Escassez de combustíveis reactiva casas clandestinas de venda do produto

Para além de comercializarem a um preço exorbitante, com o litro a custar de 350 a 400 Kwanzas, muitas vezes, os proprietários destas casas ilegais adulteram o combustível mediante a mistura com outros produtos, e isso pode resultar na danificação do veículo que é abastecido nestes espaços

A escassez de combustível que se regista no país desde há semanas permitiu o reaparecimento das casas ilegais de venda clandestina do produto. Esses espaços, que são um dos focos de combate da “Operação Resgaste”, voltaram a abrir as portas aos mais diversos públicos, comercializando combustíveis em péssimas condições de acondicionamento, situação que pode pôr em risco a vida dos clientes e dos próprios comerciantes. A gasolina é a o produto com maior nível de comercialização e apresenta-se como um dos mais rentáveis nesse negócio escuro que compromete a segurança pública devido aos riscos de explosão.

Os bairros e distritos da periferia da cidade como o Kapalanga, Palanca, Calemba 2, Rocha Pinto, Belo Monte, Cazenga, Belas, Cacuaco, Zangos e parte do Sambizanga e Rangel são os que registam o grosso da prática. Um périplo feito pelo OPAÍS foi possível ver as péssimas condições em que são vendidos os combustíveis que, regra geral, são acondicionados em bidões de plástico, tambores enferrujados, baldes e em outros recipientes altamente inflamáveis e perigosos, no meio de um ambiente sujo, muitas vezes sob olhar atento de crianças, idosos e outras pessoas vulneráveis. Segundo uma comerciante do bairro Camama, identificada por Zita, os motoqueiros, taxistas e proprietários de pequenos geradores são os principais compradores do produto. De acordo com a senhora, há muitos anos que ela vem desenvolvendo essa actividade.

Porém, devido às constantes perseguições e combate da prática por parte da Polícia, teve de deixar por algum tempo. Porém, esta semana, com a escassez do produto e com uma enorme procura de pessoas por combustível, Zita disse que decidiu reactivar o negócio que tem permitido aumentar a renda da casa, já que o marido é desempregado e a família sobrevive de pequenas vendas. “Diariamente estou a vender mais de dez bidões de 20 litros cada. É muito arriscado, a Polícia está sempre no nosso pé, mas também estamos a ajudar as pessoas a não estarem nas longas filas. É uma questão de sobrevivência, meu irmão”, frisou a comerciante de 49 anos de idade. Para além de comercializarem a um preço exorbitante, com o litro a custar entre 350 e 400 Kwanzas, muitas vezes, os proprietários destas casas ilegais adulteram o combustível mediante a mistura com outros produtos e isso pode resultar na danificação do veículo que é abastecido nestes espaços. “Onde baptizam (acto de adulteração do produto) é no Palanca. Nós, do Calemba-2, não fazemos isso, é por isso que nunca tivemos problemas com os nossos clientes. Quem faz isso é criminoso. E nós não somos. Temos amor pelas viaturas dos outros”, atestou Makeba Januário, comerciante.

Um cenário de tudo vale

Por seu lado, os clientes destas casas, apesar do risco a que submetem os seus veículos, ainda assim não demonstram grande preocupação com a qualidade do produto, alegando que num período de frenética procura tudo o que aparece vale. João Walter, condutor, disse já ter recorrido várias vezes a essas casas para fugir das enormes filas que as bombas apresentam. Para ele, numa fase de muita procura, o que mais as pessoas evitam é que a viatura fique ao meio do caminho por falta de combustível. “Há situações em que a única alternativa é recorrer a essas casas. Não é o que queremos, mas a necessidade, muitas vezes, obriga-nos a esse caminho. É preciso que o Estado regularize rapidamente a situação dos combustíveis para evitarmos tais práticas que acabam por nos prejudicar bastante”, apontou o automobilista.

Um mal à solta

A venda clandestina de combustíveis foi sempre um problema que, em Luanda, já causou danos humanos e materiais com valores avultados. Recentemente, um incêndio de fortes proporções deflagrou no bairro Palanca e provocou a destruição de um camião cisterna com capacidade de 163 mil litros e três residências devido a essa prática. Apesar de as autoridades mostrarem preocupação com o assunto e terem apostado em mecanismos de combate, com a “Operação Resgate” a ser um dos pontos altos desta luta, ainda assim essa prática vai-se revelando invencível.

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