Boa-Fé: ‘Avô-veio’ adaptados fazem a vez do táxi

Boa-Fé: ‘Avô-veio’ adaptados fazem a vez do táxi

Nos seus mais de 10 anos de vivência neste bairro de Viana, as motorizadas têm sido o único meio de transporte de Esperança Miguel e seus vizinhos. Aqui, os vulgos azuis e brancos não chegam em função do mau estado das vias de acesso e a delinquência que se regista no interior do bairro. Há cerca de três anos que as motorizadas de três rodas, também conhecidas por ‘avô-veio’, têm garantido o transporte de pessoas e bens nesta localidade, com preços que vão dos 100 a 300 Kz.

A maioria dos avôs-veio do bairro Boa-Fé foram adaptados com dois bancos na carroçaria de modo a dar algum conforto, e serve para levar, em cada viagem, seis a oito passageiros. “Sem este transporte teríamos muitas dificuldades de entrar e sair do bairro porque nós aqui nunca tivemos carros a fazerem serviço de táxi”, explicou Esperança Miguel. A carência de transporte para os cidadãos da Boa-Fé torna-se mais difícil na época chuvosa, pois, a situação do acesso faz com que muitas motorizadas parem também de circular, contribuindo, desta forma, para a subida dos preços.

Isabel Ferreira é uma moradora que vezes sem conta já passou por esta situação, principalmente nas primeiras horas e no fim do dia. Oportunidade de negócio Se para os moradores a falta de táxi é um problema, para os mo-to-taxistas é uma grande oportunidade de negócio, pois, é desta actividade que muitos jovens e senhores conseguem sustentar as suas famílias. À reportagem de OPAÍS chamou a atenção a presença do jovem Manuel, que pelo tempo e seu engajamento ficou conhecido na área como o soba dos motoqueiros. O Soba explicou que a ideia de exercer o trabalho de moto-táxi surgiu devido à carência de táxis normais na zona e a falta de emprego por parte da juventude.

“Quando começei a trabalhar, há mais de sete anos, cobrava por cada pessoa o valor de 30 kz, mas na medida em que o tempo foi passando, em função da subida do preço do combustível, fui ajustando os preços até aos actuais 100, 200 ou 300 kz, em função do destino do cliente”, disse. Por norma, começa a trabalhar a partir das cinco ou seis horas da manhã, apesar alguns dos seus colegas que começarem mais cedo (4h) e terminam mais tarde (22h). Até ao final do dia de trabalho tem no bolso cerca de cinco ou seis mil Kwanzas. Por forçado trabalho que exerce, sentiu a necessidade de modificar o seu meio, colocando cadeiras para dar conforto aos clientes.

É uma tentativa que às vezes é frustrada pelos buracos na via, mas para quem não tem táxi, serve. “Para montar os cadeirões temos de desembolsar 10 a 15 mil Kwanzas, quanto a sombra, 11 mil Kwanzas. É uma alteração que ajuda os clientes, mas também tem-nos trazido muitos problemas com a Polícia”, lamentou. O Soba dos Motoqueiros e os seus colegas fazem parte da Amotrang, pelo facto, devem contribuir diariamente com uma quota de 100 kz, que tem ajudado principalmente em situações de litígios, já que a associação tem alguém que intervém. O estofador Fernando José conta que anteriormente o seu serviço era muito procurado pelos motoqueiros com a finalidade de confeccionar os bancos para as motorizadas. Cobrava 10 mil Kz, e por semana fazia duas encomendas, mas actualmente o jogo de dois bancos custa 15 mil Kz e normalmente faz uma encomenda em uma semana. Mas o que o preocupa mesmo é a onda de delinquência que registam diariamente, sobretudo no período diurno, “os marginais atacam tanto os passageiros quanto os motoqueiros”.

Polícia já não pede documento

Augusto Correia faz serviço de táxi com motas de três rodas há nove anos, também é membro Amotrang. Sobre as dificuldades, disse ser a Polícia, que “interpela constantemente e já não solicita a documentação, apenas pedem valores monetários”. Entretanto, o motoqueiro Sebastião Bartolomeu diz que o trabalho que realiza tem sido difícil em vários aspectos. Em primeiro lugar, o estado da via que é crítico; o processo para legalização da mota também tem sido outro transtorno, e, por isso, muitos dos seus colegas trabalham apenas com a factura de compra e venda. Outra situação que não compreende é o facto de serem obrigados a pagar diariamente 100 kz a representante da Amotrang no bairro.

Amotrang quer o serviço de moto-táxi regulamentado

a associação de Motoqueiros Transportadores de angola (amotrang), para além da preocupação em dar formação aos associados sobre o Código da estrada e regras de trânsito, está a “lutar” para a aprovação da lei que regula esta actividade de modo a tornar o trabalho com menos constrangimentos, actualmente a amotrang “luta” pela lei desta actividade. Bento Rafael raimundo aconselhou ainda os moto-taxistas para que se dirijam a direcção de viação e Trânsito e ao Ministério dos Transportes para que legalizem o veículo e a sua actividade. enquanto associação, podem ajudar os seus associados a solicitarem as modificações que pretendem fazer ao meio de transporte.

Sobre as actividades realizadas na associação, numa primeira fase estão preocupados com a formação sobre o Código da estrada e regras de trânsito, um objectivo ainda não alcançado devido ao número de pessoas que exercem esta actividade que não estão associadas na amotrang. Como dificuldade na sua associação, Bento Rafael apontou a falta de acompanhamento por parte do governo. necessitam de salas para ministrar as formações, por exemplo. ao nível do município de viana, a amotrang conta com mais de seis mil associados e todos os dias “nascem” novos motostaxistas, por causa do desemprego que tem vindo a aumentar no nosso país.

Para além disso, reconheceu que há zonas de difícil acesso em que a circulação só é possível com motorizadas. quanto ao valor de 100 kwanzas que os motoqueiros são obrigados a pagar diariamente, Bento rafael, presidente desta associação, explicou que foi estabelecido que os associados devem pagar mensalmente cinco mil kwanzas ou 100 kz/dia para sobrevivência da organização. “este valor serve para o cumprimento das nossas obrigações tributárias no município e para atender a situações pontuais dos seus associados”. no que toca a falta de informação sobre os destinos dos dinheiros dos motoqueiros, diz ser da responsabilidade dos fiscais, inspectores e instrutores da amotrang que respondem pela área, que, para além de terem divulgado a informação nos meios de comunicação, eles também têm a responsabilidade de dialogar com as associados da zona. Bento Rafael, não queria terminar a conversa sem antes apelar aos motoqueiros a usarem sempre o capacete e a cumprirem as regras de trânsito.