Ocupação do espaço agrícola do Nguengue diminui o poder de sustento dos moradores

O cultivo dos campos constituía uma das actividades principais das famílias do bairro, que encontravam na pesca fluvial e nas trocas comerciais dos seus produtos o factor de sustentabilidade

O soba do NGuengue, comuna de Calumbo, no município de Viana, em Luanda, José Anselmo, manifestou o seu descontentamento a OPAÍS pelo facto de alguns cidadãos, que denomina forasteiros, terem ocupado paulatinamente a área que servia de cultivo para a sua comunidade, ao ponto de considerar que tal situação prejudicou ainda mais as condições de vida dos moradores dessa zona ribeirinha. “Apesar de termos problemas graves como a falta de transportes, emprego, água e escola, os habitantes do nosso bairro começaram a sentir a vida mais apertada, porque estão impedidos de cultivar a terra devido à ocupação das lavras por parte de alguns invasores que aí se foram instalando”, informou o soba do NGuengue, tendo adiantado que o cultivo dos campos lhes garantia produtos básicos como o milho e a mandioca, dos quais podiam extrair respectivas farinhas (fubas), bem como lhes proporcionar tomate, feijão e outras hortícolas.

José Anselmo revelou que os produtos por si citados serviam ainda para trocar por peixe do mar com alguns comerciantes da Barra do Kwanza, que frequentavam o bairro para tal fim, já que o pescado proveniente do rio não constituía problema para os moradores. Acrescentou dizendo que, com a colheita das lavras, ele e os seus vizinhos tinham garantida pelo menos uma refeição por dia. “Se uma família tem fuba e peixe, mais tomate e certas folhas do campo, como fez questão de citar as de aboboreira, feijoeiro e da mandioqueira, tem a certeza de que vai comer diariamente”, detalhou o soba Anselmo, que também se referiu às tentativas de cultivo de couve, repolho e batata. José Anselmo declarou que há mais de dois anos começaram a surgir grupos de pessoas que, à força, começaram a ocupar a área então reservada única e exclusivamente para a produção agrícola.

No princípio, o ancião desconfiou que os casebres montados pelos proprietários das lavras estavam a suscitar a cobiça pelo espaço, tendo na altura aconselhado os elementos da sua comunidade a desistir de tais práticas. “Mas, mesmo assim, parecia que o processo de ocupação já estava bem organizado e dirigido, porque os invasores não pararam, nem se amedrontaram com as nossas promessas de fazer queixa às autoridades da comuna e do município”, revelou o soba, que assegurou ter colocado as referidas preocupações à mesa dos responsáveis da comuna, sem respostas exitosas.

O espaço em causa dista mais de dois quilómetro do NGuengue, uma das razões que não facilitou o controlo oportuno dos proprietários das lavras, porquanto a maior parte das ocupações eram perpetradas no período nocturno, segundo contou o entrevistado, que narrou ainda o facto de acções do género terem ocorrido no Sábado e Domingo, dias em que grande parte da comunidade do NGuengue reserva para os seus cultos religiosos. Apesar de, actualmente, o bairro da Paz estar consideravelmente habitado, os moradores da vila que se localiza na margem esquerda do rio Lwei (afluente do Kwanza) esperam que as autoridades da comuna e do município intervenham a favor dos pequenos agricultores do NGuengue, ainda que a solução seja passar os novos habitantes da região para outras paragens dessa circunscrição.

Ocupantes alegam terem comprado terreno

Embora tenha sido difícil ouvir a coordenação do bairro da Paz e seus habitantes, uma cidadã encontrada no Bita Tanque, município de Belas, que se identificou como moradora da zona em causa, informou à equipa de reportagem deste jornal que ela e alguns vizinhos que chegaram primeiro ao bairro compraram as lavras dos próprios proprietários. “Existe muita gente que foi lá viver por conta própria e à força, mas eu e os meus vizinhos mais próximos comprámos mesmo os terrenos dos próprios donos e ainda eram lavras”, contou a senhora, que revelou ainda ter trabalhado para a antiga dona da parcela de terra onde construiu a sua casa. Na ocasião, um outro individuo, também residente do bairro da Paz contactou, por via de um telefonema, os seus colegas da coordenação, que prometeram falar do assunto dentro em breve, conforme esta reportagem pôde ouvir do meio, accionado em “viva voz”.

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