Satélites, sucesso, desaires e custo de oportunidade

Os satélites têm sido notícia na imprensa, com a entrevista na televisão e sobre a contratação comercial do Angosat 3 e a notícia sobre a audiência da visita a Angola do empresário americano Gregory Thane Wyler, fundador da One Web, empresa que pretende disponibilizar, serviços para acesso à Internet nas comunidades rurais. Comentários não faltaram em relação â primeira notícia, a opinião pública ainda traumatizada pelo desaire do Angosat 1, aguarda com expectativa pelo Angosat 2 e, de repente, apercebe-se que afinal o Angosat 3 vem a caminho. Na segunda notícia a ligação aos satélites é pouco evidente mas, na verdade, a Internet rural da One Web é conectada via satélite. É manifesto o interesse nacional pelo espaço, especialmente por satélites, portanto, é oportuno falarmos um pouco sobre eles.

Começando pela segunda notícia, a OneWeb é uma empesa que pretende disponibilizar Internet rural utilizando um sistema de constelação de satélites. O Sr. Greg Wyler é um eng. entusiasta e detentor de patentes para sistemas de satélites. A One web é a segunda empresa de satélites que ele cria, a primeira foi a OB3 (sigla em inglês Os outros 3 Biliões), cuja missão é semelhante a da One Web, permitir o acesso à Internet com qualidade aos biliões de pessoas no mundo que ainda não o conseguem fazer, utilizando satélites de baixa orbita, que giram varias vezes ao dia a volta da terra a uma altitude a 200 km, conceito diferente do utilizado pelo Angosat 1 e 2 que são geoestacionários ou seja giram a mesma velocidade que a terra gira sobre si mesma, pairando sobre o território de cobertura e têm de ser lançados até 36 mil km da altitude, sendo por isso muito mais caros.

A questão de orbita geostacionária, versos orbita baixa poderá interessar muito aos engenheiros, mas neste caso o interesse é mesmo falarmos um pouco sobre a indústria de satélites e tentar perceber por que estão a ser alocados, num período de menos de menos de dez anos, meio bilião de USD só para a sua construção e lançamento em orbita. E, sim, os sistemas para as pessoas em terra se comunicarem através do satélite não estão incluídos nesses montantes.

Quais serão as vantagens? que alternativas haverá? será que ser o único dono de cada satélite é a melhor e única forma de tirar proveito das vantagens dos satélites para o desenvolvimento do país? será que colocar o país na vanguarda do desenvolvimento tecnológico terá de passar necessariamente por termos satélites dedicados? qual será o custo de oportunidade, na linguagem dos economistas?

Para isso, gostaríamos de brevemente descrever alguns factos e ideias que possam contribuir para um debate alargado para resposta às questões colocadas, uma vez que o volume dos montantes alocados é bastante sério para que a abordagem pública se concentre nas piadas dos humoristas, que muito bem têm feito o seu papel de nos aliviar das dores causadas pela falta de compreensão do obvio.

Já lá vai tempo em que a Africa dependia total e exclusivamente de satélites para comunicar com o mundo e entre si. Os cabos de fibra óptica submarina e terrestre chegaram, viram e venceram, é através deles que se desenvolvem as telecomunicações em Africa no mundo. Os satélites passaram a ter um papel restricto e marginal no que diz respeito a telecomunicações, embora tenham ainda um papel dominante na distribuição de conteúdos de forma unidirecional, como o caso da televisão por satélite como a DSTV, ZAP e outras TV’s por subscrição, que está sendo também ameaçado pela televisão terrestre digital, cuja implementação está nos planos do Executivo.

Todavia, como a tecnologia está sempre em inovação e reinvenção, num processo evolutivo espiral têm surgido. Soluções inovadoras, como a proposta pela One Web, O3B já mencionadas, a SAS, empresa israelita, e tantas outras, que prometem relançar a utilização da tecnologia de satélites nas telecomunicações utilizando pequenos satélites, classificados com base no peso. Estão nessa categoria os satélites com peso compreendido entre os 100 gramas a 500 kg, categoria em que se encontra o satélite angolano Angosat1, lançado em Dezembro de 2017 com 262,4 Kg. (cada satélite da One web pesa 150Kg e planeia lançar 600).

Os projectos de satélite convencionais com órbita geo-estacionária, como o Angosat1, são bastante onerosos e comportam um alto risco de sustentabilidade a longo prazo. A tecnologia de pequenos satélites, devido ao baixo custo, é uma alternativa para as nações que pretendem empreender de forma cautelosa no espaço.

