Yuri Quixina:“As revisões orçamentais prejudicam a atracção de investimento directo estrangeiro”

O Economia Real desta edição analisou as consequências da revisão orçamental, o risco do aumento da dívida pública e os constrangimentos da desvalorização do Kwanza, sobre a economia. acompanhe a perspectiva do professor de Macroeconomia, Yuri Quixina

Assinala-se hoje o dia Internacional da Família, instituição com importância capital no rumo de qualquer economia… A família é o núcleo de tudo: do jornalismo, da economia, da política da sociedade, a cultura, da ética e da moral e do empreendedorismo. É a robustez das famílias que desenvolve as economias. Lamentavelmente, grande parte das famílias são empregadas e não empregadoras. É crucial as famílias iniciarem um negócio.

Existem condições objectivas para tal?

Aí é que está o problema. Mas é preciso dizer que os políticos e os empresários vêm das famílias. É necessário combinar esforços para que elas tenham outra perspectiva. As políticas públicas devem estar viradas no sentido de contribuírem para o desenvolvimento do país.

A proposta de revisão do OGE/19 já está em posse da Assembleia Nacional. Que perspectiva económica teremos depois da sua aprovação?

Primeiro, teremos um orçamento que reduz o crescimento da economia, com o risco de aproximar- se de uma recessão. Os pressupostos que apontam para um crescimento de 0,3%, estão abaixo da estratégia de endividamento do Ministério das Finanças. O OGE deve ser elaborado com o foco na criação de riqueza e não na lógica de repartir riqueza que não existe. O OGE é previsão. Caso o Estado contrair nas suas despesas de bens e serviços, em quase 40%, pressupõe que estamos a apostar na sorte e esperar um crescimento do sector não petrolífero em 1,6%.

Que consequências essa revisão poderá ter sobre a atracção de investimento directo estrangeiro?

Tem influência. Se o orçamento mostra que as empresas serão mais tributadas, o investimento estrangeiro não aflui a países com muitos impostos. As revisões orçamentais prejudicam a atracção de investimento directo estrangeiro, porque há muita instabilidade orçamental.

Que diferença faria se o orçamento tivesse sido aprovado inicialmente com o preço médio do barril do petróleo a 55 dólares?

Primeiro não teríamos uma revisão. Segundo, teríamos poupança, porque o preço está muito acima dos 55 dólares. Haveria poupança para relançar a economia. Mas essa estratégia é, politicamente, impopular, porque obrigava a cortar nas despesas. E até hoje o governo não consegue cortar estruturalmente nas despesas. Os salários continuam a aumentar. É necessário talento, capacidade de persuasão, para dizer às pessoas que não é o Estado que tem de pagar os salários, é o sector privado.

O Kwanza desvalorizou 47,5%, o que pressupõe perda do poder de compra. Como inverter o quadro?

A única forma de inverter o quadro é fazer com que entrem divisas na economia angolana. E as divisas, do ponto de vista técnico, vêm através das exportações – chamada de variável milagrosa. Mas também de entrar através do envio de remessas de angolanos do exterior e de investimento directo estrangeiro, o que permite o aumento das reservas internacionais líquidas.

Definitivamente, Trump ‘premiu o gatilho’ e agravou as taxas sobre os produtos oriundos da China. Que efeito sistémico isso pode causar?

Se os Estados Unidos aumentarem as taxas aos produtos da China de 10 para 25%, sobre 5 mil produtos. Quem perde, primeiro, com essa subida é a China, na ordem de 1,5% do seu PIB. Mas os Estados Unidos também perde 0,6%. As economias do Canadá e do México poderão ganhar com isso, porque poderão servir de alternativa. O continente africano poderá sofrer com isso, na medida em que o peso da economia chinesa ao nível global é de 45% e o do continente africano 5%. O comércio internacional está a entrar para um ambiente diabólico e pode aumentar as taxas de juro ao nível internacional.