Estranha forma de vida

Quando recebi a fotografia que nesta edição OPAÍS coloca como imagem do dia, lembrei-me de uma ver ter escrito que no futuro os arqueólogos haveriam de achar algo interessante a nossa forma de vida. Nas escavações encontrariam reservatórios de água em cada casa num tempo que não é de penúria de chuvas. Encontrariam também espaços de queima de combustíveis numa altura em que o mundo busca energias limpas. Talvez encontrem nestes sinais a causa da nossa extinção. É que estamos a viver alegremente destruindo-nos. A imagem sugere uma tolentodesuicídio colectivo. O prédio que tem como anexo esta floresta de tanques e geradores está situado no bairro Alvalade, dito da elite (e cada vez mais reforço a minha apreciação negativa sobre a nossa pseudo- elite), bem perto da Clínica girassol, também ela para atender quem tem muito dinheiro. O ruído dos geradores, a contaminação do ar por gases cheio de chumbo dos tubos de escape, a contaminação do solo pelos combustíveis derramados, a infestação por mosquitos criados nas águas paradas dos tanques ou nos pequenos charcos gerados pelas gotas que se escapam, estão a trabalhar para atingir a saúde dos moradores do prédio, a vizinhança e também como troco para quem vá gastar rios de dinheiro na Girassol. O pior é que o cenário é repetido em praticamente todos os prédios e casas do país. Os moradores dos prédios poderiam fazer apenas um tanque, ter apenas um gerador e uma electro- bomba que servisse a todos os apartamentos m, ou não? Claro que sim, mas nós temos um pacto tácito de auto-destruição. A nossa capacidade intelectual não vai até aí, recusa-se. Poderia haver simplesmente água corrente, da rede pública e electricidade também? Sim, poderia, mas o nosso vizinho que deveria disponibilizar prefere antes que paguemos pela nossa morte, e pela dele também, e dos seus filhos. Eu gostaria de voltar como arqueólogo daqui a mil anos, só para catalogaramorte mais estúpida de um povo.

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