Seca no Cunene: Quando a água é pouca, primeiro bebem os animais

Não é preciso andar muitos quilómetros a partir da cidade de Ondjiva para encontrar pessoas que vivem com as consequências da seca.

A comuna de Okambanda é uma destas zonas rurais distanciadas alguns quilómetros da cidade e que tem famílias a sofrerem com a falta de água. Na referida comuna vive Luciano Francisco, 61 anos, um antigo militar das FAPLA, que foi reformado em 1989, por ter perdido um dos olhos em combate.

Encontramo-lo deitado, à sombra no quintal, mal conseguia ficar em pé. Ao lado uma garrafa com um líquido, que nos parecia ser um sumo, talvez por isso perguntamos se era o mata-bicho, mas rapidamente respondeu que era a sua “água de beber”.

Esforçou-se e ficou sentado, só assim foi possível ver a sua estatura física: muito magro, com o esqueleto a marcar na pele.

Não era preciso ser especialista em saúde para ver que aquele homem precisava, com urgência, de cuidados médicos redobrados, mas ele e o filho, José, de 22 anos, disseram que já tinham melhorado, “porque já estiveram piores”. Justifi caram a melhora exibindo uma receita médica que lhe foi prescrita, em Abril, com uma medicação que lhes custou 13 mil kwanzas, dos 23 mil que recebe mensalmente de pensão. Luciano Francisco tem 28 cabeças de gado, mas teve de abrir mão e entregá-las a alguém para a transumância, por causa da seca.

Com um agregado familiar composto com mulher e 8 fi lhos, vive actualmente do cultivo de massango, cuja lavra é cuidada pela fi lha, sendo que a sua esposa está internada há meses. Os outros fi lhos de Francisco trabalham na cidade de Ondjiva.

A ajuda é urgente

À semelhança de Francisco, 176 mil famílias estão afectadas pela seca e precisam de ajuda urgente para contrapor esta situação que perdura há já algum tempo. Aliás, Nangula Felismina Ndapunikwa, 19 anos, na companhia da irmã, Felicidade Ndapunikwa, de 10 anos, é, também, uma das muitas que precisam desta ajuda. Encontramo-las a tirar água dum pequeno charco lamacento, denominado “Omuheke”.

Era a primeira de quatro viagens que pretendiam efectuar com baldes de, aproximadamente, 20 litros à cabeça. “A primeira água é para dar aos animais e só depois vamos reservar para beber, comer e lavar a roupa”, explicou. Questionamos a razão de priorizar os animais, respondeu-nos que tem sido sempre assim quando há seca.

À nossa reportagem disseram que só podem beber da água, que é visivelmente salobra, depois de saírem do recinto, ou seja do “Omuheke”, em cujo lago também é proibido tomar banho. Os charcos maiores são denominados de “Chimpacas” ali também é permitido que a pessoa entre no meio do charco e acarrete água, mas é expressamente proibido beber directamente ou tomar banho. Os animais também entram neste último lago e bebem da mesma água que as pessoas.

Cenário diferente em Oshiwanga,

Aqui, a população consome a água que tira de “furos” (buracos, alguns com 17 metros de profundidade e outros com 30 metros) que são construídos rusticamente. Em conversa com OPAÍS, o soba da região, Cristino Matias, explicou ser necessário um grupo de homens para tirar água dos furos, utilizando, para o efeito, um vasilhame que depois é puxado através de uma corda por outras pessoas que fi cam em cima desta mesma
chimpaca.

Entretanto, para pessoas como Laura Sebastião, uma mãe de quatro filhos, que vive só com os filhos, porque o esposo trabalha na África do Sul, é obrigada a entrar ela mesma no buraco e pedir ajuda aos vizinhos para puxarem a corda. “Quando não tens quem te ajude, não interessa se é homem ou mulher, tens de ser tu mesma a entrar no buraco, senão não tens água”, explicou.

Preço do gado reduz de 60 mil para 1500 kwanzas

“Às vezes é preferível ver o gado a morrer do que vender por um valor tão baixo”, disse, visivelmente triste, José Mário Hihangui, um ancião que se dedica à agricultura e à criação de gado. José Hihangui somava 55 cabeças de gado, das quais 6 morreram por causa da seca.

A possibilidade de comercializar os bois para não ter de vê-los morrer está completamente descartada, sendo que o preço deste animal, a maior riqueza da região, reduziu drasticamente. Explicou que uma nema (vaca jovem em idade fértil) que anteriormente poderia facilmente ser comercializada por entre os 45 mil kwanzas e os 60 mil, hoje custa entre os 5 mil e os mil e 500 kwanzas.

Este empresário agropecuário defendeu que a solução imediata para resolver o problema da seca no Cunene passa pela implementação de furos de até 500 metros em diferentes localidades. Encontramo-lo à beira da Estrada Nacional nº 105 na companhia de quatro sobas e um administrador distrital, rigirosamente vestidos de traje formal.