O conceito de satélites pequenos em si não é recente. Há algum tempo, devido ao seu baixo custo, estes satélites têm vindo a ser construídos para serem utilizados com mais frequência em aplicações fora da área das telecomunicações, como, por exemplo, para a recolha de informação meteorológica, levantamento geológico, gestão territorial e, inclusive, aplicações militares.

No seu livro Crouching Tiger: What China’s Militarism Means for the World, Peter Navarro, actual assistente do Presidente dos USA, Trump, e director do Conselho Nacional de Comércio da Casa Branca, descreve a utilização de pequenos satélites como uma das estratégias militares da China para criação de um enxame de satélites, centenas de pico satélites de baixo custo, que tornariam complemente cego o sistema de vigilância e defesa dos EUA construído com satélites de alto custo.

Também o Dr. Calestous Juma, já falecido, nascido no Gana, foi um eminente especialista em desenvolvimento e professor na Universidade de Harvard Kennedy Schools, publicou um estudo interessante sobre a oportunidade e o potencial da implementação de programas espaciais nacionais ou regionais em África para o desenvolvimento de pequenos satélites.

Os programas espaciais nacionais, na sua opinião, devem servir para suportar o desenvolvimento de outros sectores tecnológicos ligados à eletrónica, o documento refere ainda alguns casos de programas de desenvolvimento de pequenos satélites no Brasil, na Coreia do Sul e na África do Sul, considerando-os como alguns dos poucos com sucesso.

O documento faz menção à necessidade de uma avaliação profunda e análise realista do custo de oportunidade dos investimentos feitos nos programas nacionais de satélite, principalmente quando suportados por verbas públicas e, portanto, coloca-se sempre a questão de se na realidade servirão para a melhoria do bem comum ou apenas para se desperdiçarem recursos públicos que poderiam ser aplicados em sectores mais carentes de verbas, como a Educação e a Saúde.

É obvio que da mesma forma que para ter uma indústria automóvel não basta um país comprar automóveis, para ter uma indústria de satélite não basta comprar serviços e lançar o satélite. Assim sendo, os programas nacionais de satélite devem construir os protótipos dos equipamentos do satélite, dentro do país, nas empresas ou nas instituições de ensino superior. Em geral é nessas ultimas, para que possam beneficiar dos investimentos em laboratórios e poderem registar os direitos de propriedade intelectual das patentes desenvolvidas pelos seus engenheiros.

Nenhum dos três países citados no estudo deu continuidade aos projectos porque a implementação de programas de satélites não é uma questão trivial, e, portanto, deve merecer uma análise e discussão profunda entre os principais envolvidos: a universidade, a indústria, os decisores púbicos e a sociedade em geral, para que seja feita avaliação multifacetada e objectiva.

Na indústria de satélites já vimos inovações promissoras virarem grandes desastres, basta lembrarmo- nos da empresa Iridium, que idealizou e construiu uma constelação, ideia agora retomada pela One web, de cerca de 80 satélites para cobrir a crusta terrestre e dar comunicações em qualquer local recôndito do mundo. O projecto foi idealizado e teve como financiador principal a Motorola, a grande Motorola. Parecia uma ideia genial que tinha tudo para dar certo, mas não deu. Quando ficou concluído o lançamento de todos satélites a tecnologia estava ultrapassada, os custos de utilização eram altos. Em 1999, depois de ter gasto mais de 5 biliões de USD, a empresa foi obrigada a declarar falência nos Estados Unidos “Chapter 11”, só assim foi possível salvar parte do negócio, os fornecedores ficaram com alguma esperança de receber o dinheiro, mas os accionistas provavelmente nunca venham a recuperar o que investiram.

Depois de saneada, a empresa Iiridium ainda opera no mercado, embora numa escala muito menor do que aquela com que tinha sonhado inicialmente. Quanto a Motorola, que era líder mundial das telecomunicações e cuja marca entre nós praticamente significava radio e telefone, sendo o principal investidor, também foi a principal perdedora e nunca mais se recuperou do desastre. Hoje em dia, na gíria luandense este nome tem mais a ver com comida do que com telefones ou rádios.

