“A hora sempre chega”

A hora, enquanto integrante do tempo, sempre chega, e nos obriga a responder “PRONTO”.

Hoje, chegou mais uma hora. Não a hora de apagar a velinha: NÃO.

Também não é a hora da largada enunciada pelo Poeta Maior. Não.

Esta também não é a hora de preparar a defesa. Será a hora de receber mais uma “dinâmica”? NÃO.

Mas chegou a hora.

Esta sim, é a hora de organizar a ofensiva sem cantil, sem a marmita; sem a sabre.

É a hora de curvar perante os cacimbos da vida e perceber que o tempo levou a mocidade;

A hora de lembrar dos companheiros tombados;

Os bravos heróis anónimos.

Chegou, sim, a hora de lembrar de ti, de mim e dos demais cujas vozes calaram-se também numa hora que o tempo levou, faz tempo. Este é o momento de agradecer os que nos compreenderam nas horas difíceis…

Os que nos suportaram, obedeceram e sobretudo confiaram em nós, sabendo nos acolher quando necessário na hora certa.

Às mulheres que nos acompanharam e souberam esperar com espírito de certeza na antevisão do maior dos poetas angolanos, um beijo e um buquê de rosas. Nós não esperávamos, éramos aqueles por quem a morte esperava, espreitava e consumia sem dó nem piedade, quer de dia ou de noite, de madrugada à dentro longe do horizonte sob o ribombar de canhões, fuzis.

A dada hora, restava-nos apenas o consolo e a satisfação de vencer numa simples contenda de cartas; por ser o que restava como escapatória das péssimas notícias vindas do além; da lembrança do companheiro que não chegou ao destino; das infinitas trovoadas que anunciavam mais um dia difícil.

Nas longas caminhadas de noites intermináveis de frio, fome, sede, cansaço e até mesmo, morte, valeu sempre a firmeza e determinação que nos fizeram continuar.

Apesar do tempo que roubou de nós a mocidade, viveremos eternamente felizes, pois fizemos a nossa parte, cumprimos o dever, com espírito de missão, amor e lealdade à Pátria.

E eis que chegou mais uma hora, que nos obriga a dizer, PRONTOS para contribuir para o desenvolvimento do nosso País, naquilo que nos for orientado.

De cabeças erguidas, cicatrizes nos corpos e sorriso nos lábios, devolvemos o espolho contendo botas com as quais percorremos kilómetros e milhas náuticas desta imensa Angola, engalanando com pétalas de rosas vermelhas os canos dos nosso fuzis, sentindo os acordes do canto dos nossos pássaros voadores e das embarcações que “rasgaram”, o azul das águas marinhas que a natureza nos ofereceu. Chegou, pois, a hora que não é de apagar a velinha, mas sim a hora da saudade…

A hora do aperto de mãos… Do simbolismo enorme entre camaradas cuja glória remetem aos heróis que não regressaram à casa.

E nesta hora, só nos resta reafirmar que: “A pátria aos seus filhos não implora, ordena”!

Alberto Kizua

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