Falta de iluminação ‘arrasta’ assaltos ao bairro Belo Horizonte

Crimes violentos, roubo a cantinas e creches, assaltos à mão armada e até mesmo violações sexuais são registados com alguma frequência no bairro Belo Horizonte, Sector 6, distrito urbano do Kikuxi, município de Viana, devido à escuridão que consome a zona e à falta de policiamento

O bairro Belo Horizonte, em Viana, deixou de ter sossego. A criminalidade tem tirado o sono de quem escolheu este lugar para viver. Os crimes atingiram níveis alarmantes por falta de energia eléctrica, segundo os moradores, e a ausência de, pelo menos, uma esquadra policial móvel.

Os gritos de socorro dos moradores daquele bairro, que tinha um ambiente pacífico durante muitos anos, fez com que levaram OPAÍS a esta reportagem. Há muito que não se ouviam tiros, relatos de roubos, furtos e violações, mas hoje o medo toma conta da vida daqueles cidadãos, quando entram e saem do bairro à noite.

Ana Miguel, moradora há cinco anos, conta que o bairro já teve energia eléctrica de um Posto de Transformação (PT) privado, mas há três meses o equipamento avariou e o proprietário não quer o arranjar.

“Mesmo com o PT, era impossível todos termos energia em casa, porque o contrato era de 200 mil Kz (monofásica) e 250 mil Kz (trifásica). Entretanto, o mínimo de iluminação que tínhamos no bairro inibia um pouco as acções dos marginais, pois fazíamos das tripas coração para garantir que a rua ficasse iluminada”, disse.

Contam os moradores que, em 2017, antes mesmo das eleições, começaram a ser montados novos PT do Estado, a fim de solucionar o problema da energia. Já em Novembro de 2018, colocaram postes de energia e ligaram os cabos as residências, para além de colocarem as caixas para os contadores, tendo ficado a promessa de que, até ao final de Fevereiro do presente ano todos teriam energia da rede.

Os moradores inclusive presenciaram uma inauguração que dava início às ligações domiciliares no bairro Belo Horizonte, Sector 1. Ligaram no bairro da Cinquentinha e Bita, mas no Belo Horizonte Sector 6, esqueceram-se.

A interlocutora lembra-se que no dia em que houve um apagão geral na província de Luanda, Malanje e Cuanza-Norte, o representante da Energia e Águas do município de Viana disse aos moradores que se mantivessem calmos, pois iriam ligar a energia naquela zona, mas desde aquela data não se falou (nem se viu) mais nada.

Nesse momento, o que inquieta a população é o facto de o dono do PT privado estar a obrigar-los a pagar 18 mil Kz/cada para a compra de um novo, porque o antigo ficou com uma das turbinas queimada. É um absurdo, para os moradores, porque o proprietário tem a obrigação de consertar, uma vez que pagam uma mensalidade de seis mil Kz, que deve servir também para acudir neste tipo de situação.

‘Explora-nos porque a situação do país permite’

Ana Miguel disse que só estão a ser explorados porque a situação do país dá essa oportunidade aos poderosos. “Neste momento nós somos os menos favorecidos, porque sabemos que a solução está próxima e ninguém faz absolutamente nada”, realçou.

Desde que montaram os postes de energia eléctrica e esticaram os cabos para as suas residências, este material começou a ser vandalizado. Os moradores tiveram que colocar tambores com brita para que os marginais não derrubem os postes os roubem os cabos. Por causa desta situação toda, o bairro ficou violento.

A falta de energia arrastou para a zona uma onda de assaltos aos moradores e às residências com recurso à arma de fogo. Eles temem pelo pior. Apesar de não terem registos de mortes, várias pessoas foram gravemente feridas com disparos de arma de fogo; as cantinas estão a fechar e alguns moradores estão a abandonar o bairro, por falta de segurança. Ana Miguel é professora e trabalha no Bom Jesus, larga às 15 horas e até chegar à casa são 17 ou 18 horas.

Os motoqueiros que ali trabalham já não aceitam entrar no bairro naquele período, por causa dos assaltos que sofrem na escuridão do bairro. O Sector 6 do bairro Belo Horizonte é rodeado de quintas e terrenos baldios. Segundo os moradores, o policiamento não é frequente e os próprios gatunos já fizeram o ‘estudo de viabilidade’ das zonas de maior vulnerabilidade.

“Daqui a pouco vamos também adquirir armas e vai ser uma guerra. Não sei se é isso que o nosso Governo quer, porque é isso que está a passar na nossa cabeça”, disse um morador que preferiu não ser identifico, com medo de alguma retaliação. Os moradores ouvidos pelo OPAÍS garantiram que a Administração tem conhecimento que as cabines já estão em prontas e que só falta ligar a energia, mas nada faz.

Por essa razão, acham que há pessoas envolvidas neste processo que querem ganhar dinheiro a custa dos outros, uma vez que o sistema de PT privado é um negócio muito lucrativo.

leave a reply