Gente feliz em terra triste

Os angolanos insistem em serem felizes, ainda que numa felicidade de enganos, fi ngida, com largas gargalhadas e com sincero humor, salpicados com pitadas de anedotas e piadas que mascaram a dor da alma, iludem a profundidade de um horizonte curto e turvam a mente que esquece a fome.

Sim, somos um povo alegre, cheio de esperanças, e que ou não vê, ou inventa forças para viver e sobreviver (os que conseguem) em situações como as deste momento, num país vestido de ironia insultuosa que, disputando o lugar de primeiro produtor de petróleo do continente, tem as cidades às escuras, a escassa indústria e serviços a parar por falta de combustível para os grupos geradores de energia. Este mesmo país que verte água dos solos em todo o lado, que tem rios com caudal considerável e invejável, que tem luz solar a maior parte do tempo, que tem montes e ventos, uma costa com mais de mil quilómetros e outras alternativas. Somos uma autêntica bateria que não produz energia. E somos felizes, ou julgamos ser.

Ouvimos discursos feitos para a ocasião, virados para o hoje a para o passado, o futuro é para esquecer, as promessas são imediatistas, irrealizáveis, até porque o capital humano, o que seria capital, é gente que ri numa terra triste, sem ideias, sem conhecimento, sem treino, sem capacidade crítica.

E, então, viramo-nos para o estrangeiro, de onde vem tudo, de burlões a produtos contrafeitos, e o povo ri-se, numa terra triste que vê milhares de crianças a morrer prematuramente, escolas longe da sua função, estradas mais longas feitas a pé, mesas vazias, olhares perdidos lá longe, onde vai o nosso petróleo, porque aqui, apenas o riso e a certeza do escuro nas cidades, nas aldeias, nas almas com pouco futuro

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