O drama da crise energética na base logística do Sul do país

Falta de energia eléctrica, derivada da crise de combustíveis que se vive um pouco pelo país, está a pôr em causa a funcionalidade de vários sectores da vida governativa de Benguela. SONANGOL, entretanto, garante ter já navios no Porto Comercial do Lobito

POR: Constantino Eduardo, em Benguela

Várias instituições em Benguela, entre públicas e privadas, viram os seus principais serviços paralisados devido à falta de derivados de petróleo como a gasolina e o gasóleo, fundamentalmente. Determinados responsáveis não estão convencidos com a nota de esclarecimento da Casa Civil do Presidente da República, que aponta como causa do problema a falta de comunicação entre instituições afins. Em condições normais, disse certo responsável de um gabinete provincial, os ministros que intervêm directamente no processo deviam ser exonerados das suas funções, “pelo facto de as suas falhas terem causado vários constrangimentos na vida do cidadão.

Já imaginou, com estas interrupções, como é que os hospitais estão?”, questiona. O PAÍS não conseguiu obter da direcção do hospital Geral um pronunciamento sobre os constrangimentos por que estejam, eventualmente, a passar, fruto desta crise que se instalou, mas, segundo soube, aquela instituição sanitária, à semelhança das outras, não foi poupada, directa ou indrectamente sente os efeitos da crise. No hospital municipal, a crise energética está a causar constrangimentos na unidade, cuja área de hemodiálise se debate com a falta do precioso líquido. Na manhã de Quarta-feira, 8, altura em que o governador de Benguela, Rui Falcão, visitava a unidade, o centro foi abastecido com um camião cisterna (ver pág. 2).

Entretanto, dada a incapacidade para fazer face à necessidade, o director regional da ENDE, António Assis, em conferência de imprensa, revelara que os hospitais engrossam o leque de instituições consideradas prioritárias no que respeita ao fornecimento de energia eléctrica. Justificando as razões dos apagões, embora à partida já se soubesse, António Assis adiantava que a sua empresa estava de braços cruzados, uma vez que a PRODEL, empresa responsável pela produção de energia eléctrica, não punha à disposição as capacidades de que se precisam para atender sobretudo os municípios do litoral da província de Benguela, base logística para a região Centro-Sul.

Fábrica de Fertilizantes suspensa

Entretanto, numa nota assinada pelo governador provincial, Rui Falcão, sobre um, outro assunto em destaque na província, lê-se que “a partir desta data são suspensas todas as actividades relacionadas com a implantação, montagem de equipamentos e obras de construção civil do referido projecto, cujo desfecho final deverá observar, com rigor, a legislação ambiental, o plano director municipal e regulamentos para a actividade industrial”. OPAÍS soube de fonte segura estar prevista uma manifestação em Benguela com ecologistas idos de outras partes de Angola e que uma providencia cautelar foi interposta por um grupo de cidadãos no tribunal provincial.

RNA afectada

A emissora provincial de Benguela, do grupo RNA, foi uma das muitas instituições em Benguela afectadas pela crise de energia eléctrica. Às 13 horas de Terça-feira, 7, os ouvintes que esperavam pelo noticiário foram surpreendidos pela inoperância da emissora radiofónica. “É a primeira vez que tal ocorre”, desabafa o cidadão o José Livo, insatisfeito. Segundo apurou este jornal de fontes da Rádio Benguela, a baixa de sinal se deveu a uma avaria verificada na fonte alternativa, o gerador, uma vez que a província se debate com a falta de energia da rede pública, mas garante estar já ultrapassado o problema. A RNA não é a única.

A Secil Lobito, empresa de produção de cimento, ameaça baixar a sua produção na ordem dos 50 por cento, segundo Augusto Manuel Miragaia, administrador delegado, em entrevista à Rádio Lobito. A unidade fabril, que precisa de 400 litros de combustível por hora, debate-se com muitos problemas decorrentes da crise vigente e há quase uma semana que não recebe combustível, estando a registar ruptura no stock. A falta de energia está a privar os cidadãos do fornecimento de água nas cidades do litoral. A empresa de Águas justifica que regista, neste momento, uma avaria no transformador da fonte alternativa. Por isso, enquanto não se ultrapassar o problema, ver-se-á completamente dependente da disponibilidade de energia por parte da ENDE.

Uma fonte do Governo Provincial garantiu a O PAÍS que a PRODEL já recebeu combustíveis para fazer funcionar os sistemas, embora não fossem as quantidades necessárias para fazer face à demanda, agravada com o facto de não haver stocks, acreditando, contudo, que o quadro se vá inverter ainda no próximo fim-de-semana. Numa ronda feita pela nossa reportagem em bombas de combustível nas artérias da cidade, constatamos que algumas já têm combustíveis, registando filas intermináveis de viaturas, e outros postos continuam à espera da boa vontade da Sonangol. Na altura em que expelimos esta peça, a energia eléctrica acaba de ser reestabelecida em alguns bairros.