decidi que queria ser um artista freelancer, e ser eu mesmo a orientar o meu próprio destino. E isso tem acontecido até hoje. De vez em quando partilho esses momentos com uma exposição, em que as pessoas veem, e isso de facto é que me tem ocupado todos esses anos.

Foi para os EUA estudar cinema e quando regressou esse segmento estava em declínio, como disse. O que terá acontecido?A instituição em que esteve não suportou o conhecimento que trouxe consigo?

Quando regressei aos locais em que trabalhava constatei que aquilo que era ideia sobre o cinema angolano acabou por cair em declínio. E, com isso, não podia passar o resto da vida apenas nas cadeiras do Instituto, enfim. Sou uma pessoa que gosta de estar ocupada constantemente e, realmente, acabei por decidir ser eu mesmo a decidir o que quero da minha vida, sem que tenha patrão nem horários. Os artistas não têm horas, elas variam em função das direcções.

As artes plásticas continuam a ser um produto caro?

O grande problema é que não temos os materiais à nossa disposição. Eles existem, há lojas especializadas onde a gente pode adquirir as telas, as tintas, enfim. Mas, infelizmente, ainda não temos aqui uma loja que forneça aos artistas. Há quem trabalhe com tinta industrial, pessoalmente nada contra, mas prefiro os materiais das belas artes tal e qual, porque esses materiais, no fundo, são mais apropriados para um trabalho de belas artes.

Como resultado dessa exiguidade de materiais, as obras não estão ao alcance de qualquer “um”?

Sim. Naturalmente as obras têm o seu preço/valor, cada uma com a sua própria cotação. Tenho estado em vários leilões internacionais e aí é que é bom para avaliar a nossa cotação e o nosso preço. E é isso que me tem feito correr, de certa forma.

Quanto ao nosso mercado, tem correspondido às expectativas dos artistas?

Para o nosso mercado era preciso haver mais galerias de arte de maior interesse. Julgo que o nosso ambiente artístico tem crescido naturalmente. Houve uma época mais probrezinha, mas nos últimos anos não só os artistas mais cotados, mas a nova geração tem estado a movimentar-se em espaços internacionais, e isso tem sido bastante benéfico e positivo no panorama das artes. Oxalá houvesse mais investimento do nosso próprio ministério, que nem sempre reage bem às nossas propostas ou àquilo que é o nosso interesse no sentido de um maior apoio da tutela, mas há muita coisa por fazer. Aperfeiçoar o ensino das artes entre nós e que dê possibilidade a uma formação mais apurada, mais desenvolvida, é isso que estamos à espera que aconteça.

Referiu-se ao quesito formativo, como é que olha e avalia os artistas do mercado nacional do ponto de vista profissional?

Como disse, as coisas estão-se a movimentar. Há uma quantidade enorme de novos valores que têm vindo a engrandecer o panorama artístico nacional. Estou convencido que muito mais há a esperar dessa nova geração. Já não sou um artista novo, mas continuo a acreditar que ainda tenho muita coisa para dar, inclusive noutras áreas, como é o cinema, desenvolvendo ideias para novos filmes que possam vir a acontecer em breve.

O ensino das artes no país já é uma realidade, temos algumas escolas que formam estes profissionais. A minha questão vai em contra-mão, no sentido de saber relativamente ao cidadão comum. Aprende-se a gostar de arte?

Estou convencido que isto começa na escola. Se as pessoas não tiverem desde pequenas a possibilidade de ter relação com arte, inclusive a própria formação artística que começa na base, que ao desenhar no papel transmitem os seus sonhos, as suas ideias, inquietações etc., e quando não se tem isso é complicado. Mas as artes plásticas são um exercício de grande liberdade. Os artistas contemporâneos neste tempo em que vivemos têm uma liberdade expressiva com meios técnicos à sua disposição, são muitos, alguns dos quais já trabalham com computadores, mas eu continuo com a ideia da tinta, pincel, tela, desenho, sou um reciclador.

Como tem sido a coabitação entre a velha e a nova geração de artistas no país?

É pacífica. Acho que as novas gerações têm de apreender com os mais velhos, assim o foi comigo quando comecei com apenas 16 anos. Ia há muitas exposições, havia os salões das festas da cidade em Luanda, salões esses que depois passaram a chamar-se salões da arte moderna, e fiz toda a minha prática nesses salões. Aos poucos, fui viajando para o exterior, mas quando foi a Independência fiz uma paragem para reflectir sobre o que estava a fazer e porque estava também ligado ao cinema. A pintura continua a ser uma actividade muito ligada a minha vida e de certa forma e em certa época fiz uma serie de ilustrações para capas de livros dos quais perdi a conta. No fundo, estamos sempre em permanente descoberta, os artistas estão sempre a pôr-se à prova. Para se ser artista também se precisa de se estudar. Não basta o talento, tem de trabalhar, ler muito, pois aprende-se muito lendo e estudando.

O António Ole divide-se entre as artes plásticas, a fotografia e o cinema. O que lhe dá mais gozo de fazer e como consegue conciliar essas actividades?

Depende de como me sinta, de que ideias estive a trabalhar anteriormente e isto determina qual é o meio expressivo que vou usar. Quando viajo farto-me de fotografar muito, filmo também, mas quando regresso ao atelier estou logo a pintar, porque a pintura é uma actividade quase que diária, pois preciso de vender uma obra para viver. O meu salário é minha arte.

Quais são os projectos que tem em curso a curto/médio e longo prazo?

Tenho projectos que estão na forja mas que exigem viajar para sensibilizar instituições internacionais, que é um projecto sobre ilhas em volta de África, que se denomina “Insula”. Nela pretendo viajar para nove ilhas, umas no atlântico (Cabo-verde, Gorée-Senegal, São Tomé e Príncipe, Mussulo, Ilha do Cabo, Robben Island pelo simbolismo de Mandela, Ilha de Moçambique, Zanzibar- Tânzania, Lamu- Quénia e mais a Norte do Indico). Essas ilhas vão-me proporcionar fazer um trabalho sobre as próprias culturas crioulas. O que interessa são os sincretismos destas culturas. Há aí cada uma com a sua história numa total diversidade…

 

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