Assim é o mundo das tecnologias, feito de alguns sucessos e muitos fracassos, aos quais também se juntou a empresa SpaceX do visionário e multibilionário de origem Sul Africana Elon Musk, o empreendedor do carro elétrico mais vendido nos EUA, o Tesla. Apesar do grande sucesso inicial, teve um acidente catastrófico com o foguete Falcon 9 em Setembro de 2016, do qual ainda não se conseguiu recuperar. Ninguém é imune e são necessários bolsos muito fundos para suportar os custos tanto do sucesso como dos fracassos.

São comprovadamente reconhecidos o alto custo e alto risco dos investimentos na indústria de satélites, por que razão um pais como Angola, em crise económica desde 2014, carente de recursos financeiros e humanos haverá de empreender nesta área de tecnologia? Se for considerado absolutamente necessário, ter-se-ão tomado as medidas adequadas para mitigar os riscos? Não.

A segunda melhor forma, testada e provada de mitigar riscos na indústria de satélites é partilhálos, por isso, o Sr. Greg Wyler está a viajar pelo mundo e passou por Angola, ele que está a fazer a segunda empresa e sabe certamente o quão importante é partilhar investimento para mitigar os riscos. Já conseguiu convencer vários, entre os quais a Softbank, uma das empresas mais ricas do Japão, O sr. Slim, o homem mais rico do México e o Governo do Ruanda, um dos com mais bom senso, aderiram e, segundo diz, o seu site conseguiu juntar até agora 1,2 biliões de USD para o seu segundo projecto. Os ricos estão a partilhar, e Angola, por que não partilha?

A primeira melhor forma de mitigar o risco é evitá-lo por completo. Sim, porque é possível e aconselhável colocar o país com uma agenda tecnológica relevante, fora da área de satélites, o que poderá então ser feito se os recursos agora alocados ao Angosat2 e Angosat3 forem alocados para outras áreas de desenvolvimento tecnológico.

No que se refere ao Angosat 2, poderá ser um pouco difícil, porque estão envolvidas terceiras entidades, entre as quais a seguradora, mas ainda deverá ser possível mitigar o risco pela partilha, uma vez que o mesmo está a ser produzido pela empresa francesa Airbus, que é parceira da One Web. Talvez seja possível converter estes recursos financeiros para produzir componentes dos satélites da One Web. Além de ser partilhado o risco, teríamos acesso a um ecossistema muito mais completo que um satélite sozinho, a One Web está a produzir um sistema fim a fim, que, além dos satélites, incluiu os terminais terrestres para comunicar e várias aplicações para gestão de serviços públicos: Por fim, seria bom para a nossa imagem estar em parceria directa com empresas internacionais, como a Softbank, reconhecidas pelos maiores fundos de investimento internacionais.

Quanto ao Angosat 3, seria evitar uma dupla despesa e evitar o risco utilizando os seus recursos, 179 milhões para outros fins, podendo construir acessos de fibra óptica para dar Internet de qualidade e muito alta velocidade a cerca 400.000 casas, escolas e escritórios em vários centros urbanos do país. A implementação dessa fibra óptica iria empregar centenas de jovens, desde engenheiros, instaladores, call centres, etc., aumentando o emprego e a renda nacional. Pode ser criado todo um suporte tecnológico para serem desenvolvidas várias aplicações para gerir a subvenção dos combustíveis diretamente aos táxis, pode ser usada para fazer crescer negócios novos como o Kubinga, Tupuka e outros que já existem e funcionam. Pode ser usado para desenvolver uma cloud nacional para disponibilizar capacidade de processamento com segurança, e em kwanzas, às instituições do estado e às empresas; pode ser usado para criar e fomentar um novo ecossistema tecnológico financeiro, as chamadas fintech; pode servir para desenvolver a nova tecnologia blockchain, com grande impacto nos registos de títulos de propriedade de bens imoveis etc., etc.. Se tudo isso for complicado, pode ser usado para chamar a Toyota e a Huinday e criar com cada uma delas uma joint-venture para implementarem indústrias automóveis, a fábrica da WV no Ruanda custou 20 milhões.

Existe um sem número de melhores oportunidades para utilização dos recursos financeiros do Angosat-3, em projectos de tecnologia dentro de Angola, criando muitos empregos para juventude, qualquer uma delas será melhor do que enviar esses recursos para um país estrangeiro, construir um pequeno aparelho, colocá-lo sobre um enorme cilindro cheio de combustível que será queimado em alta velocidade para colocar o nosso pequeno aparelho na orbita certa, se tudo correr bem. Poderá haver algo mais arriscado para colocar o nosso dinheiro?

Abdul Santos Eng. Telecomunicações, Consultor de TIC