Zelensky promete cessar-fogo na ucrânia

No início desta semana um Presidente improvável chegou ao poder num país europeu, a ucrânia, onde o actor e comediante Volodymyr Zelensky tomou posse na Suprema rada, na capital Kyev. Ele não quer fotografias suas nas instituições estatais, diz que aí bastam os símbolos do Estado. Ganhou com mais de 73 por cento dos votos na segunda volta, contra o anterior Presidente, Petro Poroshenko, o que coloca o país outra vez sob o foco dos media. Sobre tudo isso e outros assuntos, OPaÍS falou com Hennadii Rohovets, encarregado de negócios da Embaixada ucraniana em angola

Há, no calendário oficial ucraniano uma curiosidade, para nós angolanos, que é o feriado no Dia da Constituição, a 28 de Junho. Hennadii Rohovets, conselheiro e encarregado de Negócios da Embaixada da Ucrânia em Angola, não se alonga sobre este assunto, embora diga haver outros países em que o Dia da Constituição é comemorado com o Dia Nacional. Na Ucrânia, o Dia Nacional, ou Dia da Ucrânia é assinalado a 24 de Agosto. Estamos, portanto, a cerca de um mês para o Dia da Constituição, sobre a qual e sobre o evangelho Peresopnytsia colocou a mão Volodymyr Zelensky, o novo Presidente do país, no dia da sua tomada de posse, a 20 de Maio. Uma das primeiras medidas anunciadas por Zelensky foi a dissolução do Parlamento, a Suprema Rada, no seu discurso inaugural e a marcação de eleições legislativas para 21 de Julho deste ano.

Se anteriores presidentes do país saíram acusados de má governação do erário, com Zelensky será diferente. “Ele recebeu um grande crédito do povo ucraniano, 73 por cento na segunda volta, nunca ninguém tinha tido tal crédito da parte do povo ucraniano”. E adianta que este crédito significa também “a muita esperança do povo em mais democratização da sociedade, em medidas a favor do povo”. Mas este resultado significa ainda que ele “interpretou os desejos do povo”. Nos últimos cinco anos, diz o conselheiro, muita coisa foi feita, como as reformas na sociedade, na justiça, na educação, e na harmonização das leis às regras da União Europeia. E acrescenta: “O Presidente Zelensky fez questão de garantir a continuidade da aproximação à União Europeia e ao Bloco do Norte (OTAN)”. Há ainda muito por fazer, mas o “rumo escolhido pelos ucranianos desde os trágicos acontecimentos de 2013 – 2014 mantém-se”.

Entretanto, esta mesma Ucrânia é um Estado europeu que vive uma situação de guerra, que Hennadii Rohovets dizer “não declarada”. E diz que apesar de na maioria do território haver paz, “há uma guerra, que se realiza de diferentes formas, mas é guerra, porque já fez mais de 10 mil vítimas, entre civis e homens armados”, o que não favorece o desenvolvimento da economia do país. Se há guerra, os ucranianos elegeram Volodymyr Zelensky, um homem sem experiência política que promete acabar com o conflito. Na tomada de posse ele disse que uma das suas metas é a devolução da Crimeia (integrada pela Rússia) à Ucrânia. “Sim, o nosso Presidente disse isso, também prometeu fazer tudo para alcançar um cessar-fogo na linha divisória. Ele disse que vai fazer de tudo, ainda que possa perder a popularidade e o cargo”. Os regresso dos prisioneiros é outra preocupação do novo Presidente. A via escolhida é a político-diplomática, conversando.

Separatismo étnico?

Hennadii Rohovets refere-se aos russos como vizinhos, e não entende que estes tenham tentado uma reunião do Conselho de Segurança da ONU por causa de um decreto, ainda do Presidente Petro Poroshenko, já a terminar o seu mandato, que protege a língua ucraniana, tornando-a oficial das instituições, sabendo-se da presença de falantes de outras línguas no país. “As declarações do nosso vizinho são ridículas e sem senso. É normal qualquer país defender a sua língua”. E cita o Presidente angolano, João Lourenço, que defende o respeito da língua portuguesa como língua angolana. “Todos os países defendem a sua língua, é normal”. Mas argumenta, sobre a lei aprovada pelo Parlamento, dizendo que isso não significa que as outras línguas faladas na Ucrânia perdem valor.

