“O Comandante bebeu e naquele dia [do crime] estava mal”

João Lourenço Neto, comandante da Polícia Nacional do Distrito do Patriota, apontado como autor dos disparos que vitimaram mortalmente um agente e deixaram outros dois feridos, à data dos factos estava embriagado. Aquele superior “estava mal”, segundo o declarante João Alfredo, que não conseguia sequer conduzir a sua própria viatura

Ontem, Sexta-feira, 24, houve mais uma sessão de julgamento do comandante do Distrito do Patriota, João Lourenço Neto, no Instituto Superior de Ciências Policiais e Criminais “Osvaldo Serra Van-Dúnem”. O dia foi reservado para a audição de seis declarantes, dentre eles dois inspectores- chefe do distrito a que pertencia o comandante que agora responde como réu.

Mesmo com falha de energia, com o calor e luminosidade baixa na sala de audiência, o juiz da causa, Mateus Rúben, deu início a mais uma sessão de julgamento. O réu, João Lourenço Neto, de 50 anos, baixo e que usa bigode, aparentava estar sóbrio – um estado de espírito completamente diferente do que apresentava à data dos factos (13 de Maio de 2018).

O inspector-chefe João Alfredo disse em tribunal que, à data dos factos, o comandante em causa estava embriagado, situação por si constatada, e que não conseguia sequer conduzir a sua viatura. Indagado pelo juiz se era a primeira vez que vira o seu superior naquele estado, disse que não, que já o vira várias vezes bêbado, “mas naquele dia estava mal”.

Dado o estado de embriaguez, e porque ele (o réu) reconheceu que não conseguiria conduzir, os colegas predispuseram-se a levá-lo à casa. Fernando António, a vítima mortal, nem pertencia ao comando do Distrito do Patriota, pelo que estava ali apenas para apanhar uma boleia que lhe custou a vida. À medida que os declarantes, e principalmente os inspectores-chefe João Alfredo e Victória Laura recordavam o momento em que tomaram conhecimento dos disparos, duas das irmãs mais velhas de Fernando abanavam a cabeça em sinal de lamentação e, minutos depois, não conseguiram controlar as emoções e desataram em prantos.

Um oficial do tribunal pediu a uma delas que se sentasse nas cadeiras traseiras e se acalmasse. A situação ficou calma por um tempo, até que a inspectora-chefe Victória Laura, comandante da esquadra do Honga, voltasse a dizer que quando chegou ao local do crime encontrou dois dos feridos no passeio e o colega Fernando no carro, já morto. O pano que uma das senhoras transportava ao colo não foi suficiente para enxugar as lágrimas.

Foi capturado. Não se apresentou livremente

Dois tiros na cabeça e quatro no peito levaram à morte imediata o agente Fernando António, de 43 anos. Os disparos, feitos pelo comandante da esquadra do Patriota, deixaram também ferimentos graves nas pernas e barriga a outros dois colegas.

A comandante Victória disse que quando chegaram no local o comandante João Lourenço Neto já se tinha ausentado. Depois do que os colegas feridos lhe tinham reportado, esperava que o comandante fosse voluntariamente entregar-se, mas foi preciso “ser capturado”.

“No acto da sua captura, já sob a presença do comandante municipal, ele questionava as razões pelas quais estava a ser levado, pelo que o seu superior hierárquico apenas lhe pedia que obedecesse”, disse. A declarante acrescentou ainda que nunca tinha visto o comandante bêbado, apenas a “cheirar álcool”, e que aquele foi o primeiro dia que o viu naquele estado.

Perguntados, todos os declarantes, se João Lourenço Neto fumava, estes responderam negativamente. A bebida alcoólica, e com especial particularidade o vinho, era a única “droga lícita” que o então comandante consumia.

Por não ter “consumido o vinho com moderação”, no mês de Maio de 2018, o destino voltou a colocar o comandante João Lourenço Neto na Via Expressa, no mesmo mês, no presente ano, para ser julgado no Instituto Superior de Ciências Policias e Criminais “Osvaldo Serra Van-Dúnem.

Conta o declarante identificado por Pedrito, serralheiro, que no dia do infausto acontecimento esteve com o comandante, às 13h, e mais quatro amigos e colegas deste, na Via Expressa, no restaurante Casa das Bifanas. O comandante e os 4 amigos consumiram, até antes do declarante se ter ausentado (17h), três jarras de vinho (do barril).

Pedrito disse que não consome álcool e, por isso, bebeu gasosa, mas que antes de ter saído o comandante estava “bom, ainda não estava bêbado”. Teve de os “abandonar” ali porque tinha coisas a fazer na sua serralharia. Foi então que, no dia seguinte, tomou conhecimento que o comandante João Lourenço Neto havia alvejado os colegas. Assim, João passou de um momento de lazer, alegria e embriaguez, para um momento de sobriedade, tristeza e acusação criminal, num período de um ano, na mesma zona: Via Expressa.