Aguardavam, logo pela manhã de Sexta-feira, 3, por uma boleia que os levaria ao Aeroporto 11 de Novembro, onde, por volta das 18 horas, desembarcaria o Presidente da República, João Lourenço, que efectou uma visita de trabalho de dois dias ao Cunene.

A meio da conversa, o soba grande da comuna da Môngua lamentou o facto de a população estar a perder a confi ança nas autoridades tradicionais, por estes não conseguirem dar resposta às preocupações apresentadas. Benjamim Hisidivali disse que a situação está a tornar-se incontrolável.

As crianças estão a preferir abandonar as escolas para apoiar os pais na transumância do gado. O soba foi mais longe e disse que a seca e a fome estão a obrigar as pessoas a emigrar de uma região para outra “conforme acontecia no tempo da guerra”. Face à situação da estiagem prolongada que afecta esta região, defendeu que as autoridades competentes a declarassem como “zona de calamidade”.

Animais mortos Durante a nossa ronda pela periferia de Ondjiva, o que nos saltou à vista foi termos encontrado um boi imponente sentado entre os arbustos, sem que se incomodasse com a nossa presença. Apercebemo-nos depois que estava doente e não conseguia levantar-se, e tinha feridas nas patas.

Esperança renovada

O Chefe de Estado admitiu que nos próximos meses, até Outubro, período em que termina o Cacimbo, o quadro que se verifica no Namibe e no Cunene venha a agravar-se, por isso, orientou que o programa de emergências seja reforçado. Um pacote fi nanceiro no valor de 200 milhões de dólares foi aprovado em Abril para solucionar problemas estruturantes ligados aos efeitos destrutivos da seca. Entretanto, o conjunto de obras a edifi car, no âmbito das verbas disponibilizadas, deve durar aproximadamente quatro anos.

Deste modo, o Presidente da República orientou que sejam atendidas as situações de emergência que surgirem. Para a população do Cunene, a visita do Presidente da República fez acender uma luz no fundo do túnel.

É que os habitantes da província dizem terem sido esquecidos pelo antigo Executivo. “Desde 2002 que não vem um Chefe de Estado ao Cunene”, dizia uma mulher no Aeroporto 11 de Novembro. “Quando ouvimos que o Presidente viria aqui, não acreditamos”, disse Laura Sebastião.

A jovem, que é mãe de 4 fi lhos, disse ter noção de que a visita do Chefe de Estado não resolve os problemas que a sua família e os habitantes do Cunene enfrentam, mas devolve a esperança. “Quer dizer que não fomos esquecidos”, afi rmou. Até 30 de Abril, cerca de um milhão e 100 mil cabeças de gado estavam afectadas pela seca no Cunene, sendo que até a semana passada 26 mil cabeças morreram de fome e sede.

A informação foi avançada na noite de Sexta-feira pelo governador Vírgilio Tyova, quando apresentava o relatório da situação actual da seca e da fome na região, ao Presidente da República, João Lourenço, no Cunene. Os números apresentados indicavam, também, haver 175 mil famílias afectadas pela seca, bem como o encerramento de 13 escolas pela mesma situação.

Seca já ceifou vidas

O Rei dos Kwanhamas disse à OPAÍS haver o registo de três mortes confi rmadas e muitas pessoas feridas devido ao desabamento das cacimbas. Gerónimo Hailengue disse nunca ter visto uma seca como essa. “Uma seca igual essa nunca vimos. Já perguntamos aos maisvelhos que estão com 100 anos e dizem também nunca ter visto nada igual”, afirmou.

A autoridade tradicional confi rmou também que as crianças têm estado a abandonar as escolas. Por isso, sugeriu que Angola colabore com a República da namíbia para uma melhor solução da situação. O Presidente da República, João Lourenço, também admitiu haver vítimas mortais por causa da seca, mas não precisou números. no Sábado (4), o Chefe de Estado percorreu mais de 100 quilómetros de carro para deslocar-se ao município de Ombadja e constatar in loco o problema da seca, durante a sua visita de trabalho ao Cunene.

A primeira paragem do Chefe de Estado, que se fazia acompanhar da primeira-dama da República, Ana Dias Lourenço, e por alguns membros do Executivo, foi na localidade de Ombala Yo Mungo”.

De seguida, o Presidente da República dirigiu-se à localidade de Oshiwanga. Foram cerca de 30 quilómetros de estrada “picada” percorridos de carro para chegar até a referida região. no local João Lourenço foi recebido por uma população que dizia sentir-se esquecida. no fi nal da visita o Presidente da República garantiu que o governo não está indiferente diante do sofrimento da população afectada pela seca, que abrange também as províncias da Huila, Cuando Cubango e do namibe