12 mil crianças nascem anualmente com anemia falciforme

12 mil crianças nascem anualmente com anemia falciforme

Dor, sofrimento e diminuição da expectativa de vida são sentimentos com que milhares de familias angolanas são obrigadas a lidar quando recebem um novo membro com células de anemia falciforme. Estima-se que 12 mil crianças nascem anualmente com essa doença, revelou, em exclusivo a OPAÍS, o médico pediátrico Luís Bernardino. Um em cada cinco angolanos tem os traços dessa doença (são portadores assintomáticos: AS) e um em cada 66 bebés que nascem em Angola têm anemia falciforme (doente: SS). Uma “doença genética de difícil cura”.

O hospital pediátrico David Bernardino recebe diariamente mais de 30 casos no banco de urgências, além dos pacientes que são seguidos pelo corpo clínico. Os doentes que se encontram nesse grupo são controlados por via de um cartão.

Caso estejam com alguma enfermidade que nada tenha a ver com a anemia falciforme, também têm o dever de se deslocar a essa unidade sanitária às Sextas-feiras. Por regra, as consultas de seguimento são realizadas semestralmente.

À enfermaria do hospital chegam todos os dias cerca de 40 doentes para fazerem o controlo da hemoglobina, com o intuito de terem maior controlo sobre a doença. Mas nem tudo tem sido fácil. Luís Bernardino contou que perdem muitos pacientes por causa da distância que separa as suas residências do hospital.

Por essa razão, almeja a descentralizar os serviços para se proporcionar melhor assistência aos pacientes. “Queremos criar centros iguais a estes em todos os bairros de Luanda e nas outras províncias”, contou.

O pediatra apontou a realização do “teste do pezinho” nas maternidades como um dos métodos mais eficazes de rasteio da doença, o que tem possibilitado que muitas pessoas sejam diagnosticadas com a doença logo nos primeiros dias de vida. Este exame é obrigatório para todos os recém-nascidos e deve ser realizado após as primeiras 48 horas de vida.

O exame consiste em obter e analisar uma amostra de sangue do recém-nascido, a fim de detectar doenças metabólicas, infecciosas, congênitas e/ou genéticas. Por ser considerado como o ideal, almeja-se que o mesmo seja realizado em todas as unidades hospitalares.

Luís Bernardino explicou ququando uma criança chega à Pediatria com a hemoglobina muita baixa e sem ser malária é suspeita de ter células falciformes. Situação que tem sido recorrente no banco de urgências do hospital pediátrico. “Temos muitos casos de anemias falciformes, mas, como não é muito frequente passam despercebidos”, frisou.

Desconhecimento contribui no aumento de casos

A falta de conhecimento de muitos pais sobre o que é a anemia falciforme coloca-a quase como um estranho e, por isso, continuam a nascer muitas crianças SS. Para Luís Bernardino, é importante os jornais chamarem a atenção para a doença, porque a mesma passa despercebida. Anemia falciforme é um problema de saúde grave que afecta muitos angolanos, mas é pouco conhecido pela população. Dai o facto de os médicos considerarem como sendo de suma importância todos os angolanos conhecerem o seu “estado falciforme” para reduzir o número de bebés que nascem com esta doença. De realçar que os portadores da anemia falciforme (AS) não têm qualquer problema de saúde. Levam uma vida normal e nunca saberão do seu “estado falciforme” se não forem testados. O mesmo não acontece com o portador de SS. Ao tomar conhecimento sobre o tipo de hemoglobina que a pessoa tem (AA, AS, ou SS) em melhores condições se fica de escolher o grupo sanguíneo do futuro marido/mulher. Deste modo, reduzir-se-á a possibilidade de o casal vir a ter bebés portadores de células falciforme.

Já há cura, mas é complicada Segundo o pediatra, actualmente já há uma cura para doença, mas tecnicamente ainda é complicada. Os métodos para a cura não se aplicam em todo mundo, nem estão generalizados. “Nem sequer podemos dizer que na América curam”, frisou.

Acrescentou de seguida “eles estão apenas a tratar alguns doentes porque a cura é complicada. Portanto, antes da cura, se o sistema de saúde melhorar e se proporcionar uma assistência desde a nascença, desde as despistagens neonatais poderse-á reduzir as mortes”. Luís Bernadino disse que há um programa de despistagem neonatal que está a começar a funcionar nas maternidades do país.

As maternidades têm registo de quem são os doentes, mas até agora os doentes que lhes procuram para as consultas, na maior parte, são diagnosticados depois de se manifestar a doença, ou seja, já têm essa enfermidade. Explicou ainda que se os doentes começarem a fazer o tratamento no início e se se conseguir uma rede de assistência que reaja prontamente a todas as situações, os pacientes poderão chegar aos 40 ou mais anos de vida.

Algo que acontece actualmente nos países mais desenvolvidos que têm essa doença. Citou como exemplos a Jamaica, Estados Unidos, Inglaterra, em que 80% das crianças que nascem com essa doença chegam à idade adulta e vivem até aos 40/50 anos.

Coisa que não acontece em Angola, sendo que em África admite-se que grande parte das crianças não chegam à idade adulta. Portanto, essa é apenas uma pequena contribuição numa longa marcha que temos de fazer até chegarmos nessa fase, disse o médico.