“Infelizmente, na Ucrânia existem pessoas, ucranianas, em algumas regiões, de origem húngara, ou romena, por exemplo, que por não cederem na sua língua de origem, sem dominarem a língua estatal, o ucraniano, depois de terminada a escola, por exemplo, não dominando a língua estatal, têm dificuldades para entrar na universidade, por exemplo, tornam-se menos competitivos mesmo nas empresas e na administração, daí esta lei, para criar um ambiente bom para todos os ucranianos”. É que na Ucrânia incorpora povos de origem grega, romena, russa, romena e até polaca, e a nova lei não obstaculiza, por exemplo, as transmissões televisivas em línguas regionais. No entanto, o artigo 10 da Constituição reconhece o ucraniano como língua Estatal, apesar de favorecer o desenvolvimento de outras línguas. “Eu falo russo e ucraniano, sou do Leste da Ucrânia, para mim não é problema”, diz Hennadii Rohovets. E acrescenta que a Rússia, ao intervir na Ucrânia usou o argumento da defesa dos russo-falantes. “Isso não pode ser um pretexto” para violar as leis internacionais e ocupar território de outro Estado, matando pessoas. “Isto é inadmissível no século XXI”

Guerra económica

Entretanto, olhando para o Leste do seu país e para as áreas separatistas, diz haver uma “ocupação temporária” de territórios de Lugansk e de Donetsk. Repete que se trata de uma guerra não declara levada a cabo pela Rússia contra o seu país, e acrescenta que os vizinhos do Leste usam todos os meios, incluindo o económico, citando o exemplo do no gasoducto que a Rússia está a construir para desviar a passagem do seus gás para outros países pelo território ucraniano.

Farinha domina relações comerciais com Angola

O volume de negócios entre os dois países está em crescendo nos últimos anos, apesar de uma ligeira desaceleração em 2018. Em 2015 os negócios entre os dois países valiam 5, 9 milhões de dólares, dando um salto para USD 15 milhões em 2016, e no ano seguinte para USD 29,9 milhões. Até que em 2018 a conta ficou-se pelos 23, 9 milhões. Os campeões neste negocio são a indústria de produção de farinha de trigo, que no ano passado atingiu USD 14, 7 milhões de exportações ucranianas para Angola, cerca de 61 por cento do volume de exportações geral (A Ucrânia tem solos férteis e é considerada um dos celeiros da Europa, sendo a produção de grãos um dos seus fortes); e às farinhas seguiram-se metais ferrosos no volume de USD 4 milhões, e , verduras e óleos vegetais e de origem animal por último.

Mas Angola não é o maior parceiro comercial africano da Ucrânia, que em 2016 teve trocas comerciais com o continente avaliadas em USD 4 mil milhões e 490 milhões. Em 2017 este valor subiu em pouco mais de 200 milhões e em 2018 atingiu os USD 4 mil milhões e 895 milhões. “Trata-se de uma dinâmica positiva”, refere Hennadii. Mas não revela com que país as relações são mais fortes, embora enumerasse a Argélia, a África do Sul, Etiópia, etc.. No entanto, levanta o véu e para o que o seu país pode oferecer, como a agricultura desenvolvida, fertilizantes, indústria pesada que permite a produção de equipamentos para outras indústrias e para agricultura. Tem boa construção aeronáutica, automobilística e até na produção de naves espaciais.

300 estudantes angolanos na Ucrânia

Apesar dessa oferta para expandir a economia, a grande prioridade continua a ser a integração europeia, que implica reformas económicas. O que não fecha a porta à importância do desenvolvimento de boas relações com o resto do mundo, e o potencial africano está, obviamente, na “mira”. Aliás, a formação de estudantes africanos é uma boa forma de cimentar as relações futuras. Angola tem lá 306 estudantes neste momento, mas há já em Angola muitos profissionais que foram lá formados. No entanto, há que começar a trazer mais empresas, nomeadamente em feiras e fóruns. A FILDA, em Julho, pode ser um bom começo, diz, até porque é “muito importante a relação de intercâmbio entre os homens de negócios”. Angola passa informação suficiente, há empenho do Governo em dar mais informação, mais aberta, para que os empresários estrangeiros conheçam o país.

Oportunidades de negócios

Para angolanos que queiram iniciar- se em negócios com a Ucrânia, a embaixada diz estar de portas abertas e trabalha para a realização do primeiro fórum empresarial e de negócios Angola – Ucrânia, que poderá dar um impulso nas relações económicas e comerciais. A AIPEX e o Ministério das relações Exteriores têm colaborado. E há uma outra razão para a realização do fórum: a 30 de Setembro, Ucrânia e Angola comemoram 25 anos de relações diplomáticas. “Uma boa oportunidade”, diz o encarregado de negócios Rohovets.

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