Carta do leitor: Exclusão social, até quando?

Saudações ao director e a restante equipa que trabalha para produzir este jornal. Antes que comece a dissertar, gostaria de agradecer pelo facto de me ser cedido este espaço para desabafar. Eu sou o Armando Paulo, estou com 22, frequento o curso superior de Engenharia Informática. Por uma questão tradicional, sou rasta. Infelizmente, em partes, já tenho uma filha. Mas não culpo ninguém por isso. Vivo com os meus pais, meus três irmãos e a minha esposa e filha.

Estou desempregado, o que, às vezes, deixa-me cabisbaixo, vendo o meu pai sobrecarregado com as contas de casa. Como filho mais velho, dói-me ver esta “novela”, sabendo que poderia ajudar arranjando um emprego. Isso mesmo: PODERIA.

Acontece que há dias fui candidatar-me, por sugestão de um amigo, a vaga de técnico informático numa empresa, cujo nome vou ocultar por uma questão de preservação de imagem. Posto lá, com os documentos necessários, apresentei-me a secretaria. Pediram-me que aguardasse pelo senhor encarregue de receber os candidatos. Sem pressa alguma, aguardei. Passou-se uma hora e meia, lá apareceu o senhor.

Olhou para mim, estendeu-me a sua mão e conversámos um pouco. Disse-lhe quem sou. Em seguida, entreguei-lhe o meu documento, mas ele devolveu-mo. Porque, segundo ele, as candidaturas tinham terminado e, inclusive, os concorrentes já tinham sido testados. Tristemente, despedi-me dele e fui para casa. Passaram-se três semanas e recebo uma ligação do amigo que me solicitou a concorrer às vagas.

O meu amigo ligava- me para avisar que os testes seriam feitos dentro de 3 dias. Fiquei, estupefacto, duvidando dele, uma vez que um dos responsáveis da referida empresa afirmou a mim que os testes já tinham sido feitos. Para dissipar quaisquer dúvidas, no dia previsto para os testes, desloquei-me até a empresa. Vi uma enchente. Parecia mesmo acontecer algo, pela agitação. Para confirmar a minha hipótese, abordei um jovem que me disse ser o dia do teste. “Então mentiram-me”, pensei.

De longe, vi o senhor que me passou a informação. Fui lá ter com ele. Questionei-lhe sobre o que lhe motivou a fazer o que fez comigo. Respondeu- me da seguinte maneira: com esse cabelo pensas que vais entrar onde? Nesta empresa é que não… Fiquei muito triste. Eles importam- se mais com o cabelo do que com o cérebro. É mesmo triste saber que a minha cultura, a rasta, ainda é rejeitada. Eu posso não estar de acordo com determinada cultura, mas tenho de a aceitar, pois são a identidade de um povo. Armando Paulo

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