Grupo carnavalesco União Operário Kabocomeu é motivo de estudo

O grupo tornou-se uma referência para a Cultura Nacional depois de ter conquistado o primeiro carnaval angolano pós- Independência, em 1978

Participantes dos diferentes debates sobre o Carnaval de Luanda, seus desafios e modernidade, advogaram os estudos do União Operário Kabocomeu e do Distrito Urbano do Sambizanga.

O colóquio, realizado pela Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde e a Fundação António Agostinho Neto, juntou individualidades e pessoas ligadas ao Carnaval de Luanda, estudantes, escritores, artesãos, músicos, jornalista e outras entidades.

Durante aproximadamente 5 horas de debate, os participantes criticaram, sorriram, aconselharam, contribuíram e puderam viver e reviver de forma elucidativa a verdadeira história deste grupo, os seus mementos áureos e tristes.

No que diz respeito a críticas, estas estiveram direccionadas aos responsáveis do grupo, pela forma como se apresentou nos últimos anos, a falha na organização e na coreografia. Os participantes entenderam que, pela sua forma de dançar o estilo kazukuta, ter-se-iam pautado também por uma coreografia, de modo a dar mais força anímica e não limitar-se aos já habituais compassos.

Este grupo tornou-se um dos maiores símbolos do Carnaval Nacional, pela tradição, competitividade, capacidade de mobilização, por ter ganho o primeiro Entrudo da Angola pós-Independência, e passado por peripécias para se poder manter intacto e prosseguir a missão para a qual foi criado.

Preocupados com esta situação, os participantes admitiram não haver um reconhecimento pela sociedade e pelas entidades governativas do país.

“É triste ver um grupo desta dimensão entregue à sua sorte. O mesmo acontece com Elias Dya Kymueso, Rei da Música Angolana, ninguém o conhece. Se o Bonga não tivesse saído de Angola também não seria conhecido. Foi preciso abandonar o país para ser reconhecido lá fora. Em Angola, nossa terra, infelizmente ninguém é reconhecido. É lamentável”, desabafou um dos participantes.

Como é sabido, o estado actual da agremiação é bastante crítico e falta quase tudo para a sua sobrevivência, o que em nada contribui para o estatuto atribuído. Os conferencistas advogaram o conhecimento da história do Carnaval para se poderem detectar os sinais de modernidade, que já existem, e que as teses dos estudantes universitários sobre o Entrudo sejam divulgadas.

Defendem ainda que os grupos patrimoniais não devem descer de escalão e tenham nos seus municípios espaços de memória para eles, uma acção que tem movido alguns estudantes investigadores preocupados com a situação.

O colectivo, constituído por mais de 500 integrantes, foi fundado a 2 de Janeiro de 1952, no Sambizanga. É caracterizado pela dança kazukuta, que deu origem ao semba, segundo o guitarrista, cantor e compositor, Carlitos Vieira Dias, filho do lendário Liceu Vieira Dias, guitarrista do Conjunto Ngola Ritmos.

O União Operário Kabocomeu detém uma coreografia assente na realidade da vida das vendedeiras e demais habitantes do Sambizanga.

A sua história remonta à época do domínio colonial português, em que se vivia a festa numa perspectiva assimilada, que só foi alterada no final dos anos 70, com o surgimento do Carnaval da Vitória.

Segundo os estudiosos, esta manifestação popular iniciou-se em Angola nos anos 1920, com os colonizadores europeus, mas não foi fácil fazer dela uma gigantesca manifestação cultural de massas, à qual pudessem participar sem reservas os povos indígenas. Até à década de 60, o Carnaval decorreu em clima de tensão, embora as turmas e os grupos nacionais mantivessem intacto o sonho de promoverem a sua dança, música, os hábitos e costumes, bem como as línguas nacionais país adentro.

Polos Carnaval

A cidade de Luanda e os municípios da Catumbela e do Lobito, província de Benguela, foram os principais pólos de projecção do Entrudo, que ganhou uma perspectiva nacional a partir de 1978.

Foi neste mesmo ano que o União Operário Kabocomeu evidenciou a sua geração e o espírito competitivo, conquistando um eufórico Carnaval que rapidamente espalhou-se por todo o país, sob coordenação do então Centro de Informação e Turismo de Angola (CITA).

Segundo depoimentos de alguns integrantes do colectivo, a sua designação saída da expressão “acabou, comeu”, da qual derivou a actual grafia.

Designação do grupo

O termo Cabou, alterado mais tarde para o Kabo do actual radical do nome (Kabocomeu) era pronunciado sempre que o grupo terminasse as actuações nas ruas do Sambizanga.

Consta que a ideia principal da sua formação era brincar no Carnaval e não competir, recriando de porta em porta em várias localidades do município, em troca de dinheiro para estimular os seus integrantes e os mais velhos dos bairros.

Mas só em 1953 o grupo viu-se estimulado a desfilar no Carnaval Central, levando à criação do seu nome oficial.

Indumentária e dança

A coreografia do grupo assenta sobretudo na dança kazukuta, caracterizada pelo sapateado lento, seguido de várias oscilações corporais.

Os dançarinos fixam no solo ora os calcanhares, ora a ponta dos pés, tendo como instrumento de apoio a tradicional bengala e os guarda-chuvas, marcas identitárias do grupo.

A música do desfile é produzida com base em instrumentos folclóricos, alguns dos quais não industriais, como latas, dikanza, garrafas, arcos de barril e cornetas à base de latão.

Construídos de forma artesanal, servem de acompanhamento cadenciado de um ritmo muito peculiar, nos momentos de intensa variação rítmica da música.

Nos desfiles de Carnaval, os bailarinos do Kabocomeu desfilam de calças listadas e casacos ornamentados com vários adereços e objectos, representando a hierarquia do exército, o trabalho de construção civil, as vendedeiras, e outras realidades.

As suas cores tradicionais são o preto e o azul, fortemente notadas na coreografia, marcada pelo desdobramento de filas em quadrados, triângulos e linhas paralelas e horizontais, sobretudo nas quatro alas de mulheres (passistas, bessanganas, bailarinas e kazucuteiras).

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