Um berço que pode ser de maior união

Hoje encontrei-me a pensar na necessidade de debatermos sobre a importância do reforço das relações entre os povos africanos, já que os “ditos” laços de irmandade, o curso da história comum e até mesmo a divisão da mesma terra já se demonstram factores insuficientes para, por si só, garantirem uma maior cooperação e irmandade, de facto, entre os nossos povos. Portanto considero que é visivelmente urgente que procuremos outras formas de tornarmos os discursos políticos em medidas efectivas que nos unam e permitam com que, assim, progridamos juntos.

Acredito que seja relevante anotar que a sugestão de debate que aqui proponho ultrapassa, de grande maneira, as megalómanas cimeiras e reuniões das regiões dos grandes lagos, SADCs e Uniões Africanas entre outras, pois, sendo bem franco, todas elas, para mim, representam mais e mais do mesmo, um mesmo de muito discurso e poucos efeitos. Sem desprimor, claro, as organizações acima referidas, por reconhecer o seu papel na luta de um continente uno, sugiro que façamos um debate mais profundo que vise garantir, primeiro, que estejamos todos de acordo sobre aquilo que somos e, depois, para onde queremos ir.

É muito comum sentirmos que as relações dos países africanos, nos mais variados domínios, com o ocidente são sempre mais privilegiadas do que as relações internas no continente. Certamente que existem razões, tal como passado colonial, que conduzem para esta linhagem de pensamento e de acção, mas acredito que os desafios dos novos tempos exigem que comêssemos a desafiar alguns conceitos históricos e nos reinventemos na base das necessidades dos tempos.

Em uma altura em que os relatórios financeiros deixam cada vez mais evidente de que perdemos mais do ganhamos sempre que celebramos contratos de investimento com o explorador do ocidente, talvez seja momento ideal de pararmos e repensarmos a sustentabilidade de certas medidas e relações de cooperação que estabelecemos.

Se antes receavamos a falta de bons exemplos dentro do continente e de modelos de sucesso que pudéssemos seguir, hoje isto é claramente um problema que não se coloca nem a brincar. Com realidades como a da Wakanda de África, ou melhor, o Rwanda, que tem vindo a dar passos significativos com grande impactos no seu desenvolvimento, falta de atração não é razão justificável para continuarmos com os olhos fora do berço, quando o desenvolvimento e progresso também aqui estão.

As vezes sinto que, enquanto país, olhamos para o desenvolvimento como sendo uma exclusividade de certas realidades, sobretudo a europeia, o que é traduzido pelas nossas acções de cooperação internacional e focos de busca no investimento. Na sequência disto, queremos copiar modelos, imitar soluções e implementar projectos, excluindo um elemento muito importante que é a adaptação a nossa realidade.

É legítimo que queiramos, nos dias que correm, estar na montra do mundo. Claro que não nos podemos fechar em um berço. Devemos, como o temos vindo a fazer e muito bem, ser abertos ao mundo e as novas realidades. É bom que busquemos pelos melhores e que aprendamos com eles. Mas é também nisto que precisamos de ter muita atenção e cuidado, para que não acabemos confundindo “os melhores” com “os maiores”.

Um dos grandes benefícios que nasceria de passarmos da categoria de “povos irmãos” à “povos irmãos que investem uns nos outros” seria o facto de que as nossas acções e energias estariam concentradas em um investimento continental que mais do beneficiar cada país envolvido ajudaria a fomentação do continente enquanto potência mundial. Para além de que os custos seriam muito mais reduzidos, se criássemos condições para a circulação célere da moeda, bem como a adaptação dos projectos mais eficazes, pois sendo que os países africanos têm, quase todos, uma linhagem semelhante de desenvolvimento, existe uma maior probabilidade dos projectos que têm sucesso na Nigéria, por exemplo, terem também sucesso em Angola, o que não se aplica com realidades como a de Portugal, a título de exemplo.

É admirável e respeitável o senso de solidariedade que existe entre alguns povos dentro do continente. Os recentes apoios à Moçambique não deixam mentir tão pouco as urgentes intervenções dos estados africanos para a resolução de conflitos em determinadas regiões do continente. Há prontidão e vontade de irmãos para irmãos. Isto é verdade e precisa de ser dito. Mas ainda é possível fazermos mais, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza.

“Na África” dos olhos europeus

Há alguns anos, o sentido de se ser africano, para mim, esgotava-se em ser-se negro, angolano, em vestir trajes com estampas de várias cores, em ocasiões especiais, e ter um cabelo afro. Esta minha visão redutora sobre um conceito intrinsecamente ligado a minha identidade, enquanto ser, acompanhou-me até eu entender, fora de África, que o eu ser africano colocava-me em posição de ser humano de segunda classe por causa do que se assumia e se determinava sobre mim, numa base de discriminação e estereótipos. Desde então, entendi, de facto, o que significava ser africano dentro e fora do continente. Hoje entendo melhor o valor da história e a sua importância para a afirmação dos povos e nações.

Sermos autores das nossas próprias narrativas é uma motivação dos povos africanos há muitos anos, desde a vinda do colono. No continente, foi sempre consensual o desejo de podermos contar, pelas nossas próprias vozes, as nossas histórias e, com os nossos desejos, determinar os destinos das nossas terras. Acredito que foi nesta linha de pensamento que tanto lutamos para as tão almejadas independências.

Hoje cá estamos. A caminhar em velocidades diferentes. Velocidades que se podem unir e se tornarem mais céleres, salvo*, e decidirmos JUNTOS caminhar.

Israel Campos

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