“Minas e Ruínas” de Cristiano Mangovo encerra ciclo expositivo em Lisboa

Curiosidades, impressões e muita satisfação, este foi o frenesim à volta da mais recente colecção do artista, exibida no Centro de Documentação do edifício Central da Câmara Municipal de Lisboa

Seis dias marcaram a exposição “Minas e Ruínas” do angolano Cristiano Mangovo, no Centro de Documentação do Edifício Central da Câmara Municipal de Lisboa.

Curiosidades, impressões e muita satisfação, marcaram o frenesim à volta da mais recente colecção do artista, exibida no Centro de Documentação do Edifício Central da Câmara Municipal de Lisboa, com a promessa de mais apresentações nos próximos dias.

A mostra, propondo uma reflexão profunda sobre as práticas artísticas actuais e as suas possíveis implicações na sociedade, vem sendo, ao longo de alguns anos, uma temática central na obra do artista.

São 12 obras inéditas, tendo por base a complexa realidade da precariedade laboral na indústria de mineração de diamantes, ouro e cobalto em África, que se replica em diferentes pontos do vasto continente.

Esta colecção serve também de pretexto para a uma reflexão profunda sobre as práticas artísticas actuais e as suas possíveis implicações na sociedade.

Neste núcleo de 12 telas de plasticidade disruptiva e cores vibrantes, Cristiano Mangovo fabrica outras tantas narrativas que encorajam a aberta problematização de uma realidade pautada por imagens de violência, desigualdade e injustiça social.

No panorama artístico internacional, considerando o âmbito geracional em que Cristiano Mangovo se inscreve, a sua pintura tem segura integração num campo que se tem vindo a afirmar solo fértil e caro para os jovens artistas da Diáspora africana.

A sua motivação pende para a crítica dos modelos organizacionais vigentes nas sociedades contemporâneas e traduz-se, entre pares, num corpo de trabalho que se aproxima da esfera do Artivismo, onde as visões de protesto emergem e proliferam através da expressão criativa, que coloca sob escrutínio não só a agenda política internacional, mas, sobretudo, a consciência colectiva da sociedade de consumo ocidental.

A condição de refugiado, que marcou a infância de Cristiano Mangovo, concedeu-lhe um ponto de vista muito singular sobre a fragilidade da condição humana. Talvez por isso assuma, através da sua pintura, o papel de porta-voz de uma contra-narrativa, que questiona a capacidade crítica de um mundo contemporâneo alheado, submergido numa antiga, mas ainda prevalecente, visão euro-centrada da existência e na emancipação recente de uma geopolítica florescente em renovados discursos de nacionalismo e individualismo.

Perfil do artista

Cristiano Mangovo nasceu em 1982, na cidade de Cabinda, em Angola. Vive e trabalha entre Lisboa e Luanda. É graduado em pintura pela Faculdade de Belas Artes de Kinshasa (RDC) e tem formação adicional em cenografia urbana e performance.

Cresceu na República Democrática do Congo e desenvolveu grande parte da sua carreira na turbulenta sociedade angolana. Talvez por isso a frase angolana “Winkeba e Nkeba bu Nkaka” (“Proteja-se e proteja os outros também”) se tenha tornado naturalmente um tema central no seu trabalho artístico.

A sua obra, inspirada no quotidiano da vida urbana, evoca recorrentemente a necessidade de protecção dos mais vulneráveis, apelando à edificação de uma sociedade mais equilibrada.

Desenvolveu ao longo dos anos diferentes estilos e simbolismos, mas sempre com um toque surrealista distintivo. Nos últimos anos, o seu trabalho tem sido dominado por um estilo expressionista, pintando personagens deformados, com rostos multifacetados, com duas bocas e múltiplos olhos abertos. Figuras que, parecem ter perdido completamente a sua real forma de vida, mas que ostentam a sua personalidade, movimentos e ideias orientadoras, projectadas como sombras no fundo cénico da tela.

Estes seres transfigurados mostram, por um lado, as suas necessidades e defeitos. Por outro lado, as suas bocas duplas simbolizando a liberdade expressão e os olhos descerrados representam a sua abertura e prontidão para ver e a capacidade orientadora das suas ideias próprias, que fornecem a esperança da possibilidade de superação dos desafios.

Cristiano Mangovo alcançou desde cedo reconhecimento pelo seu trabalho. Realizou a 1ª exposição individual em 2013 pela Fundação Arte e Cultura em Luanda, que acabou por fazer uma digressão na Art BAI naquele ano.

Em 2014, foi galardoado com o Prémio Mirella Antognoli pela Embaixada Italiana e pela Alliance Française, e com o prestigiado prémio angolano ENSA Arte, que o levou à residência na Cité Internationale des Arts, resultando numa exposição individual em Paris.

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