Jorge Gumbe: Angola conta a partir de hoje com os primeiros licenciados em Artes pelo “ISART”

O director Geral do Instituto Superior de artes, (ISarT), Jorge Gumbe, em entrevista a OPaÍS, disse ser importante o lançamento de novos quadros no país, ao nível das artes e cultura, por considerar que serão mais vozes para exigir e apoiar os projectos e planos culturais que estão no papel, como a construção de infra-estruturas

O também artista plástico falou dos desafios que os novos licenciados vão enfrentar no mercado de trabalho, assim como os requisitos para admissão dos estudantes aos cursos superiores ministrados naquela instituição de ensino superior, designadamente, o de Artes Visuais, (variante actuação), Música (variante canto) e Design de Moda.

Foi realizado durante cinco dias (20 a 24) do mês em curso, o 1º encontro de reflexão artística em alusão à semana do dia de África e a semana internacional das artes, promovidas pela UNESCO. Como decorreram as actividades?

As actividades decorreram de acordo com as nossas expectativas. Além das conferências foram realizadas residências artísticas e alguns workshops, assim como exposição de artes visuais. O encontro encerra hoje, com a realização da cerimónia de outorga de diplomas aos licenciados em Artes. O ISART existe desde 2014 e foi a primeira experiência que fizemos.

Como resume essa actividade?

Criamos um tema que foi “ (Ré) Descobrir a arte” e alguns painéis que foram preferidos durante três dias, que contou com palestrantes angolanos das diferentes áreas do saber da arte e da cultura. Tivemos uma convidada, proveniente da vizinha República da Namíbia e ela de facto é a Representante para a África e do Médio Oriente da Sociedade Internacional do Ensino Artístico.

Qual é a avaliação que faz desses quatro anos de trabalho?

É uma avaliação muito positiva! Sabemos que no mundo existem muitos desafios e, sem dúvidas que a educação e o ensino é a alavanca para o desenvolvimento em qualquer país. Naquilo que tem a ver com a arte e cultura, as suas profissões são desenvolvidas pelo meio da educação e existem diferentes etapas para se poder obter as habilidades e competências nessas profissões. Por essa razão, entendemos que o ISART é uma instituição que ao ser criada, embora tarde, depois dos 40 anos de independência, foi muito bem-vinda.

Quantos cursos são ministrados e quantos alunos recebem em cada um deles?

Temos os Cursos Superiores de Teatro (variante actuação), Música (variante canto), Artes Visuais e Design de Moda. Em cada curso, anualmente, admitimos 30 alunos. Esses são os primeiros cursos criados, mas teremos outros nos próximos anos. Por enquanto, a única especialização no Teatro é a Actuação e Formação de Actores. No Curso de Música o único instrumento que está a ser ensinado é o canto, na vertente do canto lírico.

Qual destes cursos é o mais solicitado?

De uma maneira geral há adesão para todos. Mas o que se destaca é o de Design de Moda, seguido da música. Todos os anos recebemos cerca de 100 candidatos em cada curso. Sem dúvidas, são jovens com talento, que pretendem ingressar na nossa instituição. A nossa infra-estrutura de ensino ainda é provisória, mas estão a ser empreendidos todos os esforços, no sentido de termos instalações próprias, para satisfazer melhor os nossos jovens.

Há estudantes provenientes de outras províncias que vêm propositadamente para cursar no ISART?

Sim. O ISART é o primeiro e o único instituto do género no país. Deste modo, acrescem-se as responsabilidades. Pelo facto de ser a única, temos estudantes de províncias como Benguela e Huíla. Essas duas são as que têm um número bastante elevado de estudantes. Isso quer dizer que as futuras instituições a serem criadas nas demais províncias, os docentes serão esses estudantes que hoje frequentam a nossa instituição. Por essa razão, a nossa tarefa é a de formar pessoas com capacidade e competências, para serem criadores nas diferentes manifestações da arte.

E quanto à permanência dos estudantes provenientes de outras províncias na capital do país, como tem sido?

Esses estudantes são bolseiros. Têm direito a uma bolsa de estudo por parte do Instituto Nacional de Gestão de Bolsas de Estudo (INAGBE). Alguns deles vão licenciar-se agora. A permanência deles é de modo independente e contam com apoio dos familiares e amigos. Nós, nesse momento não temos condições para acolher esses estudantes. Não temos capacidades para criar um internato.

Hoje serão apresentados os primeiros licenciados em Artes no país, por parte do ISART. Quantos são?

São cerca de 52 estudantes que serão licenciados, dos cursos de Artes Visuais, Teatro e Música.

Como será a inserção dos recém-licenciados no mercado de trabalho, visto que são jovens e pretendem firmar um posto de trabalho, numa praça que até certo ponto não é aberta para estas disciplinas?

O instituto a surgir, os cursos a serem criados, à partida já existem perspectivas de que o estudante ao terminar tem como poder continuar a sua actividade. Um dos grandes benefícios que os cursos ligados às artes e à cultura têm, e nós ao nível da academia temos enfatizado, é o de ensinarmos aos nossos estudantes as ferramentas, de modo que eles sejam autónomos. Em qualquer parte do mundo, as áreas artísticas são as que estão muito ligadas à actividade liberal. Quer dizer que a pessoa termina a sua formação, por si só consegue fazer o seu trabalho. E o trabalho que ele desenvolve, cria as tais indústrias criativas e culturais, proporcionando emprego a outros cidadãos.

Lembrar que as salas onde são apresentadas peças teatrais e realizadas exposições, além de serem poucas são adaptadas. Isso não vai dificultar o trabalho destes artistas?

Há programas e planos do Governo, no sentido de se criarem centros culturais. Apesar das dificuldades é possível fazer e está-se a fazer com o que há. O país está independente desde 1975, estamos agora em 2019, portanto, sempre temos tido apresentações de teatro, realização de exposições, apesar de os espaços não serem dignos. É importante também que esse segmento de profissionais surjam, porque temos poucos artistas formados nas várias disciplinas artístico-culturais.

Acredita que com o lançamento de quadros ligados à arte e cultura, servirá de incentivo para os empresários investirem em infraestruturas culturais?

Sem dúvidas. Nós, anualmente passaremos a lançar novos licenciados em artes. Isso realmente vai estimular mais ainda o empreendedorismo nessa área, porque ainda há algumas reticências, algumas desconfinças, se de facto é mesmo uma área lucrativa ou não. Temos pessoas com muito dinheiro no nosso país e todos querem investir em restaurantes, supermercados porque rende de imediato. Sem dúvidas que um investimento na área da cultura e das artes é um investimento para ser de médio e longo prazos.

Temos também alguns quadros que formaram-se em artes no exterior do país. Estes afirmaram-se?

Sim. Mas essa é a primeira experiência que o país vai ter, ao licenciar em disciplinas artísticas cá. Sem dúvidas que será mais uma voz para exigir e apoiarem aqueles projectos e planos que estão no papel e ainda não foram implementados, como a construção de infraestruturas. E mesmo ao nível do ensino será necessário que haja um ensino integral, porque o aluno para vir ao ensino superior de artes, tem que ter uma base que deve ser dada desde o ensino primário, como acontece com os alunos que fazem medicina ou outros cursos superiores.

Quais são os critérios para admissão dos candidatos?

São as provas que são realizadas de acordo com cada especialidade. Por exemplo, no Curso de Música o candidato deve fazer o teste de canto e voz. No de teatro deve fazer uma prova técnica, para ver se de facto sabe interpretar os gestos e atitudes que um actor deve ter em palco. Assim acontece com os outros cursos. Devem saber também alguns nomes que fizeram história nessas áreas.

Então basta ter talento para formar- se nos vários cursos artísticos..

Não basta ter somente talento, mas é preciso também ter habilidades. Claro que o nível de exigência é de acordo com a de um jovem que está a sair do Ensino Médio de Artes. Este ano, por exemplo, recebemos estudantes graduados no ensino médio no Complexo das Escolas de Arte (CEART). Alguns deles que entenderam dar continuidade no ensino superior nos vários domínios das artes estão aqui, no ISART. Rigor há na admissão dos candidatos, mas há uma certa flexibilidade.

Quais são as cadeiras nucleares em cada um dos cursos?

A estrutura do ponto de vista académico do ISART está feita por áreas de especialidade e da teoria da arte. Na área de especialidade são aquelas disciplinas práticas. Quem está a fazer teatro tem a disciplina de dramaturgia. Os que fazem Artes Visuais têm a cadeira de Desenho, Pintura e Escultura. Os do Curso de Design de Moda tem a cadeira de Modelismo e Costura. No de Música proporcionamos as cadeiras de Canto, Harmonia, Solfejo, que consideramos essenciais e básicas.

Qual é o perfil exigido aos professores do ISART?

Para essas cadeiras temos alguns especialistas angolanos e também a cooperação com Cuba. O ISART tem um acordo, por via do Executivo, através do Ministério do Ensino Superior, em que fez concordância com o Governo Cubano, para a contratação de professores cubanos nas mais diferentes áreas do saber ao nível das universidades do país. Temos nesse momento cerca de 11 professores cubanos, que estão distribuídos nos quatro cursos